Archive for the 'Marina Colasanti' Category

07
nov
09

Ser mais leitora que escritora – Parte 1

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Pedro Benjamim Garcia e Tania Dauster organizaram o livro “Teia de autores” (lançado  em 2000 pela Autêntica Editora) após reunirem uma série de entrevistas com grandes autores nacionais de livros de temática infanto-juvenil, entre 1996 e 1997.

A entrevista que será postada hoje foi feita com a escritora Marina Colasanti. Personalidade de destaque entre as escritoras brasileiras da atualidade, Marina Colasanti nasceu na Eritréia, África. Aos dois anos de idade mudou-se para a Itália e aos 11 veio com a família para o Brasil, radicando-se no Rio de Janeiro. Estudou na Escola Nacional de Belas Artes (RJ), especializando-se em gravuras de metal, mas acabou se profissionalizando em jornalismo ingressando na imprensa em 1962, como redatora, ilustradora, colunista, etc.

Atraída pela literatura, fez várias traduções (Moravia, Kozinsky, Papini, etc). Sua carreira de escritora teve início em 1978, com a obra memorialista “Eu, sozinha”. Seguem-se as crônicas (misto de ficção) de “Nada na manga” (1947) e os mini-contos de “Zooilógico”(1975). Em 1978, publicou “A morada do ser” e, em seguida, os ensaios de “A nova mulher” (1980) e os de “Mulher, daqui pra frente” (1991) – livros que mantém um diálogo com os problemas vividos pela mulher.

Publicou para crianças e jovens, entre outros, “Uma idéia toda azul” (contos de fadas, 1979); “Doze reis e a moça no labirinto do vento” (contos de fadas, 1982); “A menina do arco-íris” (1984); “O lobo e o carneiro no sonho da menina” (1985); “O menino que achou uma estrela” (1988); “Ofélia e a ovelha” (1989); “A mão na massa” (1990); “Ana Z, aonde vai você” (1993); “Um amor sem palavras” (1995); “O homem que não parava de crescer’ (1995).

 

“Leitura é uma coisa e alfabetização é outra. No Brasil confundem-se as duas. Acham que resolvendo o problema da alfabetização estão solucionando o da leitura”.

 

  • Como você descreveria sua relação com a leitura?

 

Primeiramente é preciso situar-me em um universo de leitura. Era um universo europeu, uma família de leitores. Não tenho memória anterior à leitura.

Fui alfabetizada muito cedo, pois acompanhei meu irmão mais velho, Arduíno Colasanti, durante sua alfabetização com uma professora particular. Na casa dela, havia uma mesa redonda antiga, toda marcada de tinta, pois seus irmão era desenhista, aliás, hoje sei que era um péssimo desenhista. Nas paredes, estavam pintados bichinhos, um verdadeiro e estranho universo de magia e encantamento. As crianças aprendiam a escrever primeiro desenhando círculos, depois, quadrados. Usávamos papel quadriculado. Percebi, de estalo, que estávamos aprendendo a desenhar. O processo era interessantíssimo. As letras eram desenhos e isso ela procurava mostrar com exercícios. Os bichos que nos eram apresentados tinham um desenho nas iniciais de seus nomes (semelhante ao processo de Comenius). Uma maravilha.

Eu não queria sair dali. Toda vez que tinha de ir embora, chorava copiosamente. E por insistir tanto em ficar a professora, com pena, concordou. Havia umas almofadas onde eu me sentava. Assim, acabei sendo alfabetizada ao mesmo tempo que meu irmão. Isso era ainda na Itália. Era como se fosse hoje…

A escola entrou na minha vida como um prazer, um fascínio. Achava ótimas as brincadeiras que as crianças faziam.

Depois, devido à guerra, sucessivas mudanças nos desarticularam das escolas – nem sempre estávamos em cidades grandes – e fiz o primário com professores particulares. Era uma tentativa de suprir a deficiência da falta da escola. Mesmo estudando com meninos de diversos níveis, cada um trabalhava no seu, em suas dificuldades particulares.

 

  • Em sua casa, contavam-se histórias?

 

Engraçado, não me lembro de me contarem histórias. Mas deviam fazê-lo. Certamente, minha mãe me contava contos de fadas. Mas como fui alfabetizada muito cedo, logo comecei a ler por conta própria.

