Posts Tagged ‘Alice no País das Maravilhas

11
jul
10

Festival embaixo d’água reproduz cena de ‘Alice no país das maravilhas’

Deve ser muito legal poder organizar e participar de eventos desse tipo. Promovem e incentivam a cultura! Por que no meu país não é assim?

Festival embaixo d’água reproduz cena de ‘Alice no país das maravilhas’


‘Underwater Festival’ reúne mergulhadores do mundo inteiro na Flórida.
Cenas de filmes e musicais são encenados no fundo do mar.

Do G1, com agências

Os mergulhadores Katie Jennele, Bob Rowland, Eric Rolfe e Alicia Merel reproduziram a famosa cena de chá das cinco de ‘Alice no país das maravilhas’ embaixo d’água. A encenação aconteceu dentro da programação do ‘Underwater Festival’, evento que acontece anualmente na Flórida e reúne mergulhadores de várias partes do mundo. Na última edição do evento, os participantes fizeram uma homenagem aos Beatles tocando ‘Yellow submarine’.  (Foto: AP)

23
abr
10

No subterrâneo da fantasia

Não estou ansiosa para assistir “Alice no País das Maravilhas” e confesso que estou ficando desanimada diante de tantas críticas negativas que tenho lido a respeito do filme. Mas, de longe, essa matéria a seguir da revista Veja dessa semana, foi a mais cruel, e ouso dizer, talvez a mais injusta.

A repórter inclusive chega a sugerir que o diretor Tim Burton confundiu as duas rainhas – a de Copas, de “Alice no País das Maravilhas” com a Vermelha, de “Alice Através do Espelho”. Como se fosse possível um diretor do gabarito de Tim Burton confundir duas personagens de livros diferentes. De fato quem diz o bordão “Cortem-lhe a cabeça” é a Rainha de Copas, não a Rainha Vermelha, como esta acaba falando com freqüência no filme.

Tim Burton declarou em mais de uma entrevista que ele não estava preocupado em ser fiel ao livro. O foco dele seria nas personagens. Tanto é que a própria personagem principal, Alice, não é mais uma criança e sim uma adolescente.

No próprio trailer do filme eu pude perceber que Alice retorna ao País das Maravilhas. Tim Burton não quis simplesmente mudar deliberadamente a idade de Alice. O próprio Chapeleiro Maluco não é igual ao livro. Bem como diversas situações no País das Maravilhas.

A repórter critica ainda que no filme há lutas, guerras, o bem contra o mal e argumenta que no livro não existe luta entre o bem e o mal. Mais uma vez eu digo que o diretor não estava querendo fazer de “Alice no País das Maravilhas” uma produção fiel ao livro como aconteceu em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” que ele também dirigiu e foi de fato uma adaptação do livro.

Quando Lewis Carroll escreveu as aventuras de Alice o que as crianças gostavam de ler (ainda não consigo classificar Alice como um livro infanto-juvenil) não era o mesmo do que as crianças e jovens de hoje querem ler. Muito menos ver nas salas de cinema. As crianças de hoje querem sim batalhas entre seres fantásticos, se fosse o contrário como justificar o sucesso de “Harry Potter” e “Percy Jackson”? Tim Burton pode ter errado em um ou mais pontos, mas na minha opinião, ele não errou neste. Ele apenas modernizou a história. Mas só poderei ter mais opiniões após assistir ao filme.

Revistas  »  Edição 2161 / 21 de abril de 2010

Cinema

No subterrâneo da fantasia

 

“Alice no País das Maravilhas” parecia ser uma escolha lógica para o diretor Tim Burton. Mas sua versão do clássico do escritor Lewis Carroll é ao mesmo tempo feérica e tímida

Isabela Boscov

http://veja.abril.com.br/210410/subterraneo-fantasia-p-130.shtml

Fotos divulgação

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI
Mia Wasikowska, no papel da Alice crescidinha: a atriz australiana seria uma ótima escolha para a personagem – se esta houvesse sobrevivido à revisão do diretor

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, o título com que o clássico infantil de Lewis Carroll ficou conhecido desde sua primeira publicação em português, em 1865 (logo em seguida ao lançamento da edição original inglesa), tem algo de enganoso. Uma tradução mais exata – embora talvez menos convidativa – para Alice in Wonderland seria Alice na Terra dos Assombros. Pois assombros, de fato, é só o que a pequena Alice encontra a partir do momento em que cai na toca de um coelho branco (não é à toa que ele chama a sua atenção; o coelho veste uma casaca) e, no fundo dela, se descobre em um mundo cuja lógica, se é que ela existe, em nada se parece com a lógica deste mundo. Como em um delírio de febre, Alice estica ao comer um biscoito, e então encolhe ao provar uma beberagem. Depara com uma lagarta que fuma um narguilé e com um gato cujo sorriso fixo continua pairando no ar mesmo depois que ele se vai. Dá braçadas em uma lagoa feita de suas próprias lágrimas. Comemora seu desaniversário e participa de um chá da tarde com um chapeleiro que, como bem descreve seu nome, é maluco. E é convocada a testemunhar em um julgamento sobre um roubo de tortas na corte da irascível Rainha de Copas, que tem cartas de baralho no lugar de lacaios e cuja ordem mais frequente – aliás, a única que ela sabe dar – é “cortem-lhe a cabeça!”. Tudo muito curioso, mas não propriamente maravilhoso: todos esses personagens tentam provocar, hostilizar ou ridicularizar Alice – com sucesso. Ou seja, Alice não consegue ficar à vontade nem no mundo que tem de habitar, nem no mundo criado por sua imaginação (no desfecho, esclarece-se que tudo não passou de um sonho). Não surpreende, assim, que essa seja uma das histórias prediletas de Tim Burton, o diretor de Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e A Fantástica Fábrica de Chocolate: Burton construiu toda uma carreira sobre as dores e frustrações causadas pelos sentimentos de inadequação – os de seus personagens e também os seus. Surpreende, entretanto, que sendo Alice uma escolha tão, bem, lógica para o diretor, ele tenha demorado tanto tempo para realizar sua adaptação. Tempo demais, na verdade.

 

Tudo em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, Estados Unidos, 2010), que estreia no país na próxima sexta-feira, tem aquele travo das ideias que foram analisadas, racionalizadas e buriladas até que a última centelha de vida fosse apagada delas. A imaginação visual de Burton, sua maior assinatura e melhor recomendação, atinge aqui um pico febril. Cada cena é uma explosão de cores, mas elas frequentemente adquirem tons biliosos. O 3D, formato para o qual o filme foi convertido depois de ter sido rodado no 2D convencional, é usado de maneira agressiva, quase vulgar. Nenhum personagem é poupado de fazer sua aparição. Vários, porém, são apresentados e logo depois largados no meio do caminho. Outros são adulterados sem que se identifique uma boa razão para tal: a Rainha de Copas, por exemplo, mantém sua personalidade, mas é chamada aqui de Rainha Vermelha, uma personagem bem diferente e que só existe em Através do Espelho, a sequência de País das Maravilhas publicada em 1871. O motivo parece ser a necessidade de contrapô-la à meiga Rainha Branca, que no filme é sua irmã e rival – Vermelha (Helena Bonham Carter) usurpou o trono de Branca (Anne Hathaway), e Alice é quem vai ter de comandar as forças do bem em uma guerra para derrubar a tirana e seus asseclas maléficos. Forças do bem? Guerra? A certa altura, Alice no País das Maravilhas, ícone da literatura vitoriana e manifesto em favor do nonsense promulgado em uma era que se inebriara do racionalismo, sai de vez do seu curso e vira uma fantasia medieval com batalhas, espadas e armaduras. Vira, enfim, uma tentativa desanimada, sem alma nem convicção, de emular sucessos da fantasia como O Senhor dos Anéis e Harry Potter e de, como neles, galvanizar o público em torno de um protagonista incumbido de uma missão messiânica. 

