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20
maio
10

A Fantástica Fábrica de Chocolate

O livro “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, do escritor Roald Dahl, trata de uma fábrica de chocolate fechada e ninguém sabia o que acontecia lá dentro. A população da cidade onde a fábrica estava instalada só sabia que de lá saíam os doces e chocolates embrulhados e arrumadinhos, já prontos para serem vendidos. Mais nada além disso. Cinco crianças teriam a sorte e a chance de conhecer o que todos tinham muita curiosidade: como era o interior da fábrica e ver de perto como os doces suculentos e deliciosos eram feitos. No entanto, os sortudos teriam que participar de uma disputa que consistia em encontrar os cinco cupons dourados presentes nas barras de chocolate Wonka. Tudo isso foi planejado e organizado pelo dono da fábrica, Willy Wonka.

Charlie Bucket é um garotinho que mora com os pais e os quatro avós, Vovô José e Vovô Jorge e Vovó Josefina e Vovó Josefina em uma casa pequena e apertada para tantas pessoas. Sem contar que a casinha era de madeira, bem sim e desconfortável em meio a uma cidade enorme.

De toda a família, o único que trabalhava era o Sr. Bucket. Ele era funcionário de uma fábrica de pasta de dentes. A sua função era colocar as tampinhas nos tubos de pasta de dente e isso não dava muito dinheiro. Desta maneira, eles passavam bastante aperto. Tendo poucas opções para compras de alimentos, eles comiam muito pouco.

O que Charlie mais tinha vontade de comer na vida era chocolate, mas tinha que se contentar com repolhos e batatas. E ele só comia chocolate uma vez por ano, no dia do seu aniversário. A família toda economizava dinheiro para poder lhe dar o chocolate de presente.

Charlie morava pertinho da fábrica de chocolate do Sr. Wonka e isso era uma tortura para o garoto. A fábrica era maravilhosa e soltava nuvens de fumaça pelas chaminés, liberando um cheiro forte e delicioso de chocolate derretido que se espalhava por todos os lados. Charlie adorava aquele cheiro e o seu sonho era conhecer a fábrica por dentro, pois a fábrica pertencia ao mais esperto e inteligente fabricante de chocolate do mundo. O verdadeiro mago do chocolate que faz invenções realmente fantásticas e exportava para todo lugar do mundo.

Toda noite Charlie ia para o cômodo onde dormiam os seus quatro avós. Eles dividiam uma única cama e Charlie gostava de ficar meia hora com eles toda noite antes de dormir, pois adorava ouvir as histórias que eles tinham para contar.

Uma delas era sobre o príncipe indiano Pondicherry. O príncipe uma vez escrevera uma carta para o Sr. Willy Wonka pedindo para ele ir à Índia construir um palácio inteirinho de chocolate. E assim, o Sr. Wonka fez. Tudo era de chocolate: os tijolos, o cimento, as janelas, o teto, bem como os tapetes, os quadros, os móveis e até mesmo as camas.

Quando o palácio ficou pronto, o Sr. Wonka avisou ao príncipe que era melhor ele começar a comer rapidamente todo o castelo, pois ele não duraria muito, afinal a Índia é um pais muito quente. Mas o príncipe não deu ouvidos ao conselho de Willy Wonka e disse que era um absurdo ele sugerir que ele comesse o seu palácio, pois ele moraria lá. Mas, mais uma vez, o Sr. Wonka estava certo. Um dia de sol bem forte derreteu todo o palácio do príncipe e ele se viu nadando em um rio de chocolate.

Charlie ficou maravilhado com essa história. Mas outra coisa o deixou intrigado: ele nunca vira ninguém entrar ou sair da fábrica, pois os portões viviam trancados. Qual tipo de trabalhador existia na fábrica? Seriam humanos? Isso se passava na cabeça de Charlie e dos seus avós.

Na noite seguinte os avós de Charlie continuaram contando histórias sobre o Sr. Wonka. Charlie queria saber sobre os misteriosos trabalhadores. Quem começou a falar fora Vovô José. Ele disse a Charlie que há algum tempo atrás havia milhares de trabalhadores na fábrica do Sr. Wonka, mas do nada em um certo dia, o dono da fábrica dispensou todos os trabalhadores e justificou que estava fazendo isso por causa do espiões que tentavam roubar as receitas de Wonka. Após dispensar todos os funcionários, o Sr. Wonka fechou os portões da fábrica. Não se via mais fumaça saindo das chaminés e o Sr. Wonka sumiu por meses e meses.

No entanto, certo dia, bem cedo, nuvens de fumaça voltaram a aparecer saindo das chaminés. Todos na cidade ficaram se perguntando se teriam os seus empregos de volta, mas os portões da fábrica continuavam fechados. Mesmo que não se pudesse ver o Sr. Wonka, as pessoas sabiam que a fábrica estava funcionando. Eles viam sombras de trabalhadores (bem pequenos) na fábrica. Mas não se sabia quem eram as pessoas que trabalhavam lá, afinal ninguém entrava nem saía da fábrica. Após isso, os chocolates e doces ficaram cada vez mais fantásticos e deliciosos.

Enquanto Charlie conversava com os avós, o Sr. Bucket entrou no quarto com um jornal nas mãos gritando que havia uma manchete dizendo que finalmente a fábrica Wonka seria aberta para alguns felizardos.

Na matéria do jornal da cidade o Sr. Wonka dizia ter decidido permitir que cinco crianças visitassem a fábrica dele ainda naquele ano. Seriam recebidos por ele e conheceriam os segredos da sua fábrica. Explicar que cinco cupons dourados foram impressos em papel dourado e estariam escondidos por baixo do papel de cinco tabletes de chocolate. E esses cupons poderiam estar em qualquer país. Termina dizendo que os felizardos após a visita à fábrica recebiam um brinde: chocolates e doces que durariam por toda a vida.

Charlie ficou pensando e imaginando como seria maravilhoso poder encontrar esse cupom. Mas logo em seguida se sentiu desanimado, afinal ele só comia uma barra por ano enquanto outras crianças compravam diversos, ou seja, elas teriam muito mais chances.

No dia seguinte o primeiro felizardo fora premiado. O garoto de nove anos, Augusto Glupe, foi o primeiro a encontrar um dos cupons dourados, conforme fora anunciado em um jornal. O garoto era muito gordo e tinha cara de ser muito guloso. Os avós de Charlie tiveram uma péssima impressão do garoto e da sua mãe. Com a notícia de que o primeiro cupom fora encontrado, o mundo inteiro começou uma corrida louca para encontrar os demais cupons.

Pouco tempo depois os jornais anunciaram que o segundo cupom dourado fora encontrado. Desta vez por uma garota chamada Veroca Sal, uma garota proveniente de uma família riquíssima. O pai da menina comprara caixas e caixas de chocolates e mandara os seus funcionários da sua empresa de amendoim abrir cada chocolate para ver se o cupom dourado era encontrado. Tudo isso só comprovava como a garota era mimada e por causa disso os avós de Charlie também tiveram uma péssima impressão da garota.

No dia seguinte era o dia do aniversário de Charlie. O garoto estava muito ansioso para ganhar a sua barra de chocolate. Estava também esperançoso para encontrar o terceiro cupom dourado.

Quando recebeu o seu presente de aniversário, Charlie foi para o quarto dos seus avós para abrir com eles. Mas para a decepção do garoto, a barra de chocolate só continha o chocolate, nada do cupom dourado.

Além de não ter ganho o cupom como presente de aniversário junto com a sua barra de chocolate, Charlie ainda ficou sabendo que mais dois cupons foram encontrados naquele mesmo dia. Restava agora apenas um.

O terceiro cupom fora encontrado por Violeta Chataclete. Mal se entendia o que a garota dizia na entrevista porque ela mascava um chiclete o tempo todo e ferozmente. Ela não podia viver sem chiclete. Mais uma vez os avós de Charlie não gostaram do ganhador e já imaginavam que o quarto também deveria ser um entojo.

A quarta criança a encontrar o cupom dourado fora um garoto chamado Miguel Tevel, de nove anos de idade. Quando a equipe de jornalistas foi a casa deles para o entrevistar, o garoto se mostrou todo incomodado pois estava assistindo televisão e não queria ser incomodado nem interrompido. Os avós de Charlie nem agüentaram mais saber nada sobre o último ganhador. Acharam todas as crianças que ganharam insuportáveis e já ficavam imaginando como seria o último vencedor, outro chato, na certa.

Penalizado pela tristeza e decepção do neto, o Vovô José chamou Charlie no dia seguinte quando todos os outros avós estavam dormindo, tirou a sua única moedinha da carteira e deu para Charlie comprar uma barra de chocolate e tentar a sorte. Mas quando Charlie chegou em casa com a barra de chocolate e eles abriram, não encontraram nada além de chocolate.

Duas semanas se passaram e nada do último cupom aparecer. Só o que apareceu foi a neve que deixou todos os moradores da casinha de madeira com muito frio. A família Bucket nem pensava mais no cupom dourado. Eles só se preocupavam com o frio e a fome. Para piorar ainda mais as coisas, a fábrica em que o Sr. Bucket trabalhava faliu e ele ficou desempregado.

A situação era desesperadora. As refeições para a família começaram a diminuir e a comida foi ficando escassa. Aos poucos, os sete membros da família foram ficando desnutridos.

Charlie um dia estava voltando da escola para casa e viu uma moeda no chão, no meio da neve. Para Charlie, aquela moeda tinha um significado bem importante: comida. Então iria a loja mais próxima, comprar uma barra de chocolate para comer todinha e o troco daria para a sua mãe.