Acredito que meus 6, 7 anos foram a idade de maior fascínio para a leitura. Quando morávamos em Roma, ganhamos uma coleção chamada “Scala d’Oro”, que em português seria “Escada de Ouro”. Eram adaptações de clássicos para crianças de 12 anos em diante. Tinha “D. Quixote”, “A Ilíada”, “A Odisséia”, “Orlando Furioso”, mitologia grega. Uma paixão! Nunca mais reli “D. Quixote”, pois fico com medo de não gostar. Essa coleção marcou muito a mim e a meu irmão.

Um autor que eu adorava era Emilio Salgari, que escreveu loucamente, pois estava atado a contratos leoninos com as editoras da época. Sem nunca ter saído de sua cidade, ele produziu séries de aventuras com temas de piratas, índios americanos, caçadores de peles, o Oriente, a Indochina, lutas contra os ingleses. Essas histórias, para nós, eram tão fortes que tínhamos uma tribo de índios, onde meu irmão era o chefe e eu, Sole Ridente (sol ridente). Brincávamos muito. Quando estive nos Estados Unidos, visitei os lugares sobre os quais líamos quando crianças. Para nós, o Oriente era para brincadeiras.

Vim para o Brasil com 11 anos. Superamos a mudança de língua com facilidade. Aprendemos de duas formas. Um primo de meu pai estava aguardando ser operado nos Estados Unidos. Então, ficávamos, eu e meu primo, deitados com ele na cama para lhe fazer companhia. Enquanto isso, ele lia histórias em quadrinhos em italiano e as traduzia para nós; isso facilitou muito nosso contato com a língua. Depois fomos para a escola, já com certo conhecimento do português.

Lemos poucas histórias em quadrinhos. Muito mais contos de fada porque minha mãe gostava. Ah! “Pinocchio”, claro, sou uma menina italiana. Mas não li “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.

Morávamos no parque Lage com minha tia, Gabriela Besanzoni Lage. Em sua casa todos falavam italiano, inclusive os empregados. Nessa época, as histórias de minha tia não me marcaram, só foram realmente me fascinar quando adulta. Em seguida, fomos para a escola.

 

  • Que influências você sofreu na escola e depois?

Estudei na seção brasileira do Liceu Francês (hoje, Franco-brasileiro). Depois, fui para o Santa Marcelina, retornei ao Franco-brasileiro e completei o Clássico no Mello e Souza, em Copacabana. Para mim foi uma decepção. Eu tinha uma prima que acabara de cursar o Clássico na Itália, onde era valorizado o ensino do grego, do latim, da literatura. Aqui nada disso era transmitido. Estudei Álvares de Azevedo, mas senti que não gostava: “O Cortiço” é um livro muito bonito, mas não era uma emoção. Não li Machado de Assis na escola, só depois. Para se ter uma idéia, jamais fui apresentada a “Os Lusíadas. Nunca frequentei nem aprendi a estudar em bibliotecas. Acho que no meu tempo as crianças não faziam, como hoje, pesquisas do tipo: “quantos metros tem o pescoço da girafa?”

Porém, uma vez, uma professora disse que o MEC estava dando, de graça, umas edições de poesia. Eram uns livrinhos brancos, com uma ânfora na casa. Lá fui eu encontrar-me com Manoel Bandeira. Uma paixão arrebatadora. Mais tarde, vi jogado no chão de minha casa um livro sujo, de capa muito feia, vermelha com letras pretas: era Drummond. Na poesia brasileira, o que mais me marcou foram os dois.

No Brasil todo mundo gosta de Monteiro Lobato porque ele representa uma abertura, como aquela coleção foi feita para mim. Mas quando o li, já era adulta, profissional, e não gostei. Aliás não gosto desse transporte, da adaptação de histórias com personagens de outras. Talvez por eu ter lido mitologia, contos de fadas verdadeiros… Também não gosto de histórias que tem bichos que falam.

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07
nov
09

Ser mais leitora que escritora – Parte 2

  • Mas o que você diz das fábulas italianas?

 

O que foi traduzido com fábulas italianas de Ítalo Calvino foi uma deturpação, aliás, um verdadeiro golpe editorial. Favola quer dizer conto de fada e não fábula, como saiu. Ele foi, na Itália, o que os irmãos Grimm foram na Alemanha. Aqui, há um preconceito enorme em relação aos contos de fada. Ninguém iria comprar. É muito difícil ser adultos ler este gênero, que pertence à literatura fantástica e extrapola as idade. Ninguém diria que “As mil e uma noites” é um conto de fadas. É muito difícil que um conto de fadas moderno seja lido como literatura.