MALUCO BELEZA
O Chapeleiro Maluco vivido por Johnny Depp é um rebelde melancólico,- inconformado mas impotente para se erguer sozinho contra a tirania da Rainha Vermelha. No livro de Lewis Carroll, ele tem lá suas diferenças com a monarquia, mas está longe de ser esse anarquista manso: quando está sentado à sua absurda mesa de chá, é também ele um déspota – e se mostra sempre rude com Alice

 

Se há dois sintomas claros de que esta Alice passou por um processo de desnaturação, porém, eles estão, primeiro, na figura triste em que o originalmente insolente Chapeleiro Maluco se transformou: quando Johnny Depp está em cena, com lentes que deixam seus olhos repletos de melancolia do tamanho de dois pires, o filme transpira o que de fato gostaria de ser – mais uma história em que Depp assume o lugar de alter ego trágico do diretor, e em que garotas perdidas em um labirinto de silogismos provavelmente não teriam muito que fazer. O segundo e mais grave sintoma está na alteração ostensiva da protagonista, de uma menina de 10 anos para uma jovem de 19, indignada com a ideia de ter de se casar com um aristocrata tolo e sem queixo. Muito da polêmica que a obra de Lewis Carroll acumulou no decorrer de sua trajetória vem da paixão (até onde se sabe platônica, mas nem por isso menos imprópria) que o escritor alimentou por sua musa, a menina Alice Liddell, que ele conheceu quando ela tinha 4 anos (veja o quadro abaixo). É compreensível e aceitável que Burton queira passar ao largo de qualquer rastro deixado por essas sugestões de pedofilia. Mas, na ânsia de se afastar delas, o diretor e a roteirista Linda Woolverton se jogam em uma outra armadilha: transformam o enredo em uma história de superação e de celebração do girl power – uma história, aliás, muito confusa. 

Alice, agora uma protofeminista, se recusa a usar espartilho, numa liberação de sua silhueta reminiscente das queimas de sutiãs dos anos 60. Mas é também uma destilação dos mais tradicionais ideais de feminilidade: é maternal, compassiva e redentora. Quando chega a essa última etapa, aliás, adeus às formas exuberantes da australiana Mia Wasikowska, que terminam bem comprimidas sob uma armadura de metal. Mia, conhecida pela série In Treatment, mostra ser uma atriz de bom senso inato, capaz de fazer sempre a escolha mais sólida em cada situação em que é lançada. É provável que fosse uma excelente Alice – se algo de Alice houvesse restado nesta versão ao mesmo tempo tão feérica e tão tímida de Tim Burton. 

CORTEM O CABEÇÃO
Interpretada por Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha é a grande vilã do filme, em oposição à etérea Rainha Branca. Nos livros originais, porém, não há vilões nem mocinhos, e as duas supostas rivais até tomam chá juntas. O bordão que a Rainha Vermelha repete ao longo do filme – “cortem-lhe a cabeça” – na verdade pertence a uma terceira monarca, a Rainha de Copas, essa sim uma desvairada autocrata

 

Um clássico insolente

Lewis Carroll/Getty Images

A PEQUENA MUSA
Alice Liddell com roupas de mendiga, em foto do próprio Lewis Carroll (à esq.): o escritor disse que nunca esqueceria o dia em que conheceu a menina

“Esse foi um dia para não esquecer”, registra o diário do reverendo inglês Charles Dodgson (1832-1898) em 25 de abril de 1856. Foi nesse dia que o professor de matemática de Oxford conheceu as três filhas do reitor Henry Liddell. Gago e tímido, Dodgson adorava crianças – sentimento cuja extensão (ou cuja gravidade) até hoje suscita debates entre biógrafos e estudiosos. Parece ter se apaixonado por Alice Liddell, que ainda não contava 4 anos naquele primeiro dia inesquecível. Nos anos seguintes, Dodgson comporia histórias fantasiosas para as irmãs Liddell. A própria Alice insistiu para que ele escrevesse os contos em que ela aparecia como protagonista. Daí surgiu Aventuras de Alice Debaixo da Terra, caderno manuscrito ilustrado pelo próprio Dodgson e presenteado a sua musa no Natal de 1864 (quando o autor já andava afastado da família Liddell, possivelmente por ter proposto um matrimônio indesejado à pré-pubescente Alice). Uma versão expandida seria publicada no ano seguinte, assinada pelo pseudônimo literário do autor, Lewis Carroll, e já com o título definitivo: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Em 1871, Através do Espelho, novo livro protagonizado por Alice, seria o best-seller de Natal na Inglaterra. Essas duas obras estão entre as mais extravagantes já escritas para o público infantil – e Alice no País das Maravilhas, o filme, reproduz essa extravagância só na superfície iridescente, jamais no espírito.

Em um tempo em que os livros para crianças eram moralizantes, Carroll ousou apresentar uma fantasia que ridicularizava a compostura exigida às pobres crianças vitorianas. “Fale só quando falarem com você”, diz a sentenciosa Rainha Vermelha de Através do Espelho (que no filme é fundida – ou confundida – com a despótica Rainha de Copas). Alice observa que, se essa regra fosse seguida por todos igualmente, a conversa deixaria de existir. O livro exalta essa esperteza que os adultos tantas vezes tomam por insolência. Sem tal qualidade, Alice não sobreviveria ao País das Maravilhas e ao estranho mundo do outro lado do espelho. Esses são, afinal, universos de pesadelo, povoados por criaturas esquisitas que vivem aprisionadas em paradoxos lógicos e argumentos circulares. Um exemplo tão divertido quanto tenebroso é a hora do chá que nunca chega ao fim na mesa da Lebre de Março e do Chapeleiro Maluco – aliás, muito diferente do louco manso encarnado por Johnny Depp, o Chapeleiro é uma figura antipática, muito hostil a Alice. “Teria prazer em conhecer aquele coelho tagarela, mas não ambiciono a amizade do chapeleiro”, disse a poeta Christina Rossetti em uma carta para Carroll.

Embora os jogos de palavras e as alusões históricas e literárias dos dois livros de Alice só possam ser plenamente apreciados por gente grande, Carroll ainda é uma leitura fascinante para as crianças. Poucos escritores compreenderam tão profundamente a inadequação que elas sentem diante das regras implacáveis dos adultos. As raízes psicológicas dessa compreensão são talvez sombrias – mas não comprometem a beleza do livro.

Jerônimo Teixeira

 

 

22
abr
10

Do outro lado do espelho

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo no caderno Mais, na página 8, do dia 18 de abril de 2010

 

Do outro lado do espelho

 

Indícios de patologias permeiam a vida e a obra do britânico Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”

 

Moacyr Sciliar

Colunista da Folha

 

Charles Lutwidge Dodgson (1832-98), mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, faz parte da história da literatura, sobretudo graças ao monumental “Alice no País das Maravilhas”, que podemos considerar a obra precursora do realismo mágico e que inspirou obras similares, peças teatrais, filmes, o mais recente dirigido pelo original Tim Burton (que estréia no Brasil na sexta-feira).

Mas Dodgson também tem sido objeto de vários estudos médicos e psicológicos, baseados tanto em sua peculiar existência como em seu trabalho ficcional. De uma conservadora família anglicana, à qual não faltavam clérigos e militares, o jovem Dodgson, que as fotos mostram como um homem bonito, simpático, dedicou-se inicialmente à matemática, lecionando no famoso Christ Church College, de Oxford, cidade em que, a propósito, a sua memória é muito evocada.

Era um homem culto, gentil, mas não livre de problemas: como outro grande escritor, o seu contemporâneo, Machado de Assis, gaguejava, coisa que o mortificava e que rotulava como sua “hesitação”; o pássaro Dodô, que aparece no livro, traduziria a dificuldade que ele tinha em dizer seu sobrenome (“Do-Do-Dodgson”). Começou também a publicar e tornou-se razoavelmente conhecido, já usando o pseudônimo famoso.

Em 1856, um novo deão, Henry Liddell, tomou posse no Christ Church. Dodgson tornou-se amigo da família Liddell, sobretudo das três filhas, e sobretudo de Alice – que, segundo ele, não foi o modelo para a personagem do livro; de qualquer modo a história nasceu num passeio de barco com as garotas.