Charlie ao chegar a loja pediu ao vendedor uma barra de chocolate Wonka. Comeu todo o chocolate sem mal respirar direito. Quando terminou, olhou para as moedinhas e achou que não teria problema se gastasse apenas mais uma para comprar outra barra de chocolate. Quando Charlie abriu a nova barra, viu que havia algo brilhando na embalagem do chocolate. O vendedor começou a gritar que o garoto havia encontrado um cupom dourado. De repente várias pessoas começaram a rodear Charlie querendo ver o cupom e algumas pessoas tentaram se aproveitar do garoto, lhe oferecendo dinheiro (pouco) pelo cupom. Até que o vendedor afastou todo mundo e mandou que o garoto fosse correndo para casa com cuidado para não perder o cupom. E assim Charlie procedeu.

Quando o garoto chegou em casa estava eufórico. Chamou a mãe para ver o último cupom dourado que ele encontrara. Todos ficaram muito felizes pelo garoto. O Sr. Bucket ao chegar em casa vira a euforia e quis saber o que estava acontecendo. Ao pegar o cupom ele lera a mensagem que havia e diz que o Sr. Wonka receberia os felizardos no primeiro dia do mês de fevereiro, às 10 horas da manhã e pede que o ganhador leve um ou dois adultos para tomar conta dele. A pessoa que iria com Charlie seria o Vovô José. Inesperadamente ouviram batidas na porta da casa. Quando o Sr. Bucket abriu, deu de frente com um monte de repórteres querendo entrevistar o último ganhador e desejando contar a história do garoto.

No primeiro dia de fevereiro, os portões da fábrica estavam apinhados de gente gritando e inquieta querendo ver os cinco ganhadores. Charlie percebeu que as outras quatro crianças estavam acompanhadas pelos pais, mas ele estava feliz por estar na companhia do Vovô José.

Quando deu 10 horas, os portões se abriram e Willy Wonka apareceu sozinho com uma cartola preta na cabeça e um fraque de veludo cor de ameixa, com calças verde-garrafa e luvas cinza-pérola. Em uma das mãos segurava uma bengala com cartão de ouro. Willy Wonka tinha olhos muito brilhantes e parecia ser cheio de vida. Ele recebeu cada uma das crianças, os cumprimentou e os levou para dentro da fábrica. A medida que o grupo ia visitando a fábrica, o Sr. Wonka ia explicando como funcionava as instalações. Em um determinado momento, eles chegaram a Sala dos Chocolates. O Sr. Wonka explicou que ali era uma sala muito importante, pois era o coração da fábrica. Quando os visitantes entraram, ficaram maravilhados com o que viram: um vale lindo com um rio marrom. No meio do rio havia uma cachoeira fantástica. Embaixo da cachoeira havia enormes canos de vidro, sugando a água marrom do rio que na verdade era um rio de chocolate. A cachoeira misturava o chocolate. A única fábrica no mundo a fazer isso.

Os visitantes estavam perplexos com tudo o que viam. Para completar, o Sr. Wonka apontou para as plantas, árvores e arbustos que eram comestíveis. Todos começaram a comer a grama e as copas-de-leite. Veroca Sal deu um grito apontando para o outro lado do rio. A garota gritava perguntando o que eram aquelas coisas pequeninas que estavam andando. Todos começaram a se perguntar quem seriam esses homenzinhos que pareciam bonecos. Sr. Wonka então diz que eles não eram pessoas de verdade e sim umpalumpas, importados de Lumpalópolis, um lugar muito perigoso. Ele conta que um dia visitara o local e percebera a vida miserável que os umpalumpas viviam. Ficou sabendo que os umpalumpas eram loucos por cacau e ele utilizava bilhões de sementes de cacau todas as semanas na fábrica dele. Assim, todos eles poderiam comer sementes de cacau a vontade. Imediatamente o chefe dos umpalumpas aceitou a proposta e se mostraram trabalhadores maravilhosos.

Enquanto isso, o garoto Augusto se afastara do grupo e fora até o rio e estava tomando o chocolate quente do rio, para o desespero do Sr. Wonka que pede que ele pare pois o chocolate da fábrica não deveria ser tocado por mãos humanas, para não sujar.

Augusto acabou se desequilibrando e caiu dentro do rio de chocolate e estava sendo sugado para perto da boca de um dos imensos canos suspensos sobre o rio. Quando fora sugado para dentro de um dos canos, todos os demais visitantes ficaram ansiosos para saber para onde Augusto iria. No entanto, o garoto começou a parar e ficara entalado por causa da sua barriga que estava bloqueando o cano.

A Sra. Glupe, mãe de Augusto, percebeu que o menino havia desentalado e sumira cano acima. Começara a gritar querendo saber para onde fora o seu filho. Willy Wonka diz para ela se acalmar que ele fora apenas fazer uma viagenzinha e ria muito. Os pais de Augusto ficaram revoltados pensando que o seu filho viraria cobertura de bolo e exigem ver o filho naquele exato momento. Sr. Wonka então estala o dedo três vezes e apareceu um umpalumpa ao lado dele na mesma hora. Wonka solicitou que o umpalumpa levasse os pais de Augusto até a sala de cobertura de chocolate para que pudessem encontrar o garoto.

Os umpalumpas do outro lado do rio de chocolate começaram a cantar uma música sobre Augusto Glupe. Na música eles diziam que o garoto só sabia comer, chamam ele de chato e dizem que se pudessem transformariam o garoto em brinquedo. Pela música, fica parecendo que os umpalumpas enviaram o garoto de propósito para a sala de cobertura para ver se eles se tornava um garoto melhor, menos azedo.

O passeio pela fábrica continuou. Desta vez, os visitantes e o Sr. Wonka desceram o rio por um barco todo feito de um doce rosa remado pelos umpalumpas. Charlie estava maravilhado com o que via. O barco entrou em um cano e os umpalumpas remavam como loucos. Os pais dos visitantes estavam com muito medo e só quem parecia estar se divertindo muito era o Sr. Wonka.

Eles passaram por várias salas, mas não tinham tempo para parar em todas elas. Então quando o barco passou pela porta vermelha brilhante p Sr. Wonka ordenou que os umpalumpas parassem o barco. Era a porta da Sala das Invenções. Sr. Wonka disse que aquela era a sala mais importante de toda a fábrica, pois ali era onde as invenções dele mais secretas eram testadas. Pede que ninguém toque em nada, não quebre nada, não experimente nada e não faça bagunça.

Quando eles entraram na sala, o Sr. Wonka ficou muito feliz, nitidamente dava para perceber que ali era a sua sala favorita. Ele olhava tudo, mexia em tudo, provava o conteúdo das panelas e vasilhas. Charlie notou que algo verde duro como mármore caía no chão. Mas eram quebra-queixos perpétuos, explicou o Sr. Wonka. Os quebra-queixos perpétuos eram para crianças que ganhavam mesadas muito pequenininhas e por mais que se chupasse nunca diminuíam de tamanho.

Em seguida o Sr. Wonka levou o grupo até uma máquina enorme que ficava bem no meio da sala de invenções, era uma imensa máquina de fazer chiclete. Violeta Chataclete deu um gritinho de alegria. E o Sr. Wonka disse que aqueles chicletes eram surpreendentes, fabulosos e sensacionais, os melhores do mundo: eram os chicletes-refeição. Um pedacinho do chiclete vale como um jantar.

Dr. Wonka diz que quando ele começar a vender esses chicletes nas lojas, será o fim de todas as cozinhas e cozinheiras, não será mais preciso fazer compras, sem ter facas, nem garfos, nem pratos, nem sujeira e nem lixo. Diz que o pedacinho que acabara de sair da máquina era sopa de tomate, rosbife e torta de morango, no entanto, cada um poderia escolher o seu cardápio.

Violeta Chataclete queria provar. Se tratando de chiclete, o assunto era com ela mesma. Mas o Sr. Wonka lhe diz que é melhor não mexer naqueles chicletes ainda, afinal ele não sabia se estava perfeito, ainda havia algumas coisinhas para acertar. Mas a menina não deu ouvidos, pegou o pedacinho de chiclete, começou a mascar furiosamente, surpresa com o sabor das refeições, enquanto o Sr. Wonka mandava que ela parasse, pois ele não estava testado ainda.

A garota foi começando a ficar roxa, com cor de amora. Começou pelo nariz, depois bochechas, depois o queixo, e em seguida o rosto inteiro ficou roxo. A garota estava toda roxa, até o seu cabelo. O Sr. Wonka diz que havia avisado que o chiclete ainda não estava pronto. Mas isso não foi tudo, a menina começou a inchar, como uma amora. A garota se transformara em uma amora gigante.

O Sr. Wonka estalou os dedos e dez umpalumpas apareceram na sala. O Sr. Wonka manda que os umpalumpas levassem a garota para a Sala dos Sucos para que pudesse espreme-la para tirar o suco dela. O Sr. e a Sra. Chataclete saíram correndo atrás da filha. Os umpalumpas começaram a cantar uma música sobre Violeta, diziam que ela era irritante, que só sabia mascar chiclete. Mais uma vez eles deram a entender que o que acontecera com Violeta foi para lhe dar uma lição, bem como o que ocorrera com o garoto Augusto.

Então eles saíram da sala de invenções para conhecer mais setores da fábrica. Passaram por várias portas, mas não pararam em nenhuma. Mas ao passarem pela porta que estava escrita: Doces Quadrados e Curiosos. O Sr. Wonka quis parar e entrar. Pelo vidro da porta, os visitantes viram que havia uma mesa cheia de doces quadradinhos, branquinhos que pareciam normais, e os umpalumpas iam pintando carinhas rosadas nos doces. Quando o Sr. Wonka abriu a sala, todos os doces olharam para os visitantes, de forma curiosa.