Quando escrevi “Idéia toda azul”, já tinha lançado outros livros na praça. Minhas ilustrações não eram infantis. Ganhei muitos prêmios na categoria infanto-juvenil. Acho ótimo. Não é que o conto de fadas não deva ser trabalhado com o público infantil. Nas escolas, esse livro é usado dos 9 anos em diante, um texto mais denso. Não sou contra.

 

  • Você gosta de partilhar livros?

 

Não tenho com quem trocar ou partilhar. Se não tivesse Affonso (o marido e escritor Affonso Romano de Sant’Ana) como companheiro de leitura, estaria muito mal arranjada. Quando eu era jovem, tinha três companheiros de leituras: minha mãe – que morreu quando tinha 16 anos – meu pai e meu irmão. Meu pai comprava livros para mim, inclusive franceses. Era ela quem me abastecia de livros e me apresentou aos autores russos, quando menina, e aos americanos modernos, como John Dos Passos.

Devia ter uns quinze anos quando voltei à Itália para morar com minha mãe. A primeira coisa que ela fez foi levar-me a uma livraria para comprar a “História da Arte”, a “História da Literatura Italiana” e Leopardi. Numa viagem reencontrei uma amiga de infância. Nós duas tínhamos dezoito anos. Fomos a uma livraria e dei para ela Jorge Amado, o único autor brasileiro ali vendido. Ela me deu lírica chinesa, Pavese, porque eu queria saber o que ela estava lendo. Era a maneira de nos reconhecermos. Você vê que é um universo diferente. Com meu irmão, partilhei muita leitura. Bandeira, Drummond e Clarice Lispector, que publicava na revista Senhor. Arduíno e eu juntávamos dinheiro da mesada e rachávamos o preço da revista, que era muito cara, só para ler Clarice. Depois, meus namorados foram os meus companheiros de leitura. E agora, a vida inteira, Affonso. Minhas filhas são leitoras.

 

  • Um outro assunto: qual o significado da África em sua vida?

Não nasci na África impunemente. Sinto que sou fascinada por essa terra, ela faz parte de minha biografia e volta e meia aparece em meus contos. Tenho uma atração pelo deserto… Morei lá quase quatro anos, quando muito pequena. Meu pai contava que ia caçar gazela com minha mãe. Tínhamos um leão criado em jaula como se fosse nosso cachorro. Sabe essas histórias que você ouve? Eram histórias africanas: o macaco que chegou até meu braço…. Tenho uma África em minha vida.

Mas a oralidade não me marcou, porque eu era uma menina italiana, com uns três anos, vivendo em colônia. Nasci em 1937. Em 40 a guerra começou e nós voltamos para a Itália. No Brasil, a oralidade só assumiu um significado quando eu já era adulta. Acho esplendoroso os cantadores do Nordeste, do Norte. Mas não tenho nada a ver com o interior, com a onça. Não que eu ache feio, ruim, não. Mas quando vou buscar o petróleo que está em minha jazida, pode ter leopardo, pode até ter onça, mas não jabuti. O bicho mítico é o leopardo, o grande felino, e não uma onça.

Não tenho nada a ver com a “cultura da broa de milho”… Sei que Affonso é mineiríssimo. Convivo com prazer com essas coisas… Gosto muito de ir e de estar lá, mas não tem nada a ver comigo. Houve um período, no Brasil, em que se questionou o que era identidade, o que era ser brasileiro. Não me senti nessa conversa, porque não sou brasileira. Mas também não sou italiana. Não sei como é ser brasileira nem italiana. Sou uma pessoa misturada. Para mim a questão da identidade nunca se coloca em termos de país.

  • E sua experiência no jornalismo e na literatura?

Serei sempre mais leitora que escritora. Imagino que todo escritor lê mais do que escreve. Mesmo quando não estou lendo livros, todos os dias gasto uma hora e meia, pelo menos, para ler os jornais. Isso também é leitura.

Quantas pessoas são leitoras de jornal? É uma leitura difícil. Se você pára de ler durante dois meses fica perdido, sem saber quem é quem, como é que funcionam as coisas. Na verdade, ler um jornal que lhe é entregue aos pedaços é um grande folhetim, porque todo dia é a continuação do dia anterior. É um romance inesgotável. As notícias são todas encadeadas.

Comecei a escrever como jornalista no Jornal do Brasil. Mas meu primeiro livro, “Eu sozinha”, apresentava uma complexidade bastante trabalhada do tempo literário. Aparentemente, são crônicas. Não me lembro ao certo se as páginas da direita, as ímpares, seguem uma ordem cronológica, nas da esquerda, momentos da cotidianidade, ao longo de todo o livro. Há uma alternância em que traço uma biografia da solidão.