Ilustrado pelo grande sir John Tenniel, o livro se transformaria num sucesso retumbante, com uma continuação – “Through the Looking-Glass and What Alice Found There”, em geral traduzida como “Alice no País do Espelho”.

Mais ou menos na mesma época, Dodgson começou a se dedicar à fotografia, então em seus começos. Ele gostava de fotografar meninas, às vezes em poses sedutoras, e, nuns poucos casos comprovados, nuas. Daí nasceu a suspeita de pedofilia que durante décadas pesou sobre o escritor.

Vladimir Nabokov chegou a compará-lo a seu personagem Humbert Humbert, que, em “Lolita”, se apaixona por uma ninfeta. Havia um agravante: a Inglaterra vitoriana, uma sociedade moralmente muito repressiva, gerou casos de aberrações e até crimes sexuais, Jack, o Estripador, sendo disso um exemplo.

 

(Charles Lutwidge Dodgson – 1858 – Reprodução) – Fotografia de Alice Liddell realizada pelo escritor Lewis Carroll que aparece abaixo, em imagem de meados dos anos 1870

Reprodução

 

Proibição

 

No caso de Dodgson, há detalhes agravantes: a partir de 1863, o casal Liddell não mais permitiu que o professor visse as crianças. E, supostamente por causa de uma consciência culpada, ele nunca foi ordenado ministro da Igreja Anglicana, como era de se esperar com alguém que lecionava no Christ Church. Nisto contou com a aprovação do deão Liddell, que lhe permitiu continuar lecionando (também publicou livros de matemática, celebrizando-se pela criação de quebra-cabeças lógicos).

Os estudos modernos a respeito da controvérsia são, digamos, mais tolerantes. Dodgson certamente tinha dificuldades com mulheres adultas (no mínimo falta de interesse por elas). Mas daí a pedofilia vai um passo grande. Mesmo a suposta patologia vitoriana é posta em questão; parece que as fotos de crianças eram valorizadas como expressão da inocência infantil. E, nas fotos de Dodgson, as crianças parecem inteiramente à vontade, sem mostrar temor diante de um suposto assédio.

Um outro aspecto interessante, do ponto de vista médico, é a chamada síndrome “Alice no País das Maravilhas”. Reporta-se àquele episódio em que Alice cresce e encolhe, o que se traduz em macropsia e micropsia, a visão dos objetos subitamente aumentados ou diminuídos em tamanho, uma penosa sensação que pode ocorrer em casos de enxaqueca, problema que, como João Cabral de Melo Neto, Dodgson tinha.

Outros autores sugeriram que o escritor talvez sofresse de epilepsia do lobo temporal, que também pode dar esses sintomas. Dessa doença sofria Machado de Assis, e há disso evidências em sua obra. Por exemplo, a cena alucinatória em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, em que o protagonista, num delírio alucinatório, percorre os séculos transportado por um hipopótamo que, no final, “encolhe” e é apenas um gatinho.

Escritores não precisam ser necessariamente criaturas saudáveis. Mesmo porque conseguem, graças ao talento, transformar em fonte de inspiração as mazelas médicas e psicológicas que a eles, como outras pessoas, perturbam e atrapalham.

Moacyr Sciliar é médico e escritor, ganhador do 51º Prêmio Jabuti, nas categorias ficção e romance, por “Manual da Paixão Solitária” (Companhia das Letras).

moacyr.sciliar@uol.com.br

 

22
abr
10

Alice em nova versão

Matéria publicada no jornal Correio, no caderno Vida, nas páginas 22 e 23, no dia 18 de Abril de 2010.

Alice em nova versão

 

Tim Burton recriou no cinema a fantasia concebida pelo escritor Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas

 

O esperado filme do cultuado Tim Burton estréia sexta na Bahia

Doris Miranda

doris.miranda@redebahia.com.br

Quando leu “Alice no País das Maravilhas” pela primeira vez, aos 8 ou 9 anos, o diretor americano Tim Burton, 51 anos, ficou profundamente impressionado com aquele mundo amalucado, fruto da improvável imaginação do reverendo inglês Lewis Carroll (1832 – 1898), e publicado pela primeira vez em 1865.

A maturidade chegou e Burton nunca parou de ruminar o estranho conto da menina que descobre uma terra mágica no subterrâneo, onde coelhos falam, lagartas são oráculos, gatos aparecem do nada e rainhas cortam a cabeça dos súditos: “Como em qualquer conto de fadas, há o bem e o mal. O que eu mais gostei no Mundo Subterrâneo é que tudo é meio estranho, até as pessoas boas. Isso, para mim, é algo diferente”, avalia.

Hoje, respeitado pelo cinema cada vez mais autoral, apesar de derrapadas ocasionais, como em Planeta dos Macacos (2001), não é de se estranhar que Burton desse um jeito de criar sua própria versão da história. “De algum modo, Alice toca em algo subconsciente. É por isso que todas essas grandes histórias permanece”, explica.

Pois bem, a nova versão de Alice no País das Maravilhas, que estréia sexta-feira no Brasil, em versões dubladas e legendadas, ganham contornos ainda mais alucinados na visão de Tim Burton. Sobretudo pelos sensacionais efeitos em 3D, como se confere nas 126 cópias que chegam ao país, parcela do total de 400.

Bastam algumas cenas para ver a assinatura extravagante do diretor de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005). Nunca vi uma versão de Alice em que eu sentisse que toda a obra original foi traduzida na tela”, justifica. Isso, no entanto, somente não basta. Sua obra é linda de se ver, concebida com muito esmero, mas não desde redonda.

 

A jovem atriz Mia Wasikowska vive a inconformada Alice

 

O que não chega a ser problema, é importante ressaltar. Mesmo que a trama pareça um tanto esquemática e ligeiramente sem alma, o grande público mergulhou fundo nessa viagem rumo ao País das Maravilhas.

Realizado com custo total de US$ 250 milhões, “Alice no País das Maravilhas” já  faturou US$ 320 milhões em seis semanas de exibição nos EUA – e mais do que o dobro disso no mercado internacional. É a produção em 3D de maior faturamento depois, logicamente, do fenômeno “Avatar”, de James Cameron.

 

Além de fofo, o Gato Risonho é um dos grandes articuladores da guerra contra a tirânica Rainha Vermelha

 

Mudanças É claro que, em se tratando de Tim Burton, o seu “Alice no País das Maravilhas” não seria fiel ao original. E pode contar que ele mudou mesmo. Para começo de conversa, Alice Kinglowka (a novata Mia Wasikowska) não é mais aquela menininha do original. Agora ela tem 19 anos e está à beira de um casamento arranjado, pelo qual não sente o menor interesse. Eis que um dia vislumbra o coelho branco e, voilà, volta ao Mundo Subterrâneo.

Dessa vez, a viagem é diferente. Alice encontra o País das Maravilhas em guerra, tiranizado pela Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter, mulher do diretor). Após encontrar o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e o Gato Risonho (criado por computador), fica claro que Alice é a guerreira prevista pelo oráculo para recolocar a Rainha Branca (Anne Hathaway) e restaurar a paz.

Tirando os personagens de carne e osso, como Alice, o Chapeleiro Maluco, o Valete de Copas, a Rainha Vermelha e sua irmã, a Rainha Branca, todos os bichos falantes foram criados em computador, contabilizando 90% do total do elenco.

Como esses personagens foram acrescentados posteriormente no filme, os atores tiveram que contracenar com objetos ou pessoas totalmente pintadas de um verde quase fluorescente, o que causou um profundo incômodo no elenco. Como nem todo mundo pode proteger os olhos atrás de lentes cor de lavanda, como Tim Burton, houve quem reclamasse, como Johnny Depp.

“Não me incomodava falar andando sobre rodas num trilho de câmera, enquanto contracenava com uma fita crepe. Mas, o verde realmente me incomodava. No final do dia, eu me sentia confuso e desorientado”, declarou o ator em entrevista.

