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23
abr
10

No subterrâneo da fantasia

Não estou ansiosa para assistir “Alice no País das Maravilhas” e confesso que estou ficando desanimada diante de tantas críticas negativas que tenho lido a respeito do filme. Mas, de longe, essa matéria a seguir da revista Veja dessa semana, foi a mais cruel, e ouso dizer, talvez a mais injusta.

A repórter inclusive chega a sugerir que o diretor Tim Burton confundiu as duas rainhas – a de Copas, de “Alice no País das Maravilhas” com a Vermelha, de “Alice Através do Espelho”. Como se fosse possível um diretor do gabarito de Tim Burton confundir duas personagens de livros diferentes. De fato quem diz o bordão “Cortem-lhe a cabeça” é a Rainha de Copas, não a Rainha Vermelha, como esta acaba falando com freqüência no filme.

Tim Burton declarou em mais de uma entrevista que ele não estava preocupado em ser fiel ao livro. O foco dele seria nas personagens. Tanto é que a própria personagem principal, Alice, não é mais uma criança e sim uma adolescente.

No próprio trailer do filme eu pude perceber que Alice retorna ao País das Maravilhas. Tim Burton não quis simplesmente mudar deliberadamente a idade de Alice. O próprio Chapeleiro Maluco não é igual ao livro. Bem como diversas situações no País das Maravilhas.

A repórter critica ainda que no filme há lutas, guerras, o bem contra o mal e argumenta que no livro não existe luta entre o bem e o mal. Mais uma vez eu digo que o diretor não estava querendo fazer de “Alice no País das Maravilhas” uma produção fiel ao livro como aconteceu em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” que ele também dirigiu e foi de fato uma adaptação do livro.

Quando Lewis Carroll escreveu as aventuras de Alice o que as crianças gostavam de ler (ainda não consigo classificar Alice como um livro infanto-juvenil) não era o mesmo do que as crianças e jovens de hoje querem ler. Muito menos ver nas salas de cinema. As crianças de hoje querem sim batalhas entre seres fantásticos, se fosse o contrário como justificar o sucesso de “Harry Potter” e “Percy Jackson”? Tim Burton pode ter errado em um ou mais pontos, mas na minha opinião, ele não errou neste. Ele apenas modernizou a história. Mas só poderei ter mais opiniões após assistir ao filme.

Revistas  »  Edição 2161 / 21 de abril de 2010

Cinema

No subterrâneo da fantasia

 

“Alice no País das Maravilhas” parecia ser uma escolha lógica para o diretor Tim Burton. Mas sua versão do clássico do escritor Lewis Carroll é ao mesmo tempo feérica e tímida

Isabela Boscov

http://veja.abril.com.br/210410/subterraneo-fantasia-p-130.shtml

Fotos divulgação

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI
Mia Wasikowska, no papel da Alice crescidinha: a atriz australiana seria uma ótima escolha para a personagem – se esta houvesse sobrevivido à revisão do diretor

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, o título com que o clássico infantil de Lewis Carroll ficou conhecido desde sua primeira publicação em português, em 1865 (logo em seguida ao lançamento da edição original inglesa), tem algo de enganoso. Uma tradução mais exata – embora talvez menos convidativa – para Alice in Wonderland seria Alice na Terra dos Assombros. Pois assombros, de fato, é só o que a pequena Alice encontra a partir do momento em que cai na toca de um coelho branco (não é à toa que ele chama a sua atenção; o coelho veste uma casaca) e, no fundo dela, se descobre em um mundo cuja lógica, se é que ela existe, em nada se parece com a lógica deste mundo. Como em um delírio de febre, Alice estica ao comer um biscoito, e então encolhe ao provar uma beberagem. Depara com uma lagarta que fuma um narguilé e com um gato cujo sorriso fixo continua pairando no ar mesmo depois que ele se vai. Dá braçadas em uma lagoa feita de suas próprias lágrimas. Comemora seu desaniversário e participa de um chá da tarde com um chapeleiro que, como bem descreve seu nome, é maluco. E é convocada a testemunhar em um julgamento sobre um roubo de tortas na corte da irascível Rainha de Copas, que tem cartas de baralho no lugar de lacaios e cuja ordem mais frequente – aliás, a única que ela sabe dar – é “cortem-lhe a cabeça!”. Tudo muito curioso, mas não propriamente maravilhoso: todos esses personagens tentam provocar, hostilizar ou ridicularizar Alice – com sucesso. Ou seja, Alice não consegue ficar à vontade nem no mundo que tem de habitar, nem no mundo criado por sua imaginação (no desfecho, esclarece-se que tudo não passou de um sonho). Não surpreende, assim, que essa seja uma das histórias prediletas de Tim Burton, o diretor de Edward Mãos de Tesoura, Ed Wood e A Fantástica Fábrica de Chocolate: Burton construiu toda uma carreira sobre as dores e frustrações causadas pelos sentimentos de inadequação – os de seus personagens e também os seus. Surpreende, entretanto, que sendo Alice uma escolha tão, bem, lógica para o diretor, ele tenha demorado tanto tempo para realizar sua adaptação. Tempo demais, na verdade.