Mas no JB comecei como repórter e logo me colocaram na redação. Muito cedo eu estava escrevendo como cronista – era um espaço para mim. Nessa posição, você tem uma avaliação constante, sendo utilizada na produção de textos. Isso é reassegurador. Assim escrevi o primeiro livro, “Eu sozinha”, ainda dentro do jornal.

Depois fiz “Nada na manga”, que ficou guardado uns quatro, cinco anos na gaveta. Havia um preconceito muito grande em relação a contos de fada. As pessoas achavam que o gênero fazia mal às crianças…

Entre outros livros, escrevi “A mão na massa”, e agora (1996) estou publicando um que recebeu o prêmio latino-americano de leitura e será lançado nos países de língua hispânica. Aqui terá o selo da Ática.

  • Dá para viver de literatura?

Eu sou profissional só da escrita. Vivo do escrever já há uns cinco anos. Não só escrevo livros mas também faço conferências, sou jurada em concurso literário… Agora mesmo ganhei um prêmio literário e foi uma quantia considerável. Com minhas ilustrações, é mais um dinheiro que entra. Enfim…

Mas viver do ofício de literatura é uma coisa para autores pra lá de maduros, à beira da velhice. A gente acumula livros – tenho mais de vinte – faz o nome na praça, começam a chamar para uma coisa e outra, isso tudo vai acumulando, e é com esse dinheiro que você vive.

 

  • Na sua visão há uma crise de leitura?

 

Eu não gostaria de afirmar isso, pois convivo tanto com pessoas da área da escrita e da leitura como com o pessoal da Biblioteca Nacional, do ProLer, a Eliana Yunes… Para se dizer que há uma crise é preciso pôr os números no papel e eu não tenho esses dados. Recentemente um editor me disse que estava achando tudo muito, muito ruim. Ele considerava que havia uma crise, sim. Mas não vou dizer se estou vendendo menos ou mais. De repente, você pode estar vendendo mais porque escreveu um livro melhor; ou menos, porque fez um pior, ou porque seu editor não anunciou na praça que você saiu com um novo livro. Não tem como avaliar através do nosso fazer.

07
nov
09

Ser mais leitora que escritora – Parte 3

  • Para você há uma política nacional de leitura?

Quando você fala de mercado de livros, está falando não só de literatura, mas de didáticos, paradidáticos, livros de má qualidade, tem de tudo. Para quem trabalha com leitura, com livro, está atualmente bastante claro que a leitura é o fator civilizado por excelência e que o Brasil não se tem ocupado disso. Pessoalmente, considerado que há uma dupla mensagem a esse respeito. Por um lado, as autoridades dizem que querem muito estimular a leitura, que há muito interessante. Mas quando se vai levantar dinheiro para realizar os grandes projetos de leitura de que o país precisa, ouve-se que não há recursos. A leitura é um assunto interministerial. Você terá uma melhor enfermeira na medida em que ela for leitora, porque ela vai poder decodificar desde a bula do remédio, até a ordem do médico; vai também participar melhor de cursos… Mas se você for lá e disser que quer dinheiro para a leitura, ouvirá que não há leitos nos hospitais. Ou seja, a leitura nunca é uma prioridade. Isso significa que não se acredita que ela seja uma alavanca para vencer nosso problemas de base. Acredita-se, então, que depois que houver leitos nos hospitais, depois que se tiver resolvido o problema do supercrescimento da população, da Aids, então, surge o dinheiro para a leitura. Aí não precisa mais, pois já se resolveu tudo. O país está ótimo, a questão são as políticas públicas… Os países desenvolvidos foram leitores antes, e não depois de se desenvolverem. É simples, não há como se furtar às evidências.

 

  • Em geral, o que você lê?

 

Sou muito desordenada com minhas leituras. Normalmente tenho nas mãos um ensaio ou dois. Gosto dos de comportamento. Leio sempre um ensaio e uma ficção. Leio romances, os livros escritos pelos amigos, mas o que me balança o coração é a leitura breve, o conto. Sempre gostei de contos, poesia e literatura fantástica. Gosto tanto que tenho vários livro que não li. No momento, não estou escrevendo, por isso não leio nada dessas coisas “fermentantes”, para não desperdiçar. Leio Carlos Heitor Cony, biografias, história e outras coisas.