Tudo bem que Alice é a protagonista da história, mas o grande chamariz do filme de Tim Burton é mesmo o Chapeleiro Maluco, vivido por Johnny Depp, o fiel colaborador do diretor, com quem trabalhou em seis produções. Outro parceiro de longa data é o veterano ator britânico Christopher Lee. Dessa vez, o Drácula dos anos 70 empresta sua voz maravilhosa e soturna para dublar o vilão Jaguadarte, monstro que precisa ser destruído pela heroína.

Projeto dos estúdios Disney, a produção chegou às telonas após uma extensa campanha de marketing, que resultou numa espécie de Alicemania. Estilistas criaram roupas temáticas, joalheiros desempenharam preciosidades e novas edições da obra original foram lançadas em diversos suportes, como o audiolivro (narrado e interpretado), que esta sendo lançado no Brasil pela Audiolivro Editora por R$ 24,90.

 

Tim Burton em ação: Alice é projeto de infância

 

No mundo da fantasia

Anunciado com extensa campanha de marketing, finalmente chega aos cinemas brasileiros “Alice no País das Maravilhas”, filme em 3D de Tim Burton, baseado no clássico de Lewis Carroll. Alice já faturou US$ 320 milhões nos EUA e mais do que o dobro disso no resto do mundo.

Guia ilustrado detalha conceito do filme de Tim Burton

Tão importante quanto assistir ao filme de Tim Burton é ter o livro “Alice no País das Maravilhas – Guia Visual do Filme de Tim Burton” (Caramelo/ R$ 40,00/ 72 páginas), uma preciosidade de edição, pensada para detalhar todo o processo de criação do longa-metragem. Na verdade, trata-se de uma chance única de conhecer melhor como funciona a mente do diretor americano. Com isso, o leitor pode entender a leitura que ele fez da adolescente reprimida Alice Kinsleigh, do Chapeleiro Maluco, da Rainha Branca e da Rainha Vermelha. Mais do que recontar a história do filme, o livro nos dá pistas sobre a personalidade de Alice, que sente uma inadequação total à falta de jogo de cintura da Inglaterra vitoriana. Daí sua identificação com os seres encantados do País das Maravilhas.

 

Capa do precioso guia visual

 

Alice no País das Maravilhas em versão Manga

A editora Newpop lança a versão manga de “Alice no País das Maravilhas” (R$12/ 84 páginas), de Sakura Kinoshita. Totalmente concebida em cores, o que já não é comum para esse tipo de publicação, a HQ reproduz as aventuras da menina que encontra numa toca de coelho a porta de entra para um mundo fantástico.

 

Setor do manga explora Alice

 

 

Livro junta obras de Lewis Carroll

Antes mesmo do filme de Tim Burton estrear, o mercado editorial já tinha começado a soltar diversas publicações sobre as maravilhas do mundo criado por Lewis Carroll.

Agora, sai uma das mais preciosas Alice (s). A única edição de bolso do mercado brasileiro a trazer em tradução integral e não adaptada os dois livros de Carroll: “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e sua continuação “Através do Espelho” e o “Que Alice Encontrou por Lá”.

Com preço também de bolso (R$ 19,00), a edição cuidadosa traz ainda ilustrações originais de John Tenniel. A tradução de Maria Luiza X. de A. Borges foi premiada com o Jabuti de 2002.

 

Helena Bonham é a Rainha Vermelha

 

Ficha

Livro “Alice – As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, “Através do Espelho” e o “Que Encontrou Por Lá”

Autor Lewis Carroll

Tradução Maria Luiza X. de A. Borges

Editora Zahar

Preço R$ 19,00 (320 páginas)

Johnny Depp é o Chapeleiro

20
abr
10

Em fase de crescimento

Matéria publicada no jornal A Tarde no Caderno 2, no dia 03 de Abril de 2010. Matéria na capa e nas páginas 4 e 5.

 

Em fase de crescimento

 

Infanto juvenil Incerteza e descaminhos marcam a literatura feita para crianças e adolescentes, 200 anos depois de Hans Christian Andersen inaugurar o gênero.

 

Emanuella Sombra

A infância pobre deu ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen a oportunidade de falar sobre os contrastes da sociedade em que vivia. Sua primeira obra infantil, lançada entre os anos de 1835 e 1842, foram seis volumes de contos para crianças, público que ele acolheu até 1872. Foram 156 histórias, confrontos entre poderosos e desprotegidos, fortes e fracos, ricos e pobres. Algumas se tornaram célebres, como “Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia” e “Os Sapatinhos Vermelhos”.

“A partir de Andersen se criou um novo espaço de produção, escrever para criança, ter um mercado específico para este público, afirma Regina Dalcastagré, especialista em narrativa brasileira contemporânea e professora da Universidade de Brasília (UnB). Passados mais de 200 anos de seu nascimento, falar em literatura infanto-juvenil no Brasil é tratar de um público leitor expressivo e de um mercado que, embora em crescimento, ainda é restrito.

Mesmo correspondendo à faixa etária que mais lê, crianças e adolescentes têm acesso a poucos títulos adequados a sua idade. Seja a contos de fadas reeditados, clássicos adaptados para uma linguagem específica ou romances contemporâneos. A qualidade do que é lido oscila, e os personagens representadas não respeitam a diversidade dos leitores. “Por outro lado, as paródias dos filmes e até de outros livros vêm contribuindo para que as crianças conheçam os clássicos, e isso é positivo”.

 

 

Literatura

 

Mercado Quantidade e qualidade ainda são problemas do gênero infanto-juvenil.

 

Poucos livros para enorme público consumidor

 

Emanuella Sombra

 

Muito antes de as brasileiras Lygia Bojuga e Ana Maria Machado ganharem o prêmio Hans Christian Andersen de literatura, considerado o Nobel na categoria infanto-juvenil, nascia o escritor homenageado. Mais precisamente, no dia 2 de abril de 1805. considerado por muitos o precursor de uma linguagem direcionada para crianças e adolescentes, o autor de “O Patinho Feio” e “A roupa nova do imperador” inaugurou um gênero. Mais que isso, uma data.

Por causa de Christian Andersen, 2 de abril tornou-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil. Coincidência ou não, é na primeira fase da vida que o leitor brasileiro mais se dedica às páginas de ficção. Última pesquisa divulgada pelo Instituto Pró-Livro, “Retratos de leitura no Brasil”, revela que 50% dos considerados leitores – entrevistados que disseram ter lido pelo menos uma obra nos últimos três meses – estão em idade escolar.

Mais que isso: leram títulos indicados pelo professor e tem em Monteiro Lobato o escritor mais admirado, à frente de nomes como Graciliano Ramos, Luís Fernando Veríssimo e Clarisse Lispector. O resultado da pesquisa supõe um mercado editorial que atende a este público, tanto em variedade como em qualidade dos lançamentos. Mas os números dizem o contrário. Nas prateleiras das livrarias e lojas virtuais, livros para crianças e adolescentes são uma minoria.

 

De um total de 51 mil títulos lançados no País, apenas 6 mil eram destinadas ao público infanto-juvenil

 

Poucos títulos

 

Outra pesquisa, encomendada pela Câmara Brasileira do Livro à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), reserva à literatura infanto-juvenil uma fatia modesta no universo de títulos lançados no mercado. De acordo com “Produção e venda no setor editorial brasileiro”, publicada em 2009, apenas 12,5 da distribuição de obras do ano anterior correspondiam às literaturas infantil ou juvenil. Significa dizer que, de um total de 51 mil títulos, apenas 6 mil eram infanto-juvenis. “Nos últimos dez anos o crescimento do mercado editorial infanto-juvenil é inegável. O governo começou a comprar literatura assim como já vinha fazendo com os didáticos”, contraria Ceciliany Alves, editora de literatura e projetos especiais da FTD. De fato, ela tem razão. Mesmo pequeno, o percentual de publicações do gênero cresceu 23% entre os anos de 2007 e 2008. somente a FTD entra com aproximadamente 50 títulos lançados por ano, 70% deles escritos por autores nacionais.