 

Tudo em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, Estados Unidos, 2010), que estreia no país na próxima sexta-feira, tem aquele travo das ideias que foram analisadas, racionalizadas e buriladas até que a última centelha de vida fosse apagada delas. A imaginação visual de Burton, sua maior assinatura e melhor recomendação, atinge aqui um pico febril. Cada cena é uma explosão de cores, mas elas frequentemente adquirem tons biliosos. O 3D, formato para o qual o filme foi convertido depois de ter sido rodado no 2D convencional, é usado de maneira agressiva, quase vulgar. Nenhum personagem é poupado de fazer sua aparição. Vários, porém, são apresentados e logo depois largados no meio do caminho. Outros são adulterados sem que se identifique uma boa razão para tal: a Rainha de Copas, por exemplo, mantém sua personalidade, mas é chamada aqui de Rainha Vermelha, uma personagem bem diferente e que só existe em Através do Espelho, a sequência de País das Maravilhas publicada em 1871. O motivo parece ser a necessidade de contrapô-la à meiga Rainha Branca, que no filme é sua irmã e rival – Vermelha (Helena Bonham Carter) usurpou o trono de Branca (Anne Hathaway), e Alice é quem vai ter de comandar as forças do bem em uma guerra para derrubar a tirana e seus asseclas maléficos. Forças do bem? Guerra? A certa altura, Alice no País das Maravilhas, ícone da literatura vitoriana e manifesto em favor do nonsense promulgado em uma era que se inebriara do racionalismo, sai de vez do seu curso e vira uma fantasia medieval com batalhas, espadas e armaduras. Vira, enfim, uma tentativa desanimada, sem alma nem convicção, de emular sucessos da fantasia como O Senhor dos Anéis e Harry Potter e de, como neles, galvanizar o público em torno de um protagonista incumbido de uma missão messiânica. 

MALUCO BELEZA
O Chapeleiro Maluco vivido por Johnny Depp é um rebelde melancólico,- inconformado mas impotente para se erguer sozinho contra a tirania da Rainha Vermelha. No livro de Lewis Carroll, ele tem lá suas diferenças com a monarquia, mas está longe de ser esse anarquista manso: quando está sentado à sua absurda mesa de chá, é também ele um déspota – e se mostra sempre rude com Alice

 

Se há dois sintomas claros de que esta Alice passou por um processo de desnaturação, porém, eles estão, primeiro, na figura triste em que o originalmente insolente Chapeleiro Maluco se transformou: quando Johnny Depp está em cena, com lentes que deixam seus olhos repletos de melancolia do tamanho de dois pires, o filme transpira o que de fato gostaria de ser – mais uma história em que Depp assume o lugar de alter ego trágico do diretor, e em que garotas perdidas em um labirinto de silogismos provavelmente não teriam muito que fazer. O segundo e mais grave sintoma está na alteração ostensiva da protagonista, de uma menina de 10 anos para uma jovem de 19, indignada com a ideia de ter de se casar com um aristocrata tolo e sem queixo. Muito da polêmica que a obra de Lewis Carroll acumulou no decorrer de sua trajetória vem da paixão (até onde se sabe platônica, mas nem por isso menos imprópria) que o escritor alimentou por sua musa, a menina Alice Liddell, que ele conheceu quando ela tinha 4 anos (veja o quadro abaixo). É compreensível e aceitável que Burton queira passar ao largo de qualquer rastro deixado por essas sugestões de pedofilia. Mas, na ânsia de se afastar delas, o diretor e a roteirista Linda Woolverton se jogam em uma outra armadilha: transformam o enredo em uma história de superação e de celebração do girl power – uma história, aliás, muito confusa. 

Alice, agora uma protofeminista, se recusa a usar espartilho, numa liberação de sua silhueta reminiscente das queimas de sutiãs dos anos 60. Mas é também uma destilação dos mais tradicionais ideais de feminilidade: é maternal, compassiva e redentora. Quando chega a essa última etapa, aliás, adeus às formas exuberantes da australiana Mia Wasikowska, que terminam bem comprimidas sob uma armadura de metal. Mia, conhecida pela série In Treatment, mostra ser uma atriz de bom senso inato, capaz de fazer sempre a escolha mais sólida em cada situação em que é lançada. É provável que fosse uma excelente Alice – se algo de Alice houvesse restado nesta versão ao mesmo tempo tão feérica e tão tímida de Tim Burton. 

CORTEM O CABEÇÃO
Interpretada por Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha é a grande vilã do filme, em oposição à etérea Rainha Branca. Nos livros originais, porém, não há vilões nem mocinhos, e as duas supostas rivais até tomam chá juntas. O bordão que a Rainha Vermelha repete ao longo do filme – “cortem-lhe a cabeça” – na verdade pertence a uma terceira monarca, a Rainha de Copas, essa sim uma desvairada autocrata

 

Um clássico insolente

Lewis Carroll/Getty Images

A PEQUENA MUSA
Alice Liddell com roupas de mendiga, em foto do próprio Lewis Carroll (à esq.): o escritor disse que nunca esqueceria o dia em que conheceu a menina

“Esse foi um dia para não esquecer”, registra o diário do reverendo inglês Charles Dodgson (1832-1898) em 25 de abril de 1856. Foi nesse dia que o professor de matemática de Oxford conheceu as três filhas do reitor Henry Liddell. Gago e tímido, Dodgson adorava crianças – sentimento cuja extensão (ou cuja gravidade) até hoje suscita debates entre biógrafos e estudiosos. Parece ter se apaixonado por Alice Liddell, que ainda não contava 4 anos naquele primeiro dia inesquecível. Nos anos seguintes, Dodgson comporia histórias fantasiosas para as irmãs Liddell. A própria Alice insistiu para que ele escrevesse os contos em que ela aparecia como protagonista. Daí surgiu Aventuras de Alice Debaixo da Terra, caderno manuscrito ilustrado pelo próprio Dodgson e presenteado a sua musa no Natal de 1864 (quando o autor já andava afastado da família Liddell, possivelmente por ter proposto um matrimônio indesejado à pré-pubescente Alice). Uma versão expandida seria publicada no ano seguinte, assinada pelo pseudônimo literário do autor, Lewis Carroll, e já com o título definitivo: Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Em 1871, Através do Espelho, novo livro protagonizado por Alice, seria o best-seller de Natal na Inglaterra. Essas duas obras estão entre as mais extravagantes já escritas para o público infantil – e Alice no País das Maravilhas, o filme, reproduz essa extravagância só na superfície iridescente, jamais no espírito.