Em seguida eles continuaram andando pela fábrica. Pararam em frente a porta que dava acesso à sala das nozes. Mas apenas para darem uma olhada pelo vidro, pois não deveriam entrar na sala, para não atrapalhar os esquilos. Centenas de esquilos sentaram em banquinhos altos e descascavam nozes a toda velocidade.

Veroca Sal tudo queria. A menina mimada queria porque queria um esquilo. Mas não um esquilo qualquer, só servia se fosse um esquilo treinado. O Sr. Sal então vai para perto do Sr. Wonka com a carteira na mão e pergunta quanto ele quer por um desses esquilos. O Sr. Wonka lhe diz que não estão à venda. A menina se aborreceu e disse que iria pegar um. Quando o Sr. Wonka lhe disse para não entrar na sala, já era tarde. A garota já havia aberto a porta e entrara correndo.

Assim que ela entrou, todos os esquilos pararam de fazer o que estavam fazendo. Olharam para ela e assim que a garota agarrou um dos esquilos, todos os demais correram rapidamente para cima dela e começaram a agarrar a garota e o esquilo que estava na mão dela caminhou até a cabeça da garota e começou a bater uma noz na cabeça dela.

A Sra. Sal começou a gritar pedindo que alguém salvasse a sua filha e o Sr. Wonka fiz que os esquilos estavam testando ela para ver se não era nenhuma noz estragada. Os esquilos continuaram atacando a garota. Até que a colocaram no chão e começaram a carregá-la pelo assoalho. O que significava que a garota era uma noz estragada e, assim como eles faziam com todas as nozes estragadas, estavam levando a garota de cabeça oca para o cano de lixo.

A Sra. Sal entrou correndo na sala, se debruçou sobre o cano que levava ao lixo, chamou pela filha e os esquilos a empurraram lá para dentro. Quando foi ver o que acontecera com a esposa, o Sr. Sal acabou caindo também dentro do cano.

Mais uma vez eles ouviram os umpalumpas cantando uma canção. Eles diziam que Veorca Sal era mimada, fora estragada e não se contentara com o que tinha, sempre querendo mais e mais.

Sr. Wonka olhou para o grupo ao seu redor e percebeu que só sobraram duas crianças: Miguel Tevel e Charlie Bucket e três adultos: Sr. e Sra. Tevel e Vovô José. Sr. Wonka chama o pequeno grupo para continuarem andando para conhecer a fábrica. Mas Miguel Tevel diz que já estava cansando e queria assistir televisão.

O Sr. Wonka diz que se ele está cansando, é melhor eles pegarem o elevador que estava logo ali. Quando eles entraram no elevador, Charlie percebeu que era o elevador mais louco que ele já vira na vida. Tinha botões para todos os lados. O Sr. Wonka disse que aquele não era um elevador comum que subia e descia. Ele andava para o lado, para frente, em diagonal e de qualquer outro jeito. Levaria eles para qualquer lugar da fábrica.

Miguel Tevel queria que houvesse uma sala com televisão e o Sr. Wonka disse que havia: Chocolate – Televisão. Então o garoto apertou o botão que levava a essa sala. Quando chegara, o Sr. Wonka avisou a todos que deveriam tomar cuidado ali, pois havia substâncias perigosas e não deveria mexer com elas.

Os visitantes e o Sr. Wonka entraram na sala. Perceberam que era muito branca e brilhante. Eles precisaram fechar os olhos o tempo todo. O Sr. Wonka deu para cada pessoa um par de óculos escuros e disse que eles não deveriam tirar os óculos, independente do que acontecesse, pois a luz poderia cegá-los. Com os óculos eles puderam enxergar direito. Charlie viu que em uma extremidade da sala havia um umpalumpa sentado na frente de uma mesa observando a tela de uma televisão enorme.

Ali era a sala de teste da última invenção do Sr. Wonka: o chocolate – televisão. O Sr. Wonka conseguia desintegrar uma enorme barra de chocolate, enviava-a como eletricidade e uma pequena barra de chocolate aparecia na tela da TV. O mais impressionante era que se você estendesse a mão poderia pegar a barra e comer, de verdade. Todos ficaram muito impressionados. E o mais entusiasmado fora Miguel Tevel.

O garoto queria saber se era possível se transmitir outras coisas pela TV. Sr. Wonka disse que sim. Então Miguel Tevel quis saber se poderia transmitir gente. Willy Wonka disse que achava que sim mas era perigoso. Mal o Sr. Wonka terminara de falar, o garoto já fora em direção a câmara, pois queria ser o primeiro garoto a ser transmitido pela TV.

Então o garoto sumiu. Depois aparecera na televisão. O Sr. Wonka mandou que os pais do garoto pegassem ele. O menino tinha o tamanho de um dedo. O pai dele disse que nunca mais deixaria ele assistir TV, o que fez com que o garoto desse um chilique.

Sr. Wonka disse que poderia tentar esticar o garoto na máquina que estica chiclete e estala o dedo para que surgisse ao seu lado um umpalumpa que levou o garoto e os seus pais com um papel com instruções de como utilizar Miguel.

Rapidamente um grupo de umpalumpa começou a bater seus pequenos tambores e começaram a cantar uma canção que dizia que essa aventura maluca poderia ser uma arapuca que dos cinco do início da história, só um teria a vitória.

Quando entraram no elevador, o Sr. Wonka surpreso, diz que só sobrara Charlie, sendo ele, portanto, o ganhador. Parabenizou o garoto e disse que desde o começo tinha a sensação de que ele seria o vencedor.

O Sr. Wonka apertou um botão que os levou para cima. O elevador atravessou o teto da fábrica e estava subindo para o céu como um foguete. O elevador parou e era como se estivesse flutuando sob a fábrica. Lá de cima eles puderam ver as outras crianças voltando para casa.

Então ele apertou um botão e o elevador desceu. Eles viram caminhões enormes, cobertos, estacionados em fila. Eram os caminhões com suprimentos de doces para os que acharam os cupons dourados. Havia um caminhão para cada um, cheio até o teto de doces.

Sr. Wonka queria dizer algo para Charlie. Então apertou um botão e o elevador voltou a subir para o céu. Lá em cima o Sr. Wonka disse que gostava muito da fábrica dele e perguntou se Charlie também gostara. Então deu a Charlie a sua ábrica para o garoto administrar. Contou que não tinha herdeiros, era mais velho que eles imaginaram e precisaria deixar nas mãos de uma criança boa, doce e carinhosa. Escolhendo para isso Carlie. Diz que todos poderiam morar na fábrica e ajudar Charlie até ele ter idade para administrar a fábrica sozinho.

O Sr. Wonka entrou na casa de Charlie com elevador e tudo pelo teto. Um monte de madeira, poeira, barata e aranha caíram de cima dos outros três avós de Charlie. Todos ficaram morrendo de medo. O Sr. e a Sra. Bucket ficaram desolados ao verem a casa destruída. Mas Charlie e Vovô José explicam que todos iriam morar agora na fábrica.

Os outros avós de Charlie se recusaram a ir, mas o Sr. Wonka coloca a cama dentro do elevador e leva todos para a fábrica. Eles querem saber se lá teriam algo para comer e Charlie diz que nem imaginavam o quanto.

A função moralizante da literatura para crianças predominou na maioria dos livros do século XVIII e Roald Dahl apesar de um escritor moderno, permaneceu com essa premissa de literatura para crianças com função de divertir e também de moralizar e educar.

A partir do momento que as demais crianças não se comportavam ou precisavam ser educadas, elas receberam punições dentro da Fantástica Fábrica de Chocolates. Bem como a criança mais bem comportada e educada foi a que fora recompensada e com uma grande recompensa. A lição de Roald Dahl para os pequenos leitores é que sejam bons e terão recompensas. Função educativa e moralizante.

Eu não gosto muito de literatura moralizante, mas não há como negar que “A Fantástica Fábrica de Chocolate” é incrível, criativa e como mexe com o imaginário do leitor. Sem contar que a adaptação que ganhou para o cinema, sob a direção de Tim Burton, é maravilhosa. Colorida, divertida e ainda conta com  a ótima (como sempre) atuação do ator Johnny Depp como Willy Wonka.

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23
abr
10

No subterrâneo da fantasia

Não estou ansiosa para assistir “Alice no País das Maravilhas” e confesso que estou ficando desanimada diante de tantas críticas negativas que tenho lido a respeito do filme. Mas, de longe, essa matéria a seguir da revista Veja dessa semana, foi a mais cruel, e ouso dizer, talvez a mais injusta.

A repórter inclusive chega a sugerir que o diretor Tim Burton confundiu as duas rainhas – a de Copas, de “Alice no País das Maravilhas” com a Vermelha, de “Alice Através do Espelho”. Como se fosse possível um diretor do gabarito de Tim Burton confundir duas personagens de livros diferentes. De fato quem diz o bordão “Cortem-lhe a cabeça” é a Rainha de Copas, não a Rainha Vermelha, como esta acaba falando com freqüência no filme.

Tim Burton declarou em mais de uma entrevista que ele não estava preocupado em ser fiel ao livro. O foco dele seria nas personagens. Tanto é que a própria personagem principal, Alice, não é mais uma criança e sim uma adolescente.

No próprio trailer do filme eu pude perceber que Alice retorna ao País das Maravilhas. Tim Burton não quis simplesmente mudar deliberadamente a idade de Alice. O próprio Chapeleiro Maluco não é igual ao livro. Bem como diversas situações no País das Maravilhas.

A repórter critica ainda que no filme há lutas, guerras, o bem contra o mal e argumenta que no livro não existe luta entre o bem e o mal. Mais uma vez eu digo que o diretor não estava querendo fazer de “Alice no País das Maravilhas” uma produção fiel ao livro como aconteceu em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” que ele também dirigiu e foi de fato uma adaptação do livro.