 

Leitora de “novidades” como “Harry Potter” e de clássicos como Andersen, Tatiana Belinky defende a escolha pela qualidade

 

Segundo a editora, paralelo aos best sellers, clássicos continuam tendo boa aceitação. “Se as crianças ficam numa fila para comprar “Harry Potter” (da escritora J. K. Rowling), isso é fruto de um mercado editorial, de um processo de formação que se desenvolve na escola”. O selo “Grandes Clássicos para jovens leitores”, lançado pela FTD este ano, reflete sua opinião. “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, e “O Mágico de Oz”, de L. Frank Baum, são dois dos lançamentos.

 

Sem diversidade

 

Diante de um público de leitores em formação expressivo, resta a pergunta: o que eles estão lendo? Resultado de uma tese de mestrado da Universidade de Brasileira (UnB), um estudo avaliou que tipo de romances infanto-juvenis são escolhidos pelo governo federal para habitar as bibliotecas das escolas públicas.

O resultado coincidiu em suspeitas anteriores. Apesar de bons títulos selecionados, os livros não respeitam a diversidade sociocultural do País.

Especialista em narrativa brasileira contemporânea e professora da UnB, Regina Dalcastagné considera que, mesmo nos clássicos da literatura nacional, passagens com afirmações preconceituosas e relações do gênero “complicados” põe em xeque a utilidade pedagógica das narrativas. “Em Monteiro Lobato, por exemplo, a Tia Anastácia é apresentada como ‘negra de estimação’. A Emília faz uma apresentação dela em que a coloca como uma negra de alma branca”.

 

 

Racismo

 

Para a pesquisadora, ícones da literatura mundial também reproduzem visões de mundo preconceituosas. “Alguns livros legitimam comportamentos que não são positivos para ninguém, e a criança pode não perceber isso. Hoje mesmo eu estava lendo “Timtim” (série de quadrinhos do belga Georges Prosper Remi) com meu filho e há um episódio em que o protagonista vai ao Congo. Lá ele é tido como Deus, enquanto os nativos são burros, abobalhados. É muito racista”.

Leitora de “novidades” como o próprio “Harry Potter” e amante de clássicos como Andersen, aos 91 anos, a escritora Tatiana Belinky defende a escolha pela qualidade, independentemente da pedagogia utilizada. “Há muita coisa boa no mercado e há muita coisa medíocre. Gosto daqueles que têm senso de humor, ética, emoção, que estimulam não só a leitura, mas o pensamento”. Nascida na Rússia, veio para o Brasil aos dez anos, onde escreveu os clássicos “Coral dos Bichos” e “Limeriques”.

Aqui, passou a admirar escritores como José de Alencar e Machado de Assis, mas critica o emprego destes na idade escolar. Também aqueles que reduzem o vocabulário e simplificam as idéias ao falar com os pequenos. “Quando o livro quer ser muito infanto-juvenil ele se prejudica, nivela por baixo. Ou quando é didático demais, moralista. Literatura e poesia são formas de liberdade, não foram feitas para educar. Dar possibilidade à criança, expor ela aos livros, é a melhor opção.

 

Séculos V ao XV

 

Violência e ensinamentos edificantes

 

A Idade Média é marcada por valores baseados na hierarquia social. A lei do mais forte e a transmissão de ensinamentos edificantes são retratados nos contos de fadas, em que a violência com mulheres e crianças é constante. Coleção de lendas originárias do Oriente Médio e do Sul da Ásia, “As Mil e Umas Noites” é narrada a partir da rainha Sherazade, que, para não ser morta, a cada noite conta uma história maravilhosa ao rei Xariar, que, costumava matar suas noivas após desposá-las.

 

 

Séculos XV e XVI

 

Um pequeno adulto

 

É durante o Renascimento que a produção de valores da nova classe dominante, a burguesia, ganha força. A visão de mundo deixa de ser teocêntrica (a religião como centro) e as narrativas das antigas tradições orais são reescritas e adaptadas com intenções pedagógicas. A criança é concebida como um adulto em miniatura, é afastada do convívio familiar e introduzida nos colégios. Em seus “Ensaios”, Montaigne analisa as instituições, as opiniões e os costumes de época.

 

 

Séculos XVII e XVIII

 

A infância é um valor

 

No fim do século XVII se efetiva uma produção literária com características infanto-juvenis. A infância é valorizada e a criança é vista como um bem precioso. A literatura prepara os jovens para o convívio social e lhes proporciona valores éticos e intelectuais. As “Fábulas de La Fontaine” – carregadas de ironia e ensinamentos morais – contam histórias de animais a partir de uma linguagem simples e atraente. “As aventuras de Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, simboliza a luta do homem contra a natureza: Crusoé é um náufrago que passa 28 anos sozinho até encontrar a personagem Sexta-Feira.

 

 

Século XIX

 

Mais humano

 

A linha fantástico maravilhosa produz narrativas de fundo folclórico e surrealista por meio de livros como “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do espelho”, de Lewis Carroll. Os contos dos Irmãos Grimm” dão um sentido mais humanitário e menos violento às histórias da época medieval, transmitindo sempre uma “moral da história”. Os princípios da fraternidade e da generosidade humana são destacados por Hans Christian Andersen, pioneiro no texto adaptado para crianças.

 

 

Século XX

 

Desafiando convenções

 

A produção infanto-juvenil reencontra as fábulas em clássicos como “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint- Exupéry, e desafia o estilo de vida burguês, com “O Apanhador no Campo de Centeio”, de J. D. Salinger. O livro chegou a ser acusado de incitar o lado diabólico das pessoas depois que o assassino de John Lennon confessou ter se inspirado na obra para cometer o crime. No Brasil, Monteiro Lobato rompe com as convenções estereotipadas dos livros voltados às crianças.

 

 

Século XXI

 

Em vários volumes

 

Entram em cena os best sellers narrados em vários volumes, como a saga do bruxo “Harry Potter”, da escritora inglesa J. K. Rowling, que preserva os valores de fábulas clássicas, como a coragem e a integridade. Todos os sete volumes são adaptados para o cinema. A romancista Stephenie Meyer, com títulos voltados ao público juvenil, investe num enredo que mistura vampiros, inseguranças da adolescência e amores impossíveis. O primeiro volume, “Crepúsculo”, é a gênese da saga “Twilight”, febre entre adolescentes de todo Ocidente e também adaptada para o cinema.

 

 

Entrevista

 

Leda Cláudia da Silva

 

Personagens são homens broncos de classe média

 

Emanuella Sombra

 

Mestre em literatura infanto-juvenil pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Literatura Brasileira, Leda Cláudia da Silva concluiu em 2008 um estudo ousado: a partir de 53 títulos, descobrir quem são as personagens dos livros infantis e juvenis escritos por autores nacionais. Mais especificamente, quem são os mocinhos, heróis e bandidos que habitam as obras selecionadas pelo Governo Federal para ocupar as prateleiras das escolas públicas. O resultado foram várias radiografias semelhantes, que resultam num único estereótipo.

 

O que é a sua pesquisa?

 

Inicialmente eu peguei a lista de 300 obras do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), de 2005, e fiz um recorte. Estudei apenas as narrativas literárias brasileiras, especificamente contos produzidos a partir dos anos 70. cheguei a 53 livros e 149 personagens. Meu objetivo era analisar estes personagens.

 

E o que a senhora concluiu?

 

Observei algo que a gente tinha noção mais ainda não havia comprovado em pesquisa: a maioria dos personagens são adultos, homens brancos e de classe média. Coincidentemente, grande parte das obras foi publicada em 2005 (a lista do PNBE foi composta naquele ano para os livros serem adquiridos e distribuídos em 2006). Havia coisas de extrema qualidade no texto e na forma, e coisas muito ruins. De maneira geral, foi uma seleção boa em termos de enredo e tratamento gráfico, mas o personagem tinha um perfil que continua sendo reproduzido, inclusive com relação ao gênero. Os femininos estão num espaço privado, dentro do círculo familiar, das relações amorosas, enquanto os masculinos se envolvem em histórias de aventura e de conquista.

 

A senhora pesquisou o ano de 2005. de lá para cá, é possível dizer se houve mudanças?

 

Eu não saberia dizer. Como todo ano existe uma nova seleção, eles procuram o que há de novo. Há clássicos mas há uma grande quantidade de obras atuais.