Em um tempo em que os livros para crianças eram moralizantes, Carroll ousou apresentar uma fantasia que ridicularizava a compostura exigida às pobres crianças vitorianas. “Fale só quando falarem com você”, diz a sentenciosa Rainha Vermelha de Através do Espelho (que no filme é fundida – ou confundida – com a despótica Rainha de Copas). Alice observa que, se essa regra fosse seguida por todos igualmente, a conversa deixaria de existir. O livro exalta essa esperteza que os adultos tantas vezes tomam por insolência. Sem tal qualidade, Alice não sobreviveria ao País das Maravilhas e ao estranho mundo do outro lado do espelho. Esses são, afinal, universos de pesadelo, povoados por criaturas esquisitas que vivem aprisionadas em paradoxos lógicos e argumentos circulares. Um exemplo tão divertido quanto tenebroso é a hora do chá que nunca chega ao fim na mesa da Lebre de Março e do Chapeleiro Maluco – aliás, muito diferente do louco manso encarnado por Johnny Depp, o Chapeleiro é uma figura antipática, muito hostil a Alice. “Teria prazer em conhecer aquele coelho tagarela, mas não ambiciono a amizade do chapeleiro”, disse a poeta Christina Rossetti em uma carta para Carroll.

Embora os jogos de palavras e as alusões históricas e literárias dos dois livros de Alice só possam ser plenamente apreciados por gente grande, Carroll ainda é uma leitura fascinante para as crianças. Poucos escritores compreenderam tão profundamente a inadequação que elas sentem diante das regras implacáveis dos adultos. As raízes psicológicas dessa compreensão são talvez sombrias – mas não comprometem a beleza do livro.

Jerônimo Teixeira

 

 

22
abr
10

A revolução de Alice

Matéria publicada no jornal Tribuna da Bahia, no caderno Dia & Noite, na página 19, no dia 20 de abril de 2010.

 

A revolução de Alice

 

Inovador, atual e ao mesmo tempo um retorno ao passado. Assim é a releitura do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, que ganha contornos mais sombrios pelas mãos de Tim Burton, e estréia nos cinemas brasileiros, em versão 3D, no próximo dia 23.

A adaptação do clássico da literatura inglesa conta com Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Mia Wasikowska, no papel principal, Helena Bonham Carter, a Rainha Vermelha e Anne Hathaway como a Rainha Branca.

A nova versão da menina Alice, agora com 19 anos, relata o retorno dela ao País das Maravilhas para fugir de um casamento arranjado. Sem se lembrar que já esteve no local antes, ela reencontra o Chapeleiro Maluco, a Rainha Branca e a Rainha Vermelha.

Foi a mistura de fantasia da Disney e estilo autoral de Tim Burton que criou esta Alice moderna, e que tem uma proposta menos crítica, do que a da obra original. Questionado sobre a fronteira entre sonho e realidade, muito forte em “Alice no País das Maravilhas”, e marca preferencial de seus filmes, Burton explica. “Porque o mundo está ficando mais estranho, e não mais normal! E as pessoas continuam tentando separar a realidade da fantasia, quando essa divisão está cada vez mais embaralhada por conta da internet e da TV. Para mim, fantasia sempre foi uma forma de explorar a realidade. Por isso gostei muito de “Alice”, uma história em que imagens bizarras criadas pela mente são, no fim das contas, reais e servem para lidar com questões concretas”, conclui o diretor.

Mesmo não sendo fiel ao roteiro original, a película une os dois livros escritos por Carroll, “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” (1865) e “Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá” (1872). “Existem mais de 20 versões de “Alice” que, ao meu ver, sofrem do mesmo problema, são muito literais. Nunca me conectei com elas. Queria ser fiel ao legado e ao espírito dos personagens, e não à história em si. Segui meus instintos sem medo. Além do que, o material já é esquisito o suficiente! É algo tão subversivo que, se fosse feito hoje em dia, provavelmente seria banido!”, explica Tim Burton.

A tecnologia “a la” Disney, é um quesito a parte, os personagens criados em computação gráfica dão um show e mostram como um entretenimento tem cada vez mais prestígio em Hollywood, destaque para o Coelho Branco e o Gato Risonho que possuem um desempenho tão interessante quanto os personagens reais. Foram os efeitos especiais que possibilitaram também outras características marcantes no filme. A altura dos personagens muda a cada instante e não existe um tamanho padrão em praticamente ninguém. Mas para o diretor, o 3D não salvará o cinema. “É uma ferramenta com o potencial de adicionar uma camada extra de sensações. Existe a música, a cor, o movimento e o 3D! mas não vai salvar o cinema. Pode acreditar que nos próximos meses será lançada uma porção de filmes 3D porcarias porque tem gente achando que basta ser 3D para ser bom. É a nova onda”, desabafa.

 

“Alice no País das Maravilhas” reúne o melhor de Tim Burton e da Disney em um show de efeitos 3D. Os baianos poderão conferir a releitura do clássico de Lewis Carroll, no próximo dia 23, nos cinemas.

