Archive for the 'Ana Maria Machado' Category

06
nov
09

Um passeio inesquecível

passeio,no[1]

No mês passado eu fiz um post falando sobre os livros “Alice no País das Maravilhas” e “Alice no País dos Espelhos” de Lewis Carroll. O edição que possuo de “Alice no País das Maravilhas” foi traduzido por Ana Maria Machado e ela fez um texto de apresentação que segue abaixo.

 

Quem não gosta de ganhar presente de Natal? E de passear de barco num dia de verão? Pois este livro é as duas coisas ao mesmo tempo. Foi escrito como “um presente de Natal para uma criança querida, em memória de um dia de verão”, nas palavras de seu autor, Lewis Carroll. E quando surgiu, em sua primeira versão, era um livro escrito à mão, exemplar único, em que Carroll punha no papel uma história que tinha inventado durante um passeio meses antes, numa tarde dourada de uma sexta-feira, 4 de julho (verão no hemisfério Norte) de 1862. um ano depois de Caroll ter-se ordenado diácono, que foi o ponto em que ficou em sua carreira de sacerdote anglicano, porque era tão gago e tão tímido que não tinha coragem de fazer sermões em público.

Esse passeio ainda lembrado mais de um século depois, graças à obra-prima que dele surgiu, reunia dois religiosos e três meninas (filhas do diretor do Christ Church College, na Universidade de Oxford). Num bote, desceram o rio Tâmisa por uns cinco quilômetros, até uma aldeia onde fizeram um piquenique, sentados na grama da margem. As três irmãs eram: Lorina, com 13 anos; Alice, com 10; e Edith, com 8. Dois dos religiosos, um ia ser muito famoso, embora não como padre nem como professor de matemática – que também era. Sua fama viria por seus outros talentos, o de contar histórias, o de tirar fotografias, o de inventar jogos lógicos. Talvez por achar que essas atividades não parecessem suficientemente sérias para um religioso, o reverendo Dodgson inventou um pseudônimo. E foi com esse nome inventado, o de Lewis Carroll (cujas iniciais, L.C., em inglês se pronunciam quase como Alice), que ele se tornou famosíssimo como o criador de um dos livros mais fascinantes de todos os tempos. E como fundador da literatura infantil de verdade, aquela que não fica querendo ensinar nada nem dar aulinha, mas faz questão de ser uma exploração da linguagem, matéria-prima de toda obra literária de qualidade.

Enquanto o bote deslizava o rio abaixo, Caroll ia inventando uma história, com elementos da paisagem e animais que eles viam (uma toca de coelho, uma poça d’água, uma casinha com chaminé, uma lebre, um gato, um sapo, um peixe, um porco, pássaros) e elementos da vida que as meninas viviam (a escolha, professores, as diferentes matérias que estudavam, os poemas e canções que toda criança tinha que decorar, as danças e jogos populares na época, os poderes constituídos – rei, rainha, tribunais, soldados). Encantadas, as meninas ouviam e não deixavam que ele parasse, sempre pedindo mais. A história durou a tarde inteira e, no fim, Alice pediu que Carroll a escrevesse para ela, o que ele começou a fazer nessa mesma noite, anotando para não esquecer. E continuou nos dias e meses seguintes, até passar a limpo e lhe mandar no Natal o livro completo.

Hoje em dia, porém, não se pode mais dizer que o livro de Carroll seja para crianças. Mesmo na Inglaterra e nos Estados Unidos, países de língua inglesa, as crianças pequenas têm dificuldade de entender tudo o que está escrito nele, podem apenas seguir as aventuras das personagens, como no desenho animado de Walt Disney ou nas inúmeras adaptações infantis do livro, que sempre pulam pedaços, cortam diálogos e jogos de palavras, simplificam coisas. Às vezes até se metem a simplificar tanto, que a história acaba perdendo o sentido. E fica muita gente sem gostar de Alice simplesmente porque não consegue entender uma história tão maluca e meio aflitiva, justamente porque o sentido escapa ao leitor.

Essa questão do sentido é importantíssima quando a gente fala de Carroll. Como ele era professor de matemática e um estudioso de lógico e filosofia, era fascinado pelo sentido e o não-sentido de tudo. Ou pelo nonsense, como dizem os ingleses. Um termo que não tem tradução exata em português, mas que não designa uma coisa sem sentido, e sim algo que tem um sentido inverso, uma lógica ao contrário, vizinha do absurdo, mas nem por isso menos lógico. Como, por exemplo, a discussão que já no livro quando a Rainha manda decapitarem o Gato de Cheshire. Se “decapitar” é cortar a cabeça, separá-la do corpo, será possível “decapitar” um Gato que é só cabeça? Ou basta haver uma cabeça para poder haver decapitação? Afinal, só não se pode decapitar o que já não tem cabeça…

“Alice no País das Maravilhas” é uma série de encontros com brincadeiras desse tipo. E para o leitor atento, sua descoberta é uma alegria extra. Divirta-se.




Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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