Quando Lewis Carroll escreveu as aventuras de Alice o que as crianças gostavam de ler (ainda não consigo classificar Alice como um livro infanto-juvenil) não era o mesmo do que as crianças e jovens de hoje querem ler. Muito menos ver nas salas de cinema. As crianças de hoje querem sim batalhas entre seres fantásticos, se fosse o contrário como justificar o sucesso de “Harry Potter” e “Percy Jackson”? Tim Burton pode ter errado em um ou mais pontos, mas na minha opinião, ele não errou neste. Ele apenas modernizou a história. Mas só poderei ter mais opiniões após assistir ao filme.

Revistas  »  Edição 2161 / 21 de abril de 2010

Cinema

No subterrâneo da fantasia

 

“Alice no País das Maravilhas” parecia ser uma escolha lógica para o diretor Tim Burton. Mas sua versão do clássico do escritor Lewis Carroll é ao mesmo tempo feérica e tímida

Isabela Boscov

http://veja.abril.com.br/210410/subterraneo-fantasia-p-130.shtml

Fotos divulgação

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI
Mia Wasikowska, no papel da Alice crescidinha: a atriz australiana seria uma ótima escolha para a personagem – se esta houvesse sobrevivido à revisão do diretor

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, o título com que o clássico infantil de Lewis Carroll ficou conhecido desde sua primeira publicação em português, em 1865 (logo em seguida ao lançamento da edição original inglesa), tem algo de enganoso. Uma tradução mais exata – embora talvez menos convidativa – para Alice in Wonderland seria Alice na Terra dos Assombros. Pois assombros, de fato, é só o que a pequena Alice encontra a partir do momento em que cai na toca de um coelho branco (não é à toa que ele chama a sua atenção; o coelho veste uma casaca) e, no fundo dela, se descobre em um mundo cuja lógica, se é que ela existe, em nada se parece com a lógica deste mundo. Como em um delírio de febre, Alice estica ao comer um biscoito, e então encolhe ao provar uma beberagem. Depara com uma lagarta que fuma um narguilé e com um gato cujo sorriso fixo continua pairando no ar mesmo depois que ele se vai. Dá braçadas em uma lagoa feita de suas próprias lágrimas. Comemora seu desaniversário e participa de um chá da tarde com um chapeleiro que, como bem descreve seu nome, é maluco. E é convocada a testemunhar em um julgamento sobre um roubo de tortas na corte da irascível Rainha de Copas, que tem cartas de baralho no lugar de lacaios e cuja ordem mais frequente – aliás, a única que ela sabe dar – é “cortem-lhe a cabeça!”. Tudo muito curioso, mas não propriamente maravilhoso: todos esses personagens tentam provocar, hostilizar ou ridicularizar Alice – com sucesso. Ou seja, Alice não consegue ficar à vontade nem no mundo que tem de habitar, nem no mundo criado por sua imaginação (no desfecho, esclarece-se que tudo não passou de um sonho). Não surpreende, assim, que essa seja uma das histórias prediletas de Tim Burton, o diretor de Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e A Fantástica Fábrica de Chocolate: Burton construiu toda uma carreira sobre as dores e frustrações causadas pelos sentimentos de inadequação – os de seus personagens e também os seus. Surpreende, entretanto, que sendo Alice uma escolha tão, bem, lógica para o diretor, ele tenha demorado tanto tempo para realizar sua adaptação. Tempo demais, na verdade.

 

Tudo em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, Estados Unidos, 2010), que estreia no país na próxima sexta-feira, tem aquele travo das ideias que foram analisadas, racionalizadas e buriladas até que a última centelha de vida fosse apagada delas. A imaginação visual de Burton, sua maior assinatura e melhor recomendação, atinge aqui um pico febril. Cada cena é uma explosão de cores, mas elas frequentemente adquirem tons biliosos. O 3D, formato para o qual o filme foi convertido depois de ter sido rodado no 2D convencional, é usado de maneira agressiva, quase vulgar. Nenhum personagem é poupado de fazer sua aparição. Vários, porém, são apresentados e logo depois largados no meio do caminho. Outros são adulterados sem que se identifique uma boa razão para tal: a Rainha de Copas, por exemplo, mantém sua personalidade, mas é chamada aqui de Rainha Vermelha, uma personagem bem diferente e que só existe em Através do Espelho, a sequência de País das Maravilhas publicada em 1871. O motivo parece ser a necessidade de contrapô-la à meiga Rainha Branca, que no filme é sua irmã e rival – Vermelha (Helena Bonham Carter) usurpou o trono de Branca (Anne Hathaway), e Alice é quem vai ter de comandar as forças do bem em uma guerra para derrubar a tirana e seus asseclas maléficos. Forças do bem? Guerra? A certa altura, Alice no País das Maravilhas, ícone da literatura vitoriana e manifesto em favor do nonsense promulgado em uma era que se inebriara do racionalismo, sai de vez do seu curso e vira uma fantasia medieval com batalhas, espadas e armaduras. Vira, enfim, uma tentativa desanimada, sem alma nem convicção, de emular sucessos da fantasia como O Senhor dos Anéis e Harry Potter e de, como neles, galvanizar o público em torno de um protagonista incumbido de uma missão messiânica. 

MALUCO BELEZA
O Chapeleiro Maluco vivido por Johnny Depp é um rebelde melancólico,- inconformado mas impotente para se erguer sozinho contra a tirania da Rainha Vermelha. No livro de Lewis Carroll, ele tem lá suas diferenças com a monarquia, mas está longe de ser esse anarquista manso: quando está sentado à sua absurda mesa de chá, é também ele um déspota – e se mostra sempre rude com Alice

 

Se há dois sintomas claros de que esta Alice passou por um processo de desnaturação, porém, eles estão, primeiro, na figura triste em que o originalmente insolente Chapeleiro Maluco se transformou: quando Johnny Depp está em cena, com lentes que deixam seus olhos repletos de melancolia do tamanho de dois pires, o filme transpira o que de fato gostaria de ser – mais uma história em que Depp assume o lugar de alter ego trágico do diretor, e em que garotas perdidas em um labirinto de silogismos provavelmente não teriam muito que fazer. O segundo e mais grave sintoma está na alteração ostensiva da protagonista, de uma menina de 10 anos para uma jovem de 19, indignada com a ideia de ter de se casar com um aristocrata tolo e sem queixo. Muito da polêmica que a obra de Lewis Carroll acumulou no decorrer de sua trajetória vem da paixão (até onde se sabe platônica, mas nem por isso menos imprópria) que o escritor alimentou por sua musa, a menina Alice Liddell, que ele conheceu quando ela tinha 4 anos (veja o quadro abaixo). É compreensível e aceitável que Burton queira passar ao largo de qualquer rastro deixado por essas sugestões de pedofilia. Mas, na ânsia de se afastar delas, o diretor e a roteirista Linda Woolverton se jogam em uma outra armadilha: transformam o enredo em uma história de superação e de celebração do girl power – uma história, aliás, muito confusa. 

Alice, agora uma protofeminista, se recusa a usar espartilho, numa liberação de sua silhueta reminiscente das queimas de sutiãs dos anos 60. Mas é também uma destilação dos mais tradicionais ideais de feminilidade: é maternal, compassiva e redentora. Quando chega a essa última etapa, aliás, adeus às formas exuberantes da australiana Mia Wasikowska, que terminam bem comprimidas sob uma armadura de metal. Mia, conhecida pela série In Treatment, mostra ser uma atriz de bom senso inato, capaz de fazer sempre a escolha mais sólida em cada situação em que é lançada. É provável que fosse uma excelente Alice – se algo de Alice houvesse restado nesta versão ao mesmo tempo tão feérica e tão tímida de Tim Burton. 

CORTEM O CABEÇÃO
Interpretada por Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha é a grande vilã do filme, em oposição à etérea Rainha Branca. Nos livros originais, porém, não há vilões nem mocinhos, e as duas supostas rivais até tomam chá juntas. O bordão que a Rainha Vermelha repete ao longo do filme – “cortem-lhe a cabeça” – na verdade pertence a uma terceira monarca, a Rainha de Copas, essa sim uma desvairada autocrata

 

Um clássico insolente

Lewis Carroll/Getty Images

A PEQUENA MUSA
Alice Liddell com roupas de mendiga, em foto do próprio Lewis Carroll (à esq.): o escritor disse que nunca esqueceria o dia em que conheceu a menina

“Esse foi um dia para não esquecer”, registra o diário do reverendo inglês Charles Dodgson (1832-1898) em 25 de abril de 1856. Foi nesse dia que o professor de matemática de Oxford conheceu as três filhas do reitor Henry Liddell. Gago e tímido, Dodgson adorava crianças – sentimento cuja extensão (ou cuja gravidade) até hoje suscita debates entre biógrafos e estudiosos. Parece ter se apaixonado por Alice Liddell, que ainda não contava 4 anos naquele primeiro dia inesquecível. Nos anos seguintes, Dodgson comporia histórias fantasiosas para as irmãs Liddell. A própria Alice insistiu para que ele escrevesse os contos em que ela aparecia como protagonista. Daí surgiu Aventuras de Alice Debaixo da Terra, caderno manuscrito ilustrado pelo próprio Dodgson e presenteado a sua musa no Natal de 1864 (quando o autor já andava afastado da família Liddell, possivelmente por ter proposto um matrimônio indesejado à pré-pubescente Alice). Uma versão expandida seria publicada no ano seguinte, assinada pelo pseudônimo literário do autor, Lewis Carroll, e já com o título definitivo: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Em 1871, Através do Espelho, novo livro protagonizado por Alice, seria o best-seller de Natal na Inglaterra. Essas duas obras estão entre as mais extravagantes já escritas para o público infantil – e Alice no País das Maravilhas, o filme, reproduz essa extravagância só na superfície iridescente, jamais no espírito.