 

A partir da sua pesquisa é possível dizer que não há diversidade de personagens. Eles obedecem um padrão social e racial.

 

Proporcionalmente não há, mas é possível encontrar títulos bons como “Amanhecer Esmeralda”, de Ferréz, em que o personagem principal é uma menina negra e pobre. Mas ainda é muito pouco.

 

Em termos de qualidade, o que mais lhe chamou atenção?

 

Monteiro Lobato e Roger Melo (vencedor do prêmio suíço Espace – enfants e do brasileiro Jabuti, em 2002 e indicado ao dinamarquês Hans Christian Andersen deste ano) são os que mais aparecem. O governo está dando uma peneirada muito boa, esta questão das personagens é específica e não se resolve de uma hora para outra. Em se tratando de temática, um livro que achei interessante foi o de Sandra Branco, “Porque meninos tem pés grandes e meninas tem pés pequenos”, que desconstroi estereótipos.

 

Percy Jackson volta sério e divertido

Logo que entreou no cinema, o primeiro capítulo da série “Percy Jackson e os Olimpianos” despertou comparações com “Harry Potter”. O lançamento de “A Batalha do Labirinto”, quarto livro da série, afasta ainda mais as duas obras. Rick Riordan, criador do garoto que descobre que a mitologia grega é real e que seu pai é um deles, é mais direto, sem parecer mecânico. Escreve com agilidade e economia. Sua trama tem mistérios e temas sérios, como em Harry, mas o tratamento é menos carregado. O sarcasmo de Percy e a coleção de seres fantásticos divertem, sem nunca cansar.

 

Suzy Lee lança novo livro sem palavras

É difícil encontrar palavras para falar dos livros de Suzy Lee. Até porque ela não costuma usá-las. Em “Espelho”, que acaba de ser lançado pela Cosac Naify, uma garota descobre as possibilidades lúdicas do seu próprio reflexo. Em páginas espelhadas, a garota dana e faz poses, em um processo sutil de descoberta de si mesma. A descoberta também é um dos temas de sua obra-prima, “Onda”, lançado pela mesma editora, que mostra uma garota brincando à beira-mar. Nos dois livros, Lee extrai de situações cotidianas força e beleza, que envolvem leitor e personagem.

 

O vasto catálogo de Cosac Naify

“Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak, e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, são dois dos mais de 200 títulos infanto-juvenis da editora, entre autores nacionais e estrangeiros.

7,2% é o percentual da participação de títulos do gênero infanto-juvenil no número de exemplares distribuídos no mercado literário brasileiro de 2008.

6.409 é o número de títulos do gênero lançados em 2008, representando crescimento de 23,3% no segmento editorial para jovens e adolescentes. Em 2007, foram publicados 5.202 títulos.

 

Brigando feito gente grande

No ranking da Veja dos mais vendidos na categoria ficção (atualizado no site da revista no dia 2 de abril), infanto-juvenis competem em pé de igualdade com “adultos”. Rick Riordan aparece em segundo lugar com “O Ladrão de Raios, em quarto, com “O Mar de Monstros”, e em sexto, com “A Batalha do Labirinto”. A autora da saga “Crepúsculo”, Stephenie Meyer aparece em quinto, com “Amanhecer”, e em décimo, com “Eclipse”. Duas edições de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, da Zahar e da Cosac Naify, aparecem em nona e décima-nona colocações.

 

16
abr
10

A Alice de Tim Burton

Matéria publicada na Revista Isto É

Fonte:http://www.istoe.com.br/reportagens/60202_A+ALICE+DE+TIM+BURTON

A Alice de Tim Burton

O filme “Alice no País das Maravilhas” faz uma extravagante adaptação do livro de Lewis Carroll e se transforma no novo fenômeno do cinema americano

Ivan Claudio

 

MUNDO ARTIFICIAL


A atriz Mia Wasikowska no papel de Alice e o Coelho Branco, sempre preocupado com as horas: cenas filmadas em estúdio verde e preenchidas depois com cenários e personagens digitalizados

A era do blockbuster é relativamente recente: ganhou impulso no início dos anos 80, quando o aparecimento de “Guerra nas Estrelas” provocou uma mudança no marketing dos estúdios. Todos os 40 filmes mais vistos do cinema são produções americanas rodadas a partir dessa época e com uma orientação precisa: atingir espectadores com idade a partir dos 13 anos. Hoje em Hollywood o que se busca são histórias que atraiam todo tipo de público, a começar pelos pré-adolescentes – e, se possível, pelas crianças. O mais novo fenômeno do gênero é “Alice no País das Maravilhas”, que deveria se chamar “Alice de Tim Burton”, tamanha a força da assinatura imprimida pelo diretor americano em sua adaptação da obra do escritor inglês Lewis Carroll. Com apenas duas semanas de exibição nos EUA (e obviamente em primeiro lugar nas bilheterias), a superprodução em 3D soma rendimentos de US$ 270 milhões, ou seja, já saldou em casa o seu orçamento de US$ 250 milhões. Seu faturamento cresce em ritmo incrivelmente maior do que o visto em “Avatar”, que no mesmo período (a semana do Natal) ainda estava na casa dos US$ 200 milhões.

“Alice” custou US$ 250 milhões e faturou em duas semanas US$ 270 milhões nos EUA. É mais que “Avatar”

Com estreia no Brasil antecipada para o feriado do dia 21 de abril, “Alice” gerou uma onda de consumo que já repercute por aqui. Aproveitando-se do sucesso, três editoras (CosacNaify, Zahar e Salamandra) lançaram recentemente edições atualizadas do livro, algumas delas trazendo também a continuação da aventura da personagem – “Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá”. Esses relançamentos de um clássico do século XIX vêm competindo com pesos-pesados como Dan Brown e Stephenie Meyer na lista dos mais vendidos das principais livrarias. A edição da Zahar, por exemplo, já está na segunda tiragem de 40 mil exemplares e a CosacNaify esgotou a primeira edição de dez mil livros. O problema de produções massivas como “Alice” é que, para satisfazer a uma audiência tão vasta, precisam se tornar mais acessíveis. No caso, a habitual inventividade de Burton não foi suficiente para manter viva a narrativa anárquica e bastante crítica da “lógica adulta” contida no original. Dizer que a “Alice de Tim Burton” é inofensiva não significa que ela seja inteiramente decepcionante. Está lá, com toda graça e extravagância visual, a completa galeria de personagens absurdos que a garotinha encontra ao visitar o mundo subterrâneo, depois de cair na toca de um coelho branco vestido a caráter: a rainha que vive pedindo a cabeça de seus súditos por motivos irrelevantes, o chapeleiro maluco às voltas com enigmas como “por que um corvo é igual a uma escrivaninha?” ou a arrogante lagarta azul que solta baforadas enquanto descansa em cima de cogumelos, fumando um narguilé. Cultuado pelos surrealistas como precursor da “arte do inconsciente”, esse enredo perdeu um pouco de sua vitalidade e subversão justamente por assumir, nas telas, uma linha muito explicativa.

 

PSICODELIA

Depp como o Chapeleiro Maluco: passos de Michael Jackson

A primeira mudança que afeta em cheio o lado inconformista da história foi a decisão de recontá-la do ponto de vista de uma Alice adulta (Mia Wasikowska) que retorna ao “país das maravilhas” atraída pelo mesmo coelho de casaca. Essa é a saída que a jovem encontra para se livrar de um pedido de casamento de um lorde pelo qual não tinha a menor atração – e que somava ao seu perfil afetado um incontornável problema estomacal. Na nova adaptação, a disparatada sequência de acontecimentos do livro foi ordenada, perdendo assim o seu engraçado encadeamento de absurdos. De outro lado, existem qualidades que merecem ser ressaltadas e que não estariam ausentes de um trabalho de Burton, autor de obras ousadas como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” . Na relação de atrativos que valem o ingresso, o primeiro a despontar é o delirante visual. Cerca de 90% do filme é resultado de computação gráfica, num total de 2.500 planos (pedaços de cena) de efeitos digitais. Tirando os personagens de carne e osso, como Alice, o Chapeleiro Maluco, o Valete de Copas, a Rainha Vermelha e sua irmã, a Rainha Branca, todos os bichos falantes foram criados em computador – e alguns deles são um grande avanço na técnica, a exemplo dos sapos da corte da Rainha Vermelha. Como esses personagens foram acrescentados posteriormente no filme, os atores tiveram que contracenar com objetos – ou, no máximo, diante de pessoas totalmente pintadas de verde.