22
abr
10

Alice em nova versão

Matéria publicada no jornal Correio, no caderno Vida, nas páginas 22 e 23, no dia 18 de Abril de 2010.

Alice em nova versão

 

Tim Burton recriou no cinema a fantasia concebida pelo escritor Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas

 

O esperado filme do cultuado Tim Burton estréia sexta na Bahia

Doris Miranda

doris.miranda@redebahia.com.br

Quando leu “Alice no País das Maravilhas” pela primeira vez, aos 8 ou 9 anos, o diretor americano Tim Burton, 51 anos, ficou profundamente impressionado com aquele mundo amalucado, fruto da improvável imaginação do reverendo inglês Lewis Carroll (1832 – 1898), e publicado pela primeira vez em 1865.

A maturidade chegou e Burton nunca parou de ruminar o estranho conto da menina que descobre uma terra mágica no subterrâneo, onde coelhos falam, lagartas são oráculos, gatos aparecem do nada e rainhas cortam a cabeça dos súditos: “Como em qualquer conto de fadas, há o bem e o mal. O que eu mais gostei no Mundo Subterrâneo é que tudo é meio estranho, até as pessoas boas. Isso, para mim, é algo diferente”, avalia.

Hoje, respeitado pelo cinema cada vez mais autoral, apesar de derrapadas ocasionais, como em Planeta dos Macacos (2001), não é de se estranhar que Burton desse um jeito de criar sua própria versão da história. “De algum modo, Alice toca em algo subconsciente. É por isso que todas essas grandes histórias permanece”, explica.

Pois bem, a nova versão de Alice no País das Maravilhas, que estréia sexta-feira no Brasil, em versões dubladas e legendadas, ganham contornos ainda mais alucinados na visão de Tim Burton. Sobretudo pelos sensacionais efeitos em 3D, como se confere nas 126 cópias que chegam ao país, parcela do total de 400.

Bastam algumas cenas para ver a assinatura extravagante do diretor de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005). Nunca vi uma versão de Alice em que eu sentisse que toda a obra original foi traduzida na tela”, justifica. Isso, no entanto, somente não basta. Sua obra é linda de se ver, concebida com muito esmero, mas não desde redonda.

 

A jovem atriz Mia Wasikowska vive a inconformada Alice

 

O que não chega a ser problema, é importante ressaltar. Mesmo que a trama pareça um tanto esquemática e ligeiramente sem alma, o grande público mergulhou fundo nessa viagem rumo ao País das Maravilhas.

Realizado com custo total de US$ 250 milhões, “Alice no País das Maravilhas” já  faturou US$ 320 milhões em seis semanas de exibição nos EUA – e mais do que o dobro disso no mercado internacional. É a produção em 3D de maior faturamento depois, logicamente, do fenômeno “Avatar”, de James Cameron.

 

Além de fofo, o Gato Risonho é um dos grandes articuladores da guerra contra a tirânica Rainha Vermelha

 

Mudanças É claro que, em se tratando de Tim Burton, o seu “Alice no País das Maravilhas” não seria fiel ao original. E pode contar que ele mudou mesmo. Para começo de conversa, Alice Kinglowka (a novata Mia Wasikowska) não é mais aquela menininha do original. Agora ela tem 19 anos e está à beira de um casamento arranjado, pelo qual não sente o menor interesse. Eis que um dia vislumbra o coelho branco e, voilà, volta ao Mundo Subterrâneo.

Dessa vez, a viagem é diferente. Alice encontra o País das Maravilhas em guerra, tiranizado pela Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter, mulher do diretor). Após encontrar o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e o Gato Risonho (criado por computador), fica claro que Alice é a guerreira prevista pelo oráculo para recolocar a Rainha Branca (Anne Hathaway) e restaurar a paz.

Tirando os personagens de carne e osso, como Alice, o Chapeleiro Maluco, o Valete de Copas, a Rainha Vermelha e sua irmã, a Rainha Branca, todos os bichos falantes foram criados em computador, contabilizando 90% do total do elenco.

Como esses personagens foram acrescentados posteriormente no filme, os atores tiveram que contracenar com objetos ou pessoas totalmente pintadas de um verde quase fluorescente, o que causou um profundo incômodo no elenco. Como nem todo mundo pode proteger os olhos atrás de lentes cor de lavanda, como Tim Burton, houve quem reclamasse, como Johnny Depp.

“Não me incomodava falar andando sobre rodas num trilho de câmera, enquanto contracenava com uma fita crepe. Mas, o verde realmente me incomodava. No final do dia, eu me sentia confuso e desorientado”, declarou o ator em entrevista.

Tudo bem que Alice é a protagonista da história, mas o grande chamariz do filme de Tim Burton é mesmo o Chapeleiro Maluco, vivido por Johnny Depp, o fiel colaborador do diretor, com quem trabalhou em seis produções. Outro parceiro de longa data é o veterano ator britânico Christopher Lee. Dessa vez, o Drácula dos anos 70 empresta sua voz maravilhosa e soturna para dublar o vilão Jaguadarte, monstro que precisa ser destruído pela heroína.

Projeto dos estúdios Disney, a produção chegou às telonas após uma extensa campanha de marketing, que resultou numa espécie de Alicemania. Estilistas criaram roupas temáticas, joalheiros desempenharam preciosidades e novas edições da obra original foram lançadas em diversos suportes, como o audiolivro (narrado e interpretado), que esta sendo lançado no Brasil pela Audiolivro Editora por R$ 24,90.