Em um tempo em que os livros para crianças eram moralizantes, Carroll ousou apresentar uma fantasia que ridicularizava a compostura exigida às pobres crianças vitorianas. “Fale só quando falarem com você”, diz a sentenciosa Rainha Vermelha de Através do Espelho (que no filme é fundida – ou confundida – com a despótica Rainha de Copas). Alice observa que, se essa regra fosse seguida por todos igualmente, a conversa deixaria de existir. O livro exalta essa esperteza que os adultos tantas vezes tomam por insolência. Sem tal qualidade, Alice não sobreviveria ao País das Maravilhas e ao estranho mundo do outro lado do espelho. Esses são, afinal, universos de pesadelo, povoados por criaturas esquisitas que vivem aprisionadas em paradoxos lógicos e argumentos circulares. Um exemplo tão divertido quanto tenebroso é a hora do chá que nunca chega ao fim na mesa da Lebre de Março e do Chapeleiro Maluco – aliás, muito diferente do louco manso encarnado por Johnny Depp, o Chapeleiro é uma figura antipática, muito hostil a Alice. “Teria prazer em conhecer aquele coelho tagarela, mas não ambiciono a amizade do chapeleiro”, disse a poeta Christina Rossetti em uma carta para Carroll.

Embora os jogos de palavras e as alusões históricas e literárias dos dois livros de Alice só possam ser plenamente apreciados por gente grande, Carroll ainda é uma leitura fascinante para as crianças. Poucos escritores compreenderam tão profundamente a inadequação que elas sentem diante das regras implacáveis dos adultos. As raízes psicológicas dessa compreensão são talvez sombrias – mas não comprometem a beleza do livro.

Jerônimo Teixeira

 

 

22
abr
10

Do outro lado do espelho

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo no caderno Mais, na página 8, do dia 18 de abril de 2010

 

Do outro lado do espelho

 

Indícios de patologias permeiam a vida e a obra do britânico Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”

 

Moacyr Sciliar

Colunista da Folha

 

Charles Lutwidge Dodgson (1832-98), mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, faz parte da história da literatura, sobretudo graças ao monumental “Alice no País das Maravilhas”, que podemos considerar a obra precursora do realismo mágico e que inspirou obras similares, peças teatrais, filmes, o mais recente dirigido pelo original Tim Burton (que estréia no Brasil na sexta-feira).

Mas Dodgson também tem sido objeto de vários estudos médicos e psicológicos, baseados tanto em sua peculiar existência como em seu trabalho ficcional. De uma conservadora família anglicana, à qual não faltavam clérigos e militares, o jovem Dodgson, que as fotos mostram como um homem bonito, simpático, dedicou-se inicialmente à matemática, lecionando no famoso Christ Church College, de Oxford, cidade em que, a propósito, a sua memória é muito evocada.

Era um homem culto, gentil, mas não livre de problemas: como outro grande escritor, o seu contemporâneo, Machado de Assis, gaguejava, coisa que o mortificava e que rotulava como sua “hesitação”; o pássaro Dodô, que aparece no livro, traduziria a dificuldade que ele tinha em dizer seu sobrenome (“Do-Do-Dodgson”). Começou também a publicar e tornou-se razoavelmente conhecido, já usando o pseudônimo famoso.

Em 1856, um novo deão, Henry Liddell, tomou posse no Christ Church. Dodgson tornou-se amigo da família Liddell, sobretudo das três filhas, e sobretudo de Alice – que, segundo ele, não foi o modelo para a personagem do livro; de qualquer modo a história nasceu num passeio de barco com as garotas.

Ilustrado pelo grande sir John Tenniel, o livro se transformaria num sucesso retumbante, com uma continuação – “Through the Looking-Glass and What Alice Found There”, em geral traduzida como “Alice no País do Espelho”.

Mais ou menos na mesma época, Dodgson começou a se dedicar à fotografia, então em seus começos. Ele gostava de fotografar meninas, às vezes em poses sedutoras, e, nuns poucos casos comprovados, nuas. Daí nasceu a suspeita de pedofilia que durante décadas pesou sobre o escritor.

Vladimir Nabokov chegou a compará-lo a seu personagem Humbert Humbert, que, em “Lolita”, se apaixona por uma ninfeta. Havia um agravante: a Inglaterra vitoriana, uma sociedade moralmente muito repressiva, gerou casos de aberrações e até crimes sexuais, Jack, o Estripador, sendo disso um exemplo.

 

(Charles Lutwidge Dodgson – 1858 – Reprodução) – Fotografia de Alice Liddell realizada pelo escritor Lewis Carroll que aparece abaixo, em imagem de meados dos anos 1870

Reprodução

 

Proibição

 

No caso de Dodgson, há detalhes agravantes: a partir de 1863, o casal Liddell não mais permitiu que o professor visse as crianças. E, supostamente por causa de uma consciência culpada, ele nunca foi ordenado ministro da Igreja Anglicana, como era de se esperar com alguém que lecionava no Christ Church. Nisto contou com a aprovação do deão Liddell, que lhe permitiu continuar lecionando (também publicou livros de matemática, celebrizando-se pela criação de quebra-cabeças lógicos).

Os estudos modernos a respeito da controvérsia são, digamos, mais tolerantes. Dodgson certamente tinha dificuldades com mulheres adultas (no mínimo falta de interesse por elas). Mas daí a pedofilia vai um passo grande. Mesmo a suposta patologia vitoriana é posta em questão; parece que as fotos de crianças eram valorizadas como expressão da inocência infantil. E, nas fotos de Dodgson, as crianças parecem inteiramente à vontade, sem mostrar temor diante de um suposto assédio.

Um outro aspecto interessante, do ponto de vista médico, é a chamada síndrome “Alice no País das Maravilhas”. Reporta-se àquele episódio em que Alice cresce e encolhe, o que se traduz em macropsia e micropsia, a visão dos objetos subitamente aumentados ou diminuídos em tamanho, uma penosa sensação que pode ocorrer em casos de enxaqueca, problema que, como João Cabral de Melo Neto, Dodgson tinha.

Outros autores sugeriram que o escritor talvez sofresse de epilepsia do lobo temporal, que também pode dar esses sintomas. Dessa doença sofria Machado de Assis, e há disso evidências em sua obra. Por exemplo, a cena alucinatória em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que o protagonista, num delírio alucinatório, percorre os séculos transportado por um hipopótamo que, no final, “encolhe” e é apenas um gatinho.

Escritores não precisam ser necessariamente criaturas saudáveis. Mesmo porque conseguem, graças ao talento, transformar em fonte de inspiração as mazelas médicas e psicológicas que a eles, como outras pessoas, perturbam e atrapalham.

Moacyr Sciliar é médico e escritor, ganhador do 51º Prêmio Jabuti, nas categorias ficção e romance, por “Manual da Paixão Solitária” (Companhia das Letras).

moacyr.sciliar@uol.com.br

 

22
abr
10

A revolução de Alice

Matéria publicada no jornal Tribuna da Bahia, no caderno Dia & Noite, na página 19, no dia 20 de abril de 2010.

 

A revolução de Alice

 

Inovador, atual e ao mesmo tempo um retorno ao passado. Assim é a releitura do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, que ganha contornos mais sombrios pelas mãos de Tim Burton, e estréia nos cinemas brasileiros, em versão 3D, no próximo dia 23.

A adaptação do clássico da literatura inglesa conta com Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Mia Wasikowska, no papel principal, Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha e Anne Hathaway como a Rainha Branca.

A nova versão da menina Alice, agora com 19 anos, relata o retorno dela ao País das Maravilhas para fugir de um casamento arranjado. Sem se lembrar que já esteve no local antes, ela reencontra o Chapeleiro Maluco, a Rainha Branca e a Rainha Vermelha.

Foi a mistura de fantasia da Disney e estilo autoral de Tim Burton que criou esta Alice moderna, e que tem uma proposta menos crítica, do que a da obra original. Questionado sobre a fronteira entre sonho e realidade, muito forte em “Alice no País das Maravilhas”, e marca preferencial de seus filmes, Burton explica. “Porque o mundo está ficando mais estranho, e não mais normal! E as pessoas continuam tentando separar a realidade da fantasia, quando essa divisão está cada vez mais embaralhada por conta da internet e da TV. Para mim, fantasia sempre foi uma forma de explorar a realidade. Por isso gostei muito de “Alice”, uma história em que imagens bizarras criadas pela mente são, no fim das contas, reais e servem para lidar com questões concretas”, conclui o diretor.

Mesmo não sendo fiel ao roteiro original, a película une os dois livros escritos por Carroll, “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” (1865) e “Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá” (1872). “Existem mais de 20 versões de “Alice” que, ao meu ver, sofrem do mesmo problema, são muito literais. Nunca me conectei com elas. Queria ser fiel ao legado e ao espírito dos personagens, e não à história em si. Segui meus instintos sem medo. Além do que, o material já é esquisito o suficiente! É algo tão subversivo que, se fosse feito hoje em dia, provavelmente seria banido!”, explica Tim Burton.

A tecnologia “a la” Disney, é um quesito a parte, os personagens criados em computação gráfica dão um show e mostram como um entretenimento tem cada vez mais prestígio em Hollywood, destaque para o Coelho Branco e o Gato Risonho que possuem um desempenho tão interessante quanto os personagens reais. Foram os efeitos especiais que possibilitaram também outras características marcantes no filme. A altura dos personagens muda a cada instante e não existe um tamanho padrão em praticamente ninguém. Mas para o diretor, o 3D não salvará o cinema. “É uma ferramenta com o potencial de adicionar uma camada extra de sensações. Existe a música, a cor, o movimento e o 3D! mas não vai salvar o cinema. Pode acreditar que nos próximos meses será lançada uma porção de filmes 3D porcarias porque tem gente achando que basta ser 3D para ser bom. É a nova onda”, desabafa.