Tão verdes que ficavam fluorescentes ao ser iluminadas com os potentes holofotes. Essa técnica de filmagem combina com o clima psicodélico do filme, mas não é proposital. Trata-se de um artifício comum em edição digital. Na pós-produção, tudo o que é pintado com essa cor (fundo, pessoas, objetos) é apagado e serve de receptáculo para sobreposições de imagens sintéticas, caso de bichos feitos em CGI (computer generated images) e paisagens artificiais. A produção abusou tanto da técnica que a exposição seguida do elenco e dos técnicos ao ambiente “cítrico” causou letargia e mal-estar. O diretor Tim Burton, por exemplo, recorreu a óculos cor de lavanda para reduzir esse efeito. Johnny Depp usou uma lente verde que realça o jeito extraterrestre de seu personagem, o Chapeleiro Maluco: “Não me incomodava falar meu diálogo andando sobre um trilho de câmera enquanto contracenava com uma fita-crepe. Mas o verde realmente incomoda. No final do dia eu me sentia confuso e desorientado.”

Sempre dedicado aos seus papéis, Depp ficou intrigado com um recorrente comentário irônico do Chapeleiro, que volta e meia dizia: “Ando investigando coisas que começam com a letra M.” Ao pesquisar a expressão inglesa “maluco como um chapeleiro”, ele descobriu que os fabricantes de chapéus realmente tinham a mente perturbada pelo mercúrio existente na cola para feltros. Sofriam um tipo de envenenamento. Ator preferido de Tim Burton, com quem já trabalhou em sete filmes, Depp é outra das razões para conferir “Alice no País das Maravilhas”. Ao rodar “Piratas do Caribe”, ele disse que se inspirou no roqueiro Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, sobre quem está fazendo um documentário. A inspiração continua nesse novo personagem, que ganhou outra referência: o cantor Michael Jackson. Quase no final do filme, Depp dança um passo apelidado de “funderwhack”, que lembra o “moonwalk” do cantor americano. Não se trata de uma citação gratuita: pesa sobre Lewis Carroll a mesma suspeita de pedofilia que pesava sobre Michael Jackson. 

 

Sempre dedicado aos seus papéis, Depp ficou intrigado com um recorrente comentário irônico do Chapeleiro, que volta e meia dizia: “Ando investigando coisas que começam com a letra M.” Ao pesquisar a expressão inglesa “maluco como um chapeleiro”, ele descobriu que os fabricantes de chapéus realmente tinham a mente perturbada pelo mercúrio existente na cola para feltros. Sofriam um tipo de envenenamento. Ator preferido de Tim Burton, com quem já trabalhou em sete filmes, Depp é outra das razões para conferir “Alice no País das Maravilhas”. Ao rodar “Piratas do Caribe”, ele disse que se inspirou no roqueiro Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, sobre quem está fazendo um documentário. A inspiração continua nesse novo personagem, que ganhou outra referência: o cantor Michael Jackson. Quase no final do filme, Depp dança um passo apelidado de “funderwhack”, que lembra o “moonwalk” do cantor americano. Não se trata de uma citação gratuita: pesa sobre Lewis Carroll a mesma suspeita de pedofilia que pesava sobre Michael Jackson. 

 

 

16
abr
10

Revisitando Alice

Matéria publicada no jornal A Tarde no caderno 2 do dia 28 de novembro de 2009, na capa do caderno e nas páginas 4 e 5.

Revisitando Alice

Clássico Cosac Naify uniu a genialidade da obra de Lewis Carroll à ousadia do artista multimídia Luiz Pierre Zerbini.

Cássia Candra

“De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” O primeiro questionamento de Alice, protagonista do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, é levado a série na nova edição da obra no Brasil, que a editora Cosac Naify coloca hoje nas livrarias do País em duas versões.

Em forma de pop ups, as ilustrações teatrais criadas pelo artista multimídia Luiz Zerbini quase saltam das páginas do livro, acrescentando mais ludicidade à abundância visual da história que há quase 150 anos arrebata leitores de todas as idades.

Construídas com cartas de baralho para interpretar, em jogos de luz e sombra, o universo imagético de uma menina em sua aventura non sense, as maquetes do artista paulistano são “um deslumbramento para os olhos”, na opinião da doutora em lingüística e semiologia, Ana Maria Machado, que assina um dos textos da nova edição.

“A identificação foi total”, diz Zervini, em entrevista ao Caderno 2+. O artista que chegou a pensar em declinar do convite da editora, resolveu que melhor seria responder uma ousadia com outra ainda maior, e até cogita “fazer uma exposição só sobre Alice”, a partir de uma “interpretação livre da história e seus desdobramentos”.

Para o historiador Nicolau Sevcenko, que fez a tradução integral do original de 1865, Zerbini se saiu bem com sua “poesia visual”, delicada, onírica e “estranhamente desconcertante”. Também enredado nos instigantes jogos de Carroll (em seu caso, gramaticais e semânticos), o tradutor considera que em uma história com tamanha força visual, ilustrações e ilustradores são elementos “decisivos do livro”.

Desde o inglês John Tenniel, que ilustrou a primeira edição muitos artistas já interpretaram plasticamente a história. O mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966. a nova versão do clássico já revertido para o teatro, a dança, a música e as HQs, chega às vésperas de mais uma superprodução para o cinema, desta vez desafiando o diretor Tim Burton.

Clássico “Alice no País das Maravilhas”, é considerada uma obra provocante, rica em referências e signos.

História instiga estudiosos e criadores de várias linguagens

Cássia Candra

Citando Santo Agostinho em “O prazer do texto” (perspectiva, 2002), uma de suas obras mais conhecidas, o semiólogo francês Roland Barthes, afirma que o signo é “uma coisa que, além da espécie ingerida pelos sentidos, faz vir ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa”.

Este era o deleite de Lewis Carroll (1832 – 1898), nascido Charles Lutwidge Dodgson, que em sua obra-prima “Alice no País das Maravilhas”, dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

“É através do uso da linguagem verbal que Carroll retrata seu imaginário excepcional, evocando uma confluência entre palavras, sentidos e o imaginário do leitor”, pontua Fernanda Donato, em sua dissertação de mestrado em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense, “Alice no Universo da Percepção Visual: uma leitura semiológica de Alice in Wonderland de Lewis Carroll”. Fernanda, que atualmente é professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, afirma, em sua pesquisa, que o escritor inglês se serve das palavras como peças de quebra-cabeça. Para ela, Carroll, que era professor de matemática na Universidade de Oxford, fazia da literatura “um meio de entretenimento associada ao livre prazer de construção e desconstrução de ideias e imagens oriundas de seu imaginário fértil”.

Quem mais poderia criar uma situação na qual uma menina cresce tanto que não consegue ver mais os próprios pés e até planeja enviar-lhes um par de botas de presente pelo correio? “Estranhissérrimo”, diria a protagonista da imaginação deslumbrante de Carroll.

Jogos gramaticais

Absolutamente fascinado, o historiador Nicolau Sevcenko, aceitou a provocação ao traduzir a obra original de 1865, além de todos os poemas do autor, para a mais recente edição brasileira, que a editora Cosac Naify lança hoje em todo o País.

Professor da USP e da Universidade de Harvard (EUA), a ele coube resolver a equação literária de Lewis Carroll. “Encarar os jogos gramaticais, semânticos, contextuais, poéticos, filosóficos, estéticos e éticos das poesias e canções do livro foi um desafio enorme”, reconhece.