 

Tim Burton em ação: Alice é projeto de infância

 

No mundo da fantasia

Anunciado com extensa campanha de marketing, finalmente chega aos cinemas brasileiros “Alice no País das Maravilhas”, filme em 3D de Tim Burton, baseado no clássico de Lewis Carroll. Alice já faturou US$ 320 milhões nos EUA e mais do que o dobro disso no resto do mundo.

Guia ilustrado detalha conceito do filme de Tim Burton

Tão importante quanto assistir ao filme de Tim Burton é ter o livro “Alice no País das Maravilhas – Guia Visual do Filme de Tim Burton” (Caramelo/ R$ 40,00/ 72 páginas), uma preciosidade de edição, pensada para detalhar todo o processo de criação do longa-metragem. Na verdade, trata-se de uma chance única de conhecer melhor como funciona a mente do diretor americano. Com isso, o leitor pode entender a leitura que ele fez da adolescente reprimida Alice Kinsleigh, do Chapeleiro Maluco, da Rainha Branca e da Rainha Vermelha. Mais do que recontar a história do filme, o livro nos dá pistas sobre a personalidade de Alice, que sente uma inadequação total à falta de jogo de cintura da Inglaterra vitoriana. Daí sua identificação com os seres encantados do País das Maravilhas.

 

Capa do precioso guia visual

 

Alice no País das Maravilhas em versão Manga

A editora Newpop lança a versão manga de “Alice no País das Maravilhas” (R$12/ 84 páginas), de Sakura Kinoshita. Totalmente concebida em cores, o que já não é comum para esse tipo de publicação, a HQ reproduz as aventuras da menina que encontra numa toca de coelho a porta de entra para um mundo fantástico.

 

Setor do manga explora Alice

 

 

Livro junta obras de Lewis Carroll

Antes mesmo do filme de Tim Burton estrear, o mercado editorial já tinha começado a soltar diversas publicações sobre as maravilhas do mundo criado por Lewis Carroll.

Agora, sai uma das mais preciosas Alice (s). A única edição de bolso do mercado brasileiro a trazer em tradução integral e não adaptada os dois livros de Carroll: “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e sua continuação “Através do Espelho” e o “Que Alice Encontrou por Lá”.

Com preço também de bolso (R$ 19,00), a edição cuidadosa traz ainda ilustrações originais de John Tenniel. A tradução de Maria Luiza X. de A. Borges foi premiada com o Jabuti de 2002.

 

Helena Bonham é a Rainha Vermelha

 

Ficha

Livro “Alice – As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, “Através do Espelho” e o “Que Encontrou Por Lá”

Autor Lewis Carroll

Tradução Maria Luiza X. de A. Borges

Editora Zahar

Preço R$ 19,00 (320 páginas)

Johnny Depp é o Chapeleiro

16
abr
10

Revisitando Alice

Matéria publicada no jornal A Tarde no caderno 2 do dia 28 de novembro de 2009, na capa do caderno e nas páginas 4 e 5.

Revisitando Alice

Clássico Cosac Naify uniu a genialidade da obra de Lewis Carroll à ousadia do artista multimídia Luiz Pierre Zerbini.

Cássia Candra

“De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” O primeiro questionamento de Alice, protagonista do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”, é levado a série na nova edição da obra no Brasil, que a editora Cosac Naify coloca hoje nas livrarias do País em duas versões.

Em forma de pop ups, as ilustrações teatrais criadas pelo artista multimídia Luiz Zerbini quase saltam das páginas do livro, acrescentando mais ludicidade à abundância visual da história que há quase 150 anos arrebata leitores de todas as idades.

Construídas com cartas de baralho para interpretar, em jogos de luz e sombra, o universo imagético de uma menina em sua aventura non sense, as maquetes do artista paulistano são “um deslumbramento para os olhos”, na opinião da doutora em lingüística e semiologia, Ana Maria Machado, que assina um dos textos da nova edição.

“A identificação foi total”, diz Zervini, em entrevista ao Caderno 2+. O artista que chegou a pensar em declinar do convite da editora, resolveu que melhor seria responder uma ousadia com outra ainda maior, e até cogita “fazer uma exposição só sobre Alice”, a partir de uma “interpretação livre da história e seus desdobramentos”.

Para o historiador Nicolau Sevcenko, que fez a tradução integral do original de 1865, Zerbini se saiu bem com sua “poesia visual”, delicada, onírica e “estranhamente desconcertante”. Também enredado nos instigantes jogos de Carroll (em seu caso, gramaticais e semânticos), o tradutor considera que em uma história com tamanha força visual, ilustrações e ilustradores são elementos “decisivos do livro”.

Desde o inglês John Tenniel, que ilustrou a primeira edição muitos artistas já interpretaram plasticamente a história. O mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966. a nova versão do clássico já revertido para o teatro, a dança, a música e as HQs, chega às vésperas de mais uma superprodução para o cinema, desta vez desafiando o diretor Tim Burton.

Clássico “Alice no País das Maravilhas”, é considerada uma obra provocante, rica em referências e signos.

História instiga estudiosos e criadores de várias linguagens

Cássia Candra

Citando Santo Agostinho em “O prazer do texto” (perspectiva, 2002), uma de suas obras mais conhecidas, o semiólogo francês Roland Barthes, afirma que o signo é “uma coisa que, além da espécie ingerida pelos sentidos, faz vir ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa”.