 

“Alice no País das Maravilhas” reúne o melhor de Tim Burton e da Disney em um show de efeitos 3D. Os baianos poderão conferir a releitura do clássico de Lewis Carroll, no próximo dia 23, nos cinemas.

22
abr
10

Alice em nova versão

Matéria publicada no jornal Correio, no caderno Vida, nas páginas 22 e 23, no dia 18 de Abril de 2010.

Alice em nova versão

 

Tim Burton recriou no cinema a fantasia concebida pelo escritor Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas

 

O esperado filme do cultuado Tim Burton estréia sexta na Bahia

Doris Miranda

doris.miranda@redebahia.com.br

Quando leu “Alice no País das Maravilhas” pela primeira vez, aos 8 ou 9 anos, o diretor americano Tim Burton, 51 anos, ficou profundamente impressionado com aquele mundo amalucado, fruto da improvável imaginação do reverendo inglês Lewis Carroll (1832 – 1898), e publicado pela primeira vez em 1865.

A maturidade chegou e Burton nunca parou de ruminar o estranho conto da menina que descobre uma terra mágica no subterrâneo, onde coelhos falam, lagartas são oráculos, gatos aparecem do nada e rainhas cortam a cabeça dos súditos: “Como em qualquer conto de fadas, há o bem e o mal. O que eu mais gostei no Mundo Subterrâneo é que tudo é meio estranho, até as pessoas boas. Isso, para mim, é algo diferente”, avalia.

Hoje, respeitado pelo cinema cada vez mais autoral, apesar de derrapadas ocasionais, como em Planeta dos Macacos (2001), não é de se estranhar que Burton desse um jeito de criar sua própria versão da história. “De algum modo, Alice toca em algo subconsciente. É por isso que todas essas grandes histórias permanece”, explica.

Pois bem, a nova versão de Alice no País das Maravilhas, que estréia sexta-feira no Brasil, em versões dubladas e legendadas, ganham contornos ainda mais alucinados na visão de Tim Burton. Sobretudo pelos sensacionais efeitos em 3D, como se confere nas 126 cópias que chegam ao país, parcela do total de 400.

Bastam algumas cenas para ver a assinatura extravagante do diretor de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005). Nunca vi uma versão de Alice em que eu sentisse que toda a obra original foi traduzida na tela”, justifica. Isso, no entanto, somente não basta. Sua obra é linda de se ver, concebida com muito esmero, mas não desde redonda.

 

A jovem atriz Mia Wasikowska vive a inconformada Alice

 

O que não chega a ser problema, é importante ressaltar. Mesmo que a trama pareça um tanto esquemática e ligeiramente sem alma, o grande público mergulhou fundo nessa viagem rumo ao País das Maravilhas.

Realizado com custo total de US$ 250 milhões, “Alice no País das Maravilhas” já  faturou US$ 320 milhões em seis semanas de exibição nos EUA – e mais do que o dobro disso no mercado internacional. É a produção em 3D de maior faturamento depois, logicamente, do fenômeno “Avatar”, de James Cameron.

 

Além de fofo, o Gato Risonho é um dos grandes articuladores da guerra contra a tirânica Rainha Vermelha

 

Mudanças É claro que, em se tratando de Tim Burton, o seu “Alice no País das Maravilhas” não seria fiel ao original. E pode contar que ele mudou mesmo. Para começo de conversa, Alice Kinglowka (a novata Mia Wasikowska) não é mais aquela menininha do original. Agora ela tem 19 anos e está à beira de um casamento arranjado, pelo qual não sente o menor interesse. Eis que um dia vislumbra o coelho branco e, voilà, volta ao Mundo Subterrâneo.

Dessa vez, a viagem é diferente. Alice encontra o País das Maravilhas em guerra, tiranizado pela Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter, mulher do diretor). Após encontrar o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e o Gato Risonho (criado por computador), fica claro que Alice é a guerreira prevista pelo oráculo para recolocar a Rainha Branca (Anne Hathaway) e restaurar a paz.

Tirando os personagens de carne e osso, como Alice, o Chapeleiro Maluco, o Valete de Copas, a Rainha Vermelha e sua irmã, a Rainha Branca, todos os bichos falantes foram criados em computador, contabilizando 90% do total do elenco.

Como esses personagens foram acrescentados posteriormente no filme, os atores tiveram que contracenar com objetos ou pessoas totalmente pintadas de um verde quase fluorescente, o que causou um profundo incômodo no elenco. Como nem todo mundo pode proteger os olhos atrás de lentes cor de lavanda, como Tim Burton, houve quem reclamasse, como Johnny Depp.

“Não me incomodava falar andando sobre rodas num trilho de câmera, enquanto contracenava com uma fita crepe. Mas, o verde realmente me incomodava. No final do dia, eu me sentia confuso e desorientado”, declarou o ator em entrevista.

Tudo bem que Alice é a protagonista da história, mas o grande chamariz do filme de Tim Burton é mesmo o Chapeleiro Maluco, vivido por Johnny Depp, o fiel colaborador do diretor, com quem trabalhou em seis produções. Outro parceiro de longa data é o veterano ator britânico Christopher Lee. Dessa vez, o Drácula dos anos 70 empresta sua voz maravilhosa e soturna para dublar o vilão Jaguadarte, monstro que precisa ser destruído pela heroína.

Projeto dos estúdios Disney, a produção chegou às telonas após uma extensa campanha de marketing, que resultou numa espécie de Alicemania. Estilistas criaram roupas temáticas, joalheiros desempenharam preciosidades e novas edições da obra original foram lançadas em diversos suportes, como o audiolivro (narrado e interpretado), que esta sendo lançado no Brasil pela Audiolivro Editora por R$ 24,90.

 

Tim Burton em ação: Alice é projeto de infância

 

No mundo da fantasia

Anunciado com extensa campanha de marketing, finalmente chega aos cinemas brasileiros “Alice no País das Maravilhas”, filme em 3D de Tim Burton, baseado no clássico de Lewis Carroll. Alice já faturou US$ 320 milhões nos EUA e mais do que o dobro disso no resto do mundo.

Guia ilustrado detalha conceito do filme de Tim Burton

Tão importante quanto assistir ao filme de Tim Burton é ter o livro “Alice no País das Maravilhas – Guia Visual do Filme de Tim Burton” (Caramelo/ R$ 40,00/ 72 páginas), uma preciosidade de edição, pensada para detalhar todo o processo de criação do longa-metragem. Na verdade, trata-se de uma chance única de conhecer melhor como funciona a mente do diretor americano. Com isso, o leitor pode entender a leitura que ele fez da adolescente reprimida Alice Kinsleigh, do Chapeleiro Maluco, da Rainha Branca e da Rainha Vermelha. Mais do que recontar a história do filme, o livro nos dá pistas sobre a personalidade de Alice, que sente uma inadequação total à falta de jogo de cintura da Inglaterra vitoriana. Daí sua identificação com os seres encantados do País das Maravilhas.

 

Capa do precioso guia visual

 

Alice no País das Maravilhas em versão Manga

A editora Newpop lança a versão manga de “Alice no País das Maravilhas” (R$12/ 84 páginas), de Sakura Kinoshita. Totalmente concebida em cores, o que já não é comum para esse tipo de publicação, a HQ reproduz as aventuras da menina que encontra numa toca de coelho a porta de entra para um mundo fantástico.

 

Setor do manga explora Alice

 

 

Livro junta obras de Lewis Carroll

Antes mesmo do filme de Tim Burton estrear, o mercado editorial já tinha começado a soltar diversas publicações sobre as maravilhas do mundo criado por Lewis Carroll.

Agora, sai uma das mais preciosas Alice (s). A única edição de bolso do mercado brasileiro a trazer em tradução integral e não adaptada os dois livros de Carroll: “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e sua continuação “Através do Espelho” e o “Que Alice Encontrou por Lá”.

Com preço também de bolso (R$ 19,00), a edição cuidadosa traz ainda ilustrações originais de John Tenniel. A tradução de Maria Luiza X. de A. Borges foi premiada com o Jabuti de 2002.

 

Helena Bonham é a Rainha Vermelha

 

Ficha

Livro “Alice – As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, “Através do Espelho” e o “Que Encontrou Por Lá”

Autor Lewis Carroll

Tradução Maria Luiza X. de A. Borges

Editora Zahar

Preço R$ 19,00 (320 páginas)

Johnny Depp é o Chapeleiro

16
abr
10

A Alice de Tim Burton

Matéria publicada na Revista Isto É

Fonte:http://www.istoe.com.br/reportagens/60202_A+ALICE+DE+TIM+BURTON

A Alice de Tim Burton

O filme “Alice no País das Maravilhas” faz uma extravagante adaptação do livro de Lewis Carroll e se transforma no novo fenômeno do cinema americano

Ivan Claudio

 

MUNDO ARTIFICIAL


A atriz Mia Wasikowska no papel de Alice e o Coelho Branco, sempre preocupado com as horas: cenas filmadas em estúdio verde e preenchidas depois com cenários e personagens digitalizados

A era do blockbuster é relativamente recente: ganhou impulso no início dos anos 80, quando o aparecimento de “Guerra nas Estrelas” provocou uma mudança no marketing dos estúdios. Todos os 40 filmes mais vistos do cinema são produções americanas rodadas a partir dessa época e com uma orientação precisa: atingir espectadores com idade a partir dos 13 anos. Hoje em Hollywood o que se busca são histórias que atraiam todo tipo de público, a começar pelos pré-adolescentes – e, se possível, pelas crianças. O mais novo fenômeno do gênero é “Alice no País das Maravilhas”, que deveria se chamar “Alice de Tim Burton”, tamanha a força da assinatura imprimida pelo diretor americano em sua adaptação da obra do escritor inglês Lewis Carroll. Com apenas duas semanas de exibição nos EUA (e obviamente em primeiro lugar nas bilheterias), a superprodução em 3D soma rendimentos de US$ 270 milhões, ou seja, já saldou em casa o seu orçamento de US$ 250 milhões. Seu faturamento cresce em ritmo incrivelmente maior do que o visto em “Avatar”, que no mesmo período (a semana do Natal) ainda estava na casa dos US$ 200 milhões.