“As maravilhas do mundo de Alice acontecem por meio da linguagem”, enfatiza a professora Fernanda Donato em sua pesquisa sobre o clássico, sublinhando os recursos inesgotáveis que o autor apresenta, conscientemente. Ela questiona se Carroll – fotógrafo, matemático e pensador de lógica -, “seria capaz de estabelecer um limite para a sua escrita, não permitindo que extrapolasse para os demais campos de seu domínio?”

Carroll dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

 

Outras linguagens

O artista visual Victor Venas pensa que o valor da obra de Carroll, como representação artística de uma época, se dimensiona no momento em que estabelece uma possibilidade de diálogo com outras linguagens.

“Alice no País das Maravilhas” “é um marco. Várias obras usam, direta ou indiretamente suas referências”, observa. Ele cita “A Viagem de Chihiro”, de Hayao Miyazaki, Oscar de melhor animação em 2003, e “Matrix”. Na ficção de Andy Wachowski e Larry Wachowski, há uma referência direta, quando Morpheus pergunta ao protagonista, Thomas Anderson (Keanu Reeves): “Está se sentindo como Alice, não?”

Andréa Elia, que montou e dirige o espetáculo infantil “Alice no Sertão das Maravilhas”, em cartaz até amanhã, no Teatro Módulo, diz com propriedade que “a obra de Carroll é inspiração para outras abordagens artísticas”. Para ela, “esta certamente é uma história que poder ser encenada, musicada, dançada…”.

Além do que, se trata de uma “viagem psicodélica com abertura para muitas adaptações”, comenta. Ela mesma transpôs o universo da Inglaterra Vitoriana para uma realidade mais próxima do público baiano. Assim, em sua adaptação para o teatro infantil, a Rainha de Copas virou cangaceira, e o gato e o coelho se transformaram em um bode e em um tatu. “A nossa Alice percorre este cenário, e com ela mantivemos nosso encantamento”, conta a diretora.

Para Venas, que também é arte educador, as sessões semanais do desenho animado de Walt Disney o levam a redescobrir os enigmas da mensagem contundente do clássico, que ele usa como referência em sala de aula. “Alice vive um rito de passagem, ela se transforma. É como se dissesse: ‘Questione’. É um livro que não tem idade. É pura filosofia”, conclui.

O tradutor Nicolau Sevcenko reconhece o desafio enorme que foi resolver a equação literária de Lewis Carroll

 

Curiosidades

Tradução Monteiro Lobato, autor da coleção “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, foi responsável pela tradução da edição brasileira publicada em 1960.

Cinema A obra vem sendo adaptada desde 1903, época do cinema mudo, o próximo lançamento tem a direção de Tim Burton.

Artes Dentre os muitos artistas que já interpretaram plasticamente a história de “Alice no País das Maravilhas”, o mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966 e que não tem publicação no Brasil.

Entrevista

Luiz Zerbini, artista multimídia

Acho que meus desenhos só servem para minhas histórias

Luiz Pierre Zerbini, 50 anos, é o que se pode chamar de um sujeito dinâmico. Concedeu a entrevista por e-mail, da ponte aérea, entre o Rio de Janeiro, sua morada desde 1980, e São Paulo, cidade natal, onde monta atualmente uma nova exposição. Há inúmeras outras em sua trajetória, iniciado aos quatro anos de idade com aulas de pintura (depois estudou fotografia e aquarela). Já passou por vários salões e bienais importantes, como as de São Paulo e Havana e participou de outros projetos interessantes, como o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, junto com a atriz Regina Case, fazendo cenografia.

Artista multimídia e um grande experimentalista, Zerbini é o criador do grupo Chelpa Ferro, que associa imagem e som, redefinindo significados para antigos equipamentos eletrônicos. O convite de Cosac Naify, para ilustrar a nova edição brasileira do clássico “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, o levou a uma experiência única, por meio da qual experimentou uma interpretação plástica sem precedentes em sua carreira. É sobre isso que ele fala nesta entrevista à repórter Cássia Candra.

Você já havia pensado em ilustrar a obra?

Nunca. Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação, detalhes, cenários e personagens que seria impossível e desnecessário ilustrá-lo. Não dá pra competir com a profusão de imagens contidas numa única frase do livro. Ilustrações imaginárias são mais ágeis e sujeitas às metamorfoses que o livro passa. Elas parecem mais compatíveis com a idéia do autor, mas esse não era o desejo da Alice e temos que respeitar o desejo dela.

Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação que seria impossível ilustrá-lo.

Como surgiu o convite?

Eu imagino que a editora deve ter pensado “só um maluco aceitara um trabalho como esse”, logo pensaram em mim. Mesmo assim, meu primeiro impulso foi o de recusar o convite. Por outro lado, sempre senti uma atração pela Rainha de Copas e seu exército de cartas. Foi por onde eu comecei imaginando que poderia construir personagens de carta de baralho. Pensei também numa frase de Alice no começo do livro, em que ela diz como pode existir um livro sem ilustrações e imaginei que hoje em dia ela diria como pode existir um livro com ilustrações ilustrativas e isso me fez pensar no livro sem ilustrações literais. Pensei em ilustrações que contassem uma história paralela.

Qual o significado do projeto?

Acho que fiz um dos meus melhores trabalhos. Não sou um ilustrador e nunca havia ilustrado nenhum livro antes. Acho que meus desenhos só servem para ilustrar minhas próprias histórias. Talvez, por isso, tenha escolhido construir um país das maravilhas com cartas de baralho.

Imagino que a editora deve ter pensando “só um maluco aceitaria um trabalho como esse”

O que o levou a interpretação desse elemento?

Quando acabei de fazer o exército de cartas e a Rainha de Copas, vi que poderia construir tudo a partir de cartas. Precisava de alguma coisa que desse unidade visual.

Nicolau Sevcenko disse que seu trabalho está à altura da energia alucinante do livro…

Me sinto naturalmente imerso em uma energia alucinatória. Tenho muita facilidade em falar com insetos, plantas e objetos em geral, isso facilitou. A identificação foi total.

Adaptação de Tim Burton no cinema nacional só em Abril de 2010

Lucas Cunha

Os fãs brasileiros de Alice serão um dos últimos países a receber a aguardada versão dirigida por Tim Burton que chega no início de março de 2010 à maioria dos mercados, mas só aporta nos cinemas do Brasil em 23 de abril.

A razão das expectativas vem da possibilidade da junção de dois autores consagrados justamente por construírem obras supostamente para um público infanto-juvenil cheias de mensagem subliminares e estilo nonsense.

Apesar de Alice já ter sido adaptado para o cinema algumas vezes, a mais notória delas para a Disney em 1951, a versão de Tim Burton tem tudo para ser a versão mais marcante, o que já pode ser conferido pelo trailer que está na internet.

Segundo o diretor, o livro de Lewis Carroll sempre lhe fascinou, não apenas pela história, mas por trazer muita informação e músicas. Completa ainda que “nenhuma versão filmada até agora tinha um apelo para mim”, o que deve resultar em algo único.

Para criar uma história diferente, Burton diz ter pego trechos dos livros de Carroll para montar a sua versão, sem se preocupar em seguir fielmente algum livro ou ainda de partir de algum lugar que ainda não tenha sido abordados em outras versões. Burton disse em uma entrevista no Comic Som, este ano, que se baseia em uma “viagem interna”.

“Estes personagens representam as coisas dentro da psique humana. Eu acho que toda criança tem seus problemas, assim como os adultos têm. Alguns tentam terapia, outros vão fazer filmes, existem diferentes maneiras de tentar superar seus problemas”.

Visualmente, as primeiras imagens divulgadas do filme de Burton também impressionam. Outra expectativa é pelo 3D nessa versão, o que ainda deve resultar em uma experiência ainda mais psicodélica. “Hoje temos muitas técnicas diferentes de se fazer um filme e eu queria misturá-las para fazer algo novo. O 3D mudou muito”.

Alice traz no elenco o eterno companheiro de Burton, Johnny Depp, como o chapeleiro maluco. Alice será feita pela pouco conhecida atriz Mia Wasikowska. Alice Hathaway também participa como a Rainha Vermelha.




Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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