Este era o deleite de Lewis Carroll (1832 – 1898), nascido Charles Lutwidge Dodgson, que em sua obra-prima “Alice no País das Maravilhas”, dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

“É através do uso da linguagem verbal que Carroll retrata seu imaginário excepcional, evocando uma confluência entre palavras, sentidos e o imaginário do leitor”, pontua Fernanda Donato, em sua dissertação de mestrado em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense, “Alice no Universo da Percepção Visual: uma leitura semiológica de Alice in Wonderland de Lewis Carroll”. Fernanda, que atualmente é professora da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, afirma, em sua pesquisa, que o escritor inglês se serve das palavras como peças de quebra-cabeça. Para ela, Carroll, que era professor de matemática na Universidade de Oxford, fazia da literatura “um meio de entretenimento associada ao livre prazer de construção e desconstrução de ideias e imagens oriundas de seu imaginário fértil”.

Quem mais poderia criar uma situação na qual uma menina cresce tanto que não consegue ver mais os próprios pés e até planeja enviar-lhes um par de botas de presente pelo correio? “Estranhissérrimo”, diria a protagonista da imaginação deslumbrante de Carroll.

Jogos gramaticais

Absolutamente fascinado, o historiador Nicolau Sevcenko, aceitou a provocação ao traduzir a obra original de 1865, além de todos os poemas do autor, para a mais recente edição brasileira, que a editora Cosac Naify lança hoje em todo o País.

Professor da USP e da Universidade de Harvard (EUA), a ele coube resolver a equação literária de Lewis Carroll. “Encarar os jogos gramaticais, semânticos, contextuais, poéticos, filosóficos, estéticos e éticos das poesias e canções do livro foi um desafio enorme”, reconhece.

“As maravilhas do mundo de Alice acontecem por meio da linguagem”, enfatiza a professora Fernanda Donato em sua pesquisa sobre o clássico, sublinhando os recursos inesgotáveis que o autor apresenta, conscientemente. Ela questiona se Carroll – fotógrafo, matemático e pensador de lógica -, “seria capaz de estabelecer um limite para a sua escrita, não permitindo que extrapolasse para os demais campos de seu domínio?”

Carroll dialoga eloquentemente com seus leitores, articulando signos verbais, sensoriais e plásticos.

 

Outras linguagens

O artista visual Victor Venas pensa que o valor da obra de Carroll, como representação artística de uma época, se dimensiona no momento em que estabelece uma possibilidade de diálogo com outras linguagens.

“Alice no País das Maravilhas” “é um marco. Várias obras usam, direta ou indiretamente suas referências”, observa. Ele cita “A Viagem de Chihiro”, de Hayao Miyazaki, Oscar de melhor animação em 2003, e “Matrix”. Na ficção de Andy Wachowski e Larry Wachowski, há uma referência direta, quando Morpheus pergunta ao protagonista, Thomas Anderson (Keanu Reeves): “Está se sentindo como Alice, não?”

Andréa Elia, que montou e dirige o espetáculo infantil “Alice no Sertão das Maravilhas”, em cartaz até amanhã, no Teatro Módulo, diz com propriedade que “a obra de Carroll é inspiração para outras abordagens artísticas”. Para ela, “esta certamente é uma história que poder ser encenada, musicada, dançada…”.

Além do que, se trata de uma “viagem psicodélica com abertura para muitas adaptações”, comenta. Ela mesma transpôs o universo da Inglaterra Vitoriana para uma realidade mais próxima do público baiano. Assim, em sua adaptação para o teatro infantil, a Rainha de Copas virou cangaceira, e o gato e o coelho se transformaram em um bode e em um tatu. “A nossa Alice percorre este cenário, e com ela mantivemos nosso encantamento”, conta a diretora.

Para Venas, que também é arte educador, as sessões semanais do desenho animado de Walt Disney o levam a redescobrir os enigmas da mensagem contundente do clássico, que ele usa como referência em sala de aula. “Alice vive um rito de passagem, ela se transforma. É como se dissesse: ‘Questione’. É um livro que não tem idade. É pura filosofia”, conclui.

O tradutor Nicolau Sevcenko reconhece o desafio enorme que foi resolver a equação literária de Lewis Carroll

 

Curiosidades

Tradução Monteiro Lobato, autor da coleção “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, foi responsável pela tradução da edição brasileira publicada em 1960.

Cinema A obra vem sendo adaptada desde 1903, época do cinema mudo, o próximo lançamento tem a direção de Tim Burton.

Artes Dentre os muitos artistas que já interpretaram plasticamente a história de “Alice no País das Maravilhas”, o mais famoso foi o surrealista Salvador Dali, em 1966 e que não tem publicação no Brasil.

Entrevista

Luiz Zerbini, artista multimídia

Acho que meus desenhos só servem para minhas histórias

Luiz Pierre Zerbini, 50 anos, é o que se pode chamar de um sujeito dinâmico. Concedeu a entrevista por e-mail, da ponte aérea, entre o Rio de Janeiro, sua morada desde 1980, e São Paulo, cidade natal, onde monta atualmente uma nova exposição. Há inúmeras outras em sua trajetória, iniciado aos quatro anos de idade com aulas de pintura (depois estudou fotografia e aquarela). Já passou por vários salões e bienais importantes, como as de São Paulo e Havana e participou de outros projetos interessantes, como o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, junto com a atriz Regina Case, fazendo cenografia.

Artista multimídia e um grande experimentalista, Zerbini é o criador do grupo Chelpa Ferro, que associa imagem e som, redefinindo significados para antigos equipamentos eletrônicos. O convite de Cosac Naify, para ilustrar a nova edição brasileira do clássico “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, o levou a uma experiência única, por meio da qual experimentou uma interpretação plástica sem precedentes em sua carreira. É sobre isso que ele fala nesta entrevista à repórter Cássia Candra.