“Alice” custou US$ 250 milhões e faturou em duas semanas US$ 270 milhões nos EUA. É mais que “Avatar”

Com estreia no Brasil antecipada para o feriado do dia 21 de abril, “Alice” gerou uma onda de consumo que já repercute por aqui. Aproveitando-se do sucesso, três editoras (CosacNaify, Zahar e Salamandra) lançaram recentemente edições atualizadas do livro, algumas delas trazendo também a continuação da aventura da personagem – “Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá”. Esses relançamentos de um clássico do século XIX vêm competindo com pesos-pesados como Dan Brown e Stephenie Meyer na lista dos mais vendidos das principais livrarias. A edição da Zahar, por exemplo, já está na segunda tiragem de 40 mil exemplares e a CosacNaify esgotou a primeira edição de dez mil livros. O problema de produções massivas como “Alice” é que, para satisfazer a uma audiência tão vasta, precisam se tornar mais acessíveis. No caso, a habitual inventividade de Burton não foi suficiente para manter viva a narrativa anárquica e bastante crítica da “lógica adulta” contida no original. Dizer que a “Alice de Tim Burton” é inofensiva não significa que ela seja inteiramente decepcionante. Está lá, com toda graça e extravagância visual, a completa galeria de personagens absurdos que a garotinha encontra ao visitar o mundo subterrâneo, depois de cair na toca de um coelho branco vestido a caráter: a rainha que vive pedindo a cabeça de seus súditos por motivos irrelevantes, o chapeleiro maluco às voltas com enigmas como “por que um corvo é igual a uma escrivaninha?” ou a arrogante lagarta azul que solta baforadas enquanto descansa em cima de cogumelos, fumando um narguilé. Cultuado pelos surrealistas como precursor da “arte do inconsciente”, esse enredo perdeu um pouco de sua vitalidade e subversão justamente por assumir, nas telas, uma linha muito explicativa.

 

PSICODELIA

Depp como o Chapeleiro Maluco: passos de Michael Jackson

A primeira mudança que afeta em cheio o lado inconformista da história foi a decisão de recontá-la do ponto de vista de uma Alice adulta (Mia Wasikowska) que retorna ao “país das maravilhas” atraída pelo mesmo coelho de casaca. Essa é a saída que a jovem encontra para se livrar de um pedido de casamento de um lorde pelo qual não tinha a menor atração – e que somava ao seu perfil afetado um incontornável problema estomacal. Na nova adaptação, a disparatada sequência de acontecimentos do livro foi ordenada, perdendo assim o seu engraçado encadeamento de absurdos. De outro lado, existem qualidades que merecem ser ressaltadas e que não estariam ausentes de um trabalho de Burton, autor de obras ousadas como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” . Na relação de atrativos que valem o ingresso, o primeiro a despontar é o delirante visual. Cerca de 90% do filme é resultado de computação gráfica, num total de 2.500 planos (pedaços de cena) de efeitos digitais. Tirando os personagens de carne e osso, como Alice, o Chapeleiro Maluco, o Valete de Copas, a Rainha Vermelha e sua irmã, a Rainha Branca, todos os bichos falantes foram criados em computador – e alguns deles são um grande avanço na técnica, a exemplo dos sapos da corte da Rainha Vermelha. Como esses personagens foram acrescentados posteriormente no filme, os atores tiveram que contracenar com objetos – ou, no máximo, diante de pessoas totalmente pintadas de verde.

Tão verdes que ficavam fluorescentes ao ser iluminadas com os potentes holofotes. Essa técnica de filmagem combina com o clima psicodélico do filme, mas não é proposital. Trata-se de um artifício comum em edição digital. Na pós-produção, tudo o que é pintado com essa cor (fundo, pessoas, objetos) é apagado e serve de receptáculo para sobreposições de imagens sintéticas, caso de bichos feitos em CGI (computer generated images) e paisagens artificiais. A produção abusou tanto da técnica que a exposição seguida do elenco e dos técnicos ao ambiente “cítrico” causou letargia e mal-estar. O diretor Tim Burton, por exemplo, recorreu a óculos cor de lavanda para reduzir esse efeito. Johnny Depp usou uma lente verde que realça o jeito extraterrestre de seu personagem, o Chapeleiro Maluco: “Não me incomodava falar meu diálogo andando sobre um trilho de câmera enquanto contracenava com uma fita-crepe. Mas o verde realmente incomoda. No final do dia eu me sentia confuso e desorientado.”

Sempre dedicado aos seus papéis, Depp ficou intrigado com um recorrente comentário irônico do Chapeleiro, que volta e meia dizia: “Ando investigando coisas que começam com a letra M.” Ao pesquisar a expressão inglesa “maluco como um chapeleiro”, ele descobriu que os fabricantes de chapéus realmente tinham a mente perturbada pelo mercúrio existente na cola para feltros. Sofriam um tipo de envenenamento. Ator preferido de Tim Burton, com quem já trabalhou em sete filmes, Depp é outra das razões para conferir “Alice no País das Maravilhas”. Ao rodar “Piratas do Caribe”, ele disse que se inspirou no roqueiro Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, sobre quem está fazendo um documentário. A inspiração continua nesse novo personagem, que ganhou outra referência: o cantor Michael Jackson. Quase no final do filme, Depp dança um passo apelidado de “funderwhack”, que lembra o “moonwalk” do cantor americano. Não se trata de uma citação gratuita: pesa sobre Lewis Carroll a mesma suspeita de pedofilia que pesava sobre Michael Jackson. 

 

Sempre dedicado aos seus papéis, Depp ficou intrigado com um recorrente comentário irônico do Chapeleiro, que volta e meia dizia: “Ando investigando coisas que começam com a letra M.” Ao pesquisar a expressão inglesa “maluco como um chapeleiro”, ele descobriu que os fabricantes de chapéus realmente tinham a mente perturbada pelo mercúrio existente na cola para feltros. Sofriam um tipo de envenenamento. Ator preferido de Tim Burton, com quem já trabalhou em sete filmes, Depp é outra das razões para conferir “Alice no País das Maravilhas”. Ao rodar “Piratas do Caribe”, ele disse que se inspirou no roqueiro Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, sobre quem está fazendo um documentário. A inspiração continua nesse novo personagem, que ganhou outra referência: o cantor Michael Jackson. Quase no final do filme, Depp dança um passo apelidado de “funderwhack”, que lembra o “moonwalk” do cantor americano. Não se trata de uma citação gratuita: pesa sobre Lewis Carroll a mesma suspeita de pedofilia que pesava sobre Michael Jackson. 

 

 

16
abr
10

Revisitando Alice

Matéria publicada no jornal A Tarde no caderno 2 do dia 28 de novembro de 2009, na capa do caderno e nas páginas 4 e 5.

Revisitando Alice

Clássico Cosac Naify uniu a genialidade da obra de Lewis Carroll à ousadia do artista multimídia Luiz Pierre Zerbini.

Cássia Candra

“De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” O primeiro questionamento de Alice, protagonista do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, é levado a série na nova edição da obra no Brasil, que a editora Cosac Naify coloca hoje nas livrarias do País em duas versões.

Em forma de pop ups, as ilustrações teatrais criadas pelo artista multimídia Luiz Zerbini quase saltam das páginas do livro, acrescentando mais ludicidade à abundância visual da história que há quase 150 anos arrebata leitores de todas as idades.

Construídas com cartas de baralho para interpretar, em jogos de luz e sombra, o universo imagético de uma menina em sua aventura non sense, as maquetes do artista paulistano são “um deslumbramento para os olhos”, na opinião da doutora em lingüística e semiologia, Ana Maria Machado, que assina um dos textos da nova edição.

“A identificação foi total”, diz Zervini, em entrevista ao Caderno 2+. O artista que chegou a pensar em declinar do convite da editora, resolveu que melhor seria responder uma ousadia com outra ainda maior, e até cogita “fazer uma exposição só sobre Alice”, a partir de uma “interpretação livre da história e seus desdobramentos”.

Para o historiador Nicolau Sevcenko, que fez a tradução integral do original de 1865, Zerbini se saiu bem com sua “poesia visual”, delicada, onírica e “estranhamente desconcertante”. Também enredado nos instigantes jogos de Carroll (em seu caso, gramaticais e semânticos), o tradutor considera que em uma história com tamanha força visual, ilustrações e ilustradores são elementos “decisivos do livro”.

Desde o inglês John Tenniel, que ilustrou a primeira edição muitos artistas já interpretaram plasticamente a história. O mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966. a nova versão do clássico já revertido para o teatro, a dança, a música e as HQs, chega às vésperas de mais uma superprodução para o cinema, desta vez desafiando o diretor Tim Burton.

Clássico “Alice no País das Maravilhas”, é considerada uma obra provocante, rica em referências e signos.

História instiga estudiosos e criadores de várias linguagens

Cássia Candra

Citando Santo Agostinho em “O prazer do texto” (perspectiva, 2002), uma de suas obras mais conhecidas, o semiólogo francês Roland Barthes, afirma que o signo é “uma coisa que, além da espécie ingerida pelos sentidos, faz vir ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa”.