Você já havia pensado em ilustrar a obra?

Nunca. Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação, detalhes, cenários e personagens que seria impossível e desnecessário ilustrá-lo. Não dá pra competir com a profusão de imagens contidas numa única frase do livro. Ilustrações imaginárias são mais ágeis e sujeitas às metamorfoses que o livro passa. Elas parecem mais compatíveis com a idéia do autor, mas esse não era o desejo da Alice e temos que respeitar o desejo dela.

Sempre achei que o texto continha uma quantidade de informação que seria impossível ilustrá-lo.

Como surgiu o convite?

Eu imagino que a editora deve ter pensado “só um maluco aceitara um trabalho como esse”, logo pensaram em mim. Mesmo assim, meu primeiro impulso foi o de recusar o convite. Por outro lado, sempre senti uma atração pela Rainha de Copas e seu exército de cartas. Foi por onde eu comecei imaginando que poderia construir personagens de carta de baralho. Pensei também numa frase de Alice no começo do livro, em que ela diz como pode existir um livro sem ilustrações e imaginei que hoje em dia ela diria como pode existir um livro com ilustrações ilustrativas e isso me fez pensar no livro sem ilustrações literais. Pensei em ilustrações que contassem uma história paralela.

Qual o significado do projeto?

Acho que fiz um dos meus melhores trabalhos. Não sou um ilustrador e nunca havia ilustrado nenhum livro antes. Acho que meus desenhos só servem para ilustrar minhas próprias histórias. Talvez, por isso, tenha escolhido construir um país das maravilhas com cartas de baralho.

Imagino que a editora deve ter pensando “só um maluco aceitaria um trabalho como esse”

O que o levou a interpretação desse elemento?

Quando acabei de fazer o exército de cartas e a Rainha de Copas, vi que poderia construir tudo a partir de cartas. Precisava de alguma coisa que desse unidade visual.

Nicolau Sevcenko disse que seu trabalho está à altura da energia alucinante do livro…

Me sinto naturalmente imerso em uma energia alucinatória. Tenho muita facilidade em falar com insetos, plantas e objetos em geral, isso facilitou. A identificação foi total.

Adaptação de Tim Burton no cinema nacional só em Abril de 2010

Lucas Cunha

Os fãs brasileiros de Alice serão um dos últimos países a receber a aguardada versão dirigida por Tim Burton que chega no início de março de 2010 à maioria dos mercados, mas só aporta nos cinemas do Brasil em 23 de abril.

A razão das expectativas vem da possibilidade da junção de dois autores consagrados justamente por construírem obras supostamente para um público infanto-juvenil cheias de mensagem subliminares e estilo nonsense.

Apesar de Alice já ter sido adaptado para o cinema algumas vezes, a mais notória delas para a Disney em 1951, a versão de Tim Burton tem tudo para ser a versão mais marcante, o que já pode ser conferido pelo trailer que está na internet.

Segundo o diretor, o livro de Lewis Carroll sempre lhe fascinou, não apenas pela história, mas por trazer muita informação e músicas. Completa ainda que “nenhuma versão filmada até agora tinha um apelo para mim”, o que deve resultar em algo único.

Para criar uma história diferente, Burton diz ter pego trechos dos livros de Carroll para montar a sua versão, sem se preocupar em seguir fielmente algum livro ou ainda de partir de algum lugar que ainda não tenha sido abordados em outras versões. Burton disse em uma entrevista no Comic Som, este ano, que se baseia em uma “viagem interna”.

“Estes personagens representam as coisas dentro da psique humana. Eu acho que toda criança tem seus problemas, assim como os adultos têm. Alguns tentam terapia, outros vão fazer filmes, existem diferentes maneiras de tentar superar seus problemas”.

Visualmente, as primeiras imagens divulgadas do filme de Burton também impressionam. Outra expectativa é pelo 3D nessa versão, o que ainda deve resultar em uma experiência ainda mais psicodélica. “Hoje temos muitas técnicas diferentes de se fazer um filme e eu queria misturá-las para fazer algo novo. O 3D mudou muito”.

Alice traz no elenco o eterno companheiro de Burton, Johnny Depp, como o chapeleiro maluco. Alice será feita pela pouco conhecida atriz Mia Wasikowska. Alice Hathaway também participa como a Rainha Vermelha.

27
out
09

Alice no País das Maravilhas

alice no pais das maravilhas

“Alice no País das Maravilhas” foi escrito pelo fotógrafo, professor de matemática e escritor Lewis Carroll em 1862. Foi um sucesso estrondoso na época e quase todas as crianças inglesas do século XIX conheceram, se encantaram e se divertiram com as aventuras de Alice. A boa receptividade foi tão grande que até os adultos se apaixonaram pela obra, o que inspirou Carroll a escrever uma sequencia para as aventuras de Alice, criando o livro “Alice no País do Espelho”.

Confesso que quando li “Alice no País das Maravilhas” pela primeira vez quase acreditei que tinha tomado chá de cogumelo ou estava tendo um surto psicodélico. O livro é uma completa “viagem”, nonsense total e talvez isso contribua para que ele seja tão genial. As situações absurdas encantam, divertem e realmente nos levam para longe. “Alice no País das Maravilhas” parece um sonho, um maluco sonho. Como se você estivesse tendo um dia tedioso e alguém apertasse um botão te levando para viver aventuras incríveis e te dado a oportunidade de conhecer figuras inesquecíveis. Consciente ou inconscientemente após terminar de ler o livro acreditamos que mais do que nunca o sonho é o melhor escape.

A trama de Lewis Carroll cria um universo ficcional caótico que o leitor vai tomando conhecimento de forma bastante veloz. O livro é um convite ao estranhamento das coisas do mundo e não deixa o leitor estabelecer relações cognitivas e emocionais com o texto. O escritor brinca com a história, o texto, com a linguagem e a ressignificação das palavras, principalmente nos momentos de diálogos nos encontros de Alice com as personagens do País das Maravilhas. Talvez quem mais tenha podido aproveitar em sua total plenitude o livro tenham sido os leitores de língua inglesa. Haja vista que Carroll faz trocadilhos de palavras e expressões que tornam os diálogos divertidíssimos. Na tradução para outros línguas essa peculiaridade se perde e, o que para o leitor inglês é engraçado e divertido, para o leitor brasileiro, espanhol, russo, chinês, etc. trata-se de um diálogo sem sentido e com pouco humor.

Mas Carroll não quer apenas jogos, brincadeiras e diversão, ele também quer que a criança e o adulto reflitam sobre a própria existência. Exemplo disto é o capítulo cinco em que a lagarta pergunta para a personagem principal da história: “quem é você?”. Diante de tantas situações estranhas e diferentes por que tem passado Alice, as transformações, o tempo longe da escola, da família e das atividades regulares do seu dia-a-dia, a menina não pode responder mais que ela é aquela de antes de cair no buraco. E o mesmo acontece com todos nós. Se pararmos para refletir de tempos em tempos quem realmente somos, vamos nos surpreender como nos tornamos diferentes em cada época da vida, diante de novas situações que precisamos enfrentar.

Alice é uma menina pequena e curiosa que sonha acordada enquanto ouve sua irmã ler um “livro sem imagens”. Um dia ela estava no jardim com sua irmã quando vê um coelho um tanto estranho passar correndo ao seu lado. O que chamou a atenção dela é que o coelho falava sozinho e consultava um relógio de bolso. Fascinada e intrigada com a visão, ela decide segui-lo, até que ele entra em um buraco em uma árvore. Decidida a ver o coelho mais de perto, ela o segue e quando entra no buraco, percebe que está caindo lentamente e por um bom tempo, até chegar a um corredor cheio de portas.

Alice localiza uma chave em uma mesa que abre uma porta muito pequena e através desta porta ela vê um lindo jardim. Ela sente muita vontade de ir até ele, mas a porta é muito pequena para que ela possa passar. Concomitante a visão do jardim, Alice encontra uma garrafa contendo um líquido em que no rótulo lia-se, “beba me” e um bolo com uma etiqueta escrita “coma me”. Curiosa, Alice prova dos dois e descobre que um deles faz com que ela diminua de tamanho e o outro a faz crescer. Mas ela sente muita dificuldade para utilizar ambos, já que em determinados momentos ela fica uma gigante para passar pela porta para alcançar o jardim e em outro ela fica pequena demais para poder alcançar a chave que dá acesso ao lugar.

Enquanto Alice estava transformada em uma gigante ela se desesperou achando que nunca mais voltaria ao seu tamanho normal e chorou muito. Mas ao descobrir que poderia encolher novamente, ela encolhe em demasia e acaba caindo no que ela pensou ser um lago, formado pelas lágrimas que ela derramara em seu estado de desespero.

Ao atravessar a porta e chegar ao jardim, Alice descobre que chegou em um País encantado, ao País das Maravilhas. A partir daí as aventuras (engraçadas e até mesmo hilariantes em alguns momentos) de Alice estão apenas por começar. A medida que ela vai conhecendo os habitantes do país e os locais, ela começa a se dar conta de que a razão e o conhecimento do cotidiano dela param de fazer sentido, nada parece o “certo” e tudo parece estar de ponta a cabeça.

Alice, a medida que vai caminhando pelo País das Maravilhas passeia pela floresta, participa de jogos, de um julgamento, de um chá, conhece as casas e as personagens que fazem coisas “estranhas” e engraçadas, como o Coelho Branco, os ratos sensíveis, o Rei de Copas, a histérica Rainha Copas, o Gato Cheshire com sua peculiar característica de aparecer e desaparecer a todo momento, a Lebre, Hatter, o Chapeleiro Louco e os seus convidados da esquisita festa de chá, o Rato do Campo, a Lagarta que lhe dá conselhos preciosos, o Pombo, a Duquesa, o Cozinheiro, o Grifo, a Tartaruga Falsa, o Valete de Copas.

Durante o julgamento do Valete de Copas, Alice não se deixa intimidar pelas histerias da Rainha de Copas, e defende o Valete contra as falsas acusações. Motivados pela atitude de Alice, todas as outras cartas se levantam e a batalha das carta começa. Neste momento, Alice acorda e acredita que tudo não tenha passado de um sonho.

O fato é que o mundo seria muito interessante se fosse como o País das Maravilhas, onde as vezes as coisas não precisam fazer sentido, onde você possa falar sozinho sem que ninguém lhe olhe como se fosse um louco, onde você possa fazer tudo que lhe dê na telha sem que a pessoa mais próxima queira internar você em um sanatório. O fato é que o mundo seria muito mais alegre se muitas vezes sonhássemos como Alice ou tivéssemos como modelo o Maluco Beleza do Raul Seixas.

Alice ganhou versões para o cinema, teatro, também virou desenho animado e jogos de computador.




Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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