Este era o deleite de Lewis Carroll (1832 – 1898), nascido Charles Lutwidge Dodgson, que em sua obra-prima “Alice no País das Maravilhas”, dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

“É através do uso da linguagem verbal que Carroll retrata seu imaginário excepcional, evocando uma confluência entre palavras, sentidos e o imaginário do leitor”, pontua Fernanda Donato, em sua dissertação de mestrado em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense, “Alice no Universo da Percepção Visual: uma leitura semiológica de Alice in Wonderland de Lewis Carroll”. Fernanda, que atualmente é professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, afirma, em sua pesquisa, que o escritor inglês se serve das palavras como peças de quebra-cabeça. Para ela, Carroll, que era professor de matemática na Universidade de Oxford, fazia da literatura “um meio de entretenimento associada ao livre prazer de construção e desconstrução de ideias e imagens oriundas de seu imaginário fértil”.

Quem mais poderia criar uma situação na qual uma menina cresce tanto que não consegue ver mais os próprios pés e até planeja enviar-lhes um par de botas de presente pelo correio? “Estranhissérrimo”, diria a protagonista da imaginação deslumbrante de Carroll.

Jogos gramaticais

Absolutamente fascinado, o historiador Nicolau Sevcenko, aceitou a provocação ao traduzir a obra original de 1865, além de todos os poemas do autor, para a mais recente edição brasileira, que a editora Cosac Naify lança hoje em todo o País.

Professor da USP e da Universidade de Harvard (EUA), a ele coube resolver a equação literária de Lewis Carroll. “Encarar os jogos gramaticais, semânticos, contextuais, poéticos, filosóficos, estéticos e éticos das poesias e canções do livro foi um desafio enorme”, reconhece.

“As maravilhas do mundo de Alice acontecem por meio da linguagem”, enfatiza a professora Fernanda Donato em sua pesquisa sobre o clássico, sublinhando os recursos inesgotáveis que o autor apresenta, conscientemente. Ela questiona se Carroll – fotógrafo, matemático e pensador de lógica -, “seria capaz de estabelecer um limite para a sua escrita, não permitindo que extrapolasse para os demais campos de seu domínio?”

Carroll dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

 

Outras linguagens

O artista visual Victor Venas pensa que o valor da obra de Carroll, como representação artística de uma época, se dimensiona no momento em que estabelece uma possibilidade de diálogo com outras linguagens.

“Alice no País das Maravilhas” “é um marco. Várias obras usam, direta ou indiretamente suas referências”, observa. Ele cita “A Viagem de Chihiro”, de Hayao Miyazaki, Oscar de melhor animação em 2003, e “Matrix”. Na ficção de Andy Wachowski e Larry Wachowski, há uma referência direta, quando Morpheus pergunta ao protagonista, Thomas Anderson (Keanu Reeves): “Está se sentindo como Alice, não?”

Andréa Elia, que montou e dirige o espetáculo infantil “Alice no Sertão das Maravilhas”, em cartaz até amanhã, no Teatro Módulo, diz com propriedade que “a obra de Carroll é inspiração para outras abordagens artísticas”. Para ela, “esta certamente é uma história que poder ser encenada, musicada, dançada…”.

Além do que, se trata de uma “viagem psicodélica com abertura para muitas adaptações”, comenta. Ela mesma transpôs o universo da Inglaterra Vitoriana para uma realidade mais próxima do público baiano. Assim, em sua adaptação para o teatro infantil, a Rainha de Copas virou cangaceira, e o gato e o coelho se transformaram em um bode e em um tatu. “A nossa Alice percorre este cenário, e com ela mantivemos nosso encantamento”, conta a diretora.

Para Venas, que também é arte educador, as sessões semanais do desenho animado de Walt Disney o levam a redescobrir os enigmas da mensagem contundente do clássico, que ele usa como referência em sala de aula. “Alice vive um rito de passagem, ela se transforma. É como se dissesse: ‘Questione’. É um livro que não tem idade. É pura filosofia”, conclui.

O tradutor Nicolau Sevcenko reconhece o desafio enorme que foi resolver a equação literária de Lewis Carroll

 

Curiosidades

Tradução Monteiro Lobato, autor da coleção “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, foi responsável pela tradução da edição brasileira publicada em 1960.

Cinema A obra vem sendo adaptada desde 1903, época do cinema mudo, o próximo lançamento tem a direção de Tim Burton.

Artes Dentre os muitos artistas que já interpretaram plasticamente a história de “Alice no País das Maravilhas”, o mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966 e que não tem publicação no Brasil.

Entrevista

Luiz Zerbini, artista multimídia

Acho que meus desenhos só servem para minhas histórias

Luiz Pierre Zerbini, 50 anos, é o que se pode chamar de um sujeito dinâmico. Concedeu a entrevista por e-mail, da ponte aérea, entre o Rio de Janeiro, sua morada desde 1980, e São Paulo, cidade natal, onde monta atualmente uma nova exposição. Há inúmeras outras em sua trajetória, iniciado aos quatro anos de idade com aulas de pintura (depois estudou fotografia e aquarela). Já passou por vários salões e bienais importantes, como as de São Paulo e Havana e participou de outros projetos interessantes, como o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, junto com a atriz Regina Case, fazendo cenografia.

Artista multimídia e um grande experimentalista, Zerbini é o criador do grupo Chelpa Ferro, que associa imagem e som, redefinindo significados para antigos equipamentos eletrônicos. O convite de Cosac Naify, para ilustrar a nova edição brasileira do clássico “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, o levou a uma experiência única, por meio da qual experimentou uma interpretação plástica sem precedentes em sua carreira. É sobre isso que ele fala nesta entrevista à repórter Cássia Candra.

Você já havia pensado em ilustrar a obra?

Nunca. Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação, detalhes, cenários e personagens que seria impossível e desnecessário ilustrá-lo. Não dá pra competir com a profusão de imagens contidas numa única frase do livro. Ilustrações imaginárias são mais ágeis e sujeitas às metamorfoses que o livro passa. Elas parecem mais compatíveis com a idéia do autor, mas esse não era o desejo da Alice e temos que respeitar o desejo dela.

Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação que seria impossível ilustrá-lo.

Como surgiu o convite?

Eu imagino que a editora deve ter pensado “só um maluco aceitara um trabalho como esse”, logo pensaram em mim. Mesmo assim, meu primeiro impulso foi o de recusar o convite. Por outro lado, sempre senti uma atração pela Rainha de Copas e seu exército de cartas. Foi por onde eu comecei imaginando que poderia construir personagens de carta de baralho. Pensei também numa frase de Alice no começo do livro, em que ela diz como pode existir um livro sem ilustrações e imaginei que hoje em dia ela diria como pode existir um livro com ilustrações ilustrativas e isso me fez pensar no livro sem ilustrações literais. Pensei em ilustrações que contassem uma história paralela.

Qual o significado do projeto?

Acho que fiz um dos meus melhores trabalhos. Não sou um ilustrador e nunca havia ilustrado nenhum livro antes. Acho que meus desenhos só servem para ilustrar minhas próprias histórias. Talvez, por isso, tenha escolhido construir um país das maravilhas com cartas de baralho.

Imagino que a editora deve ter pensando “só um maluco aceitaria um trabalho como esse”

O que o levou a interpretação desse elemento?

Quando acabei de fazer o exército de cartas e a Rainha de Copas, vi que poderia construir tudo a partir de cartas. Precisava de alguma coisa que desse unidade visual.

Nicolau Sevcenko disse que seu trabalho está à altura da energia alucinante do livro…

Me sinto naturalmente imerso em uma energia alucinatória. Tenho muita facilidade em falar com insetos, plantas e objetos em geral, isso facilitou. A identificação foi total.

Adaptação de Tim Burton no cinema nacional só em Abril de 2010

Lucas Cunha

Os fãs brasileiros de Alice serão um dos últimos países a receber a aguardada versão dirigida por Tim Burton que chega no início de março de 2010 à maioria dos mercados, mas só aporta nos cinemas do Brasil em 23 de abril.

A razão das expectativas vem da possibilidade da junção de dois autores consagrados justamente por construírem obras supostamente para um público infanto-juvenil cheias de mensagem subliminares e estilo nonsense.

Apesar de Alice já ter sido adaptado para o cinema algumas vezes, a mais notória delas para a Disney em 1951, a versão de Tim Burton tem tudo para ser a versão mais marcante, o que já pode ser conferido pelo trailer que está na internet.

Segundo o diretor, o livro de Lewis Carroll sempre lhe fascinou, não apenas pela história, mas por trazer muita informação e músicas. Completa ainda que “nenhuma versão filmada até agora tinha um apelo para mim”, o que deve resultar em algo único.

Para criar uma história diferente, Burton diz ter pego trechos dos livros de Carroll para montar a sua versão, sem se preocupar em seguir fielmente algum livro ou ainda de partir de algum lugar que ainda não tenha sido abordados em outras versões. Burton disse em uma entrevista no Comic Som, este ano, que se baseia em uma “viagem interna”.

“Estes personagens representam as coisas dentro da psique humana. Eu acho que toda criança tem seus problemas, assim como os adultos têm. Alguns tentam terapia, outros vão fazer filmes, existem diferentes maneiras de tentar superar seus problemas”.

Visualmente, as primeiras imagens divulgadas do filme de Burton também impressionam. Outra expectativa é pelo 3D nessa versão, o que ainda deve resultar em uma experiência ainda mais psicodélica. “Hoje temos muitas técnicas diferentes de se fazer um filme e eu queria misturá-las para fazer algo novo. O 3D mudou muito”.

Alice traz no elenco o eterno companheiro de Burton, Johnny Depp, como o chapeleiro maluco. Alice será feita pela pouco conhecida atriz Mia Wasikowska. Alice Hathaway também participa como a Rainha Vermelha.




Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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