O que mais me atrai na literatura é o segredo da concisão, a rapidez e o mundo das idéias. Porque o conto vive de ter idéias. No momento, participo do júri do prêmio Cruz e Souza, na categoria conto. Estou muito triste, pois a maioria que se inscreveu até gastou dinheiro para tirar cópias, mas não sabe o que é conto.

Visivelmente, três ou quatro que se inscreveram nesse concurso não são leitores. Mandam novela, coisas que sequer pertencem ao gênero. Não sabem o que é o gênero. Muitos são contadores de “causos”. Acham que tudo que uma pessoa conta é conto. É uma população de não-leitores. Às vezes, fico me perguntando se esses – que não ganharão jamais prêmio algum – não teriam sido escritores se tivessem sido leitores. Dói o coração. E se tivéssemos trabalhado eles antes?

Nisso, a escola tem um papel importantíssimo. Resta saber como ela desempenha essa função. Só um professor-leitor apaixonado pode transmitir a paixão pela leitura. Não há a possibilidade de fazer de outra maneira. Em vários seminários em que estive – como o da escola Dante Allighieri, em São Paulo – ouvi dos próprios professores que eles não são leitores. Todas as experiências bem sucedidas de leitura com crianças, de que tomei conhecimento nesses seminários, foram com professores apaixonados. Quando digo que não lêem, falo até do jornal.

Além disso, eles não têm livros circulando nas mãos. A primeira coisa que alegam é não ter dinheiro para comprar livros. Mas não fazem clubes de leitura, entre três, quatros professores, não vão a bibliotecas. E também não têm tempo para ler. Mas toda vez que ouço dizerem que não têm tempo, eu me lembro do meu médico, Pedro Henrique Paiva, que trabalha como escravo, um mouro, mas é um dos maiores leitores que eu conheço. Você diz que um livro saiu e ele sabe, está lendo, leu, comprou, vai ler ou encomendar. Você vai à livraria e esbarra com ele. Então, não é questão de não ter tempo. Você faz o tempo. No Brasil, você viaja de avião e, se houver alguém lendo, deve ser um gringo, que está lendo um pocket-book. As pessoas viajam olhando para a frente. Três horas olhando para a frente. Quando a gente entra num táxi e o motorista está lendo enquanto espera no ponto, dá vontade de beijá-lo! O ascensorista que lê apertando os botões… “Ah! Meu querido!” Que lindo esses elevador!

  • Alfabetização, para você, é sinônimo de leitura?

Leitura é uma coisa e alfabetização é outra. No Brasil confundem-se as duas. Acham que resolvendo o problema da alfabetização estão solucionando o da leitura. Mas não estão formando leitores e sim pessoas mal e mal alfabetizadas, que às vezes não têm capacidade de ler, mas não realizam a leitura como prática cultural. Ela não está em seu cotidiano. Entra-se nas casas da classe média brasileira e não há livros. A estante é o móvel principal da sala de qualquer brasileiro, do favelado ao príncipe. Mas muito poucas têm livros. Servem para a televisão, um versinho de louça com uma rosa de plástico, ou um bibelô mais caro, dependendo do nível econômico. E os livros? Não são um valor.

  • Você faz intercâmbio com seus leitores?

É triste, mas não tenho com eles um intercâmbio constante. Meus companheiros de profissão não me mandam livros e eu também parei de mandar. Acompanho apenas as coisas mais importantes.

  • E as visitas às escolas?

Faço muito poucas. Tenho prazer em falar a professores mas, para crianças, a essa altura da minha vida, acho que é tempo perdido. Fui agora a São Paulo, sem ganhar um tostão, para falar para professores na escola Dante Allighieri. Achei uma maravilha juntar trinta professores para uma conversa. É útil. Fora isso…

  • Fale um pouco sobre o mercado do livro infantil…

Trocando idéias com Ziraldo, amigo da vida inteira, percebo que o mercado de literatura infantil, como o de adultos, é invadido pela má qualidade, só que de maneira mais séria. Tirando-se dez, quinze pessoas, o resto é um terror, um nada. O mercado abrange uma massa de livros que são meros objetos; e para seus autores, a vida é muito boa. É como um tapete vermelho: comprar governamentais, adoção nas escolas, nível de julgamento baixíssimo (porque os professores não são preparados para fazer avaliação). A venda é feita pelo representante das editoras. É muito fácil a vida dessa massa de má qualidade, que não chega sequer a ser literatura do tipo “passarinho-que-quebrou-a-pata-e-é-solto-da-gaiola-pela-menininha-e-uma-lágrima-rola”, aquelas coisas… A literatura vem depois: para ela a vida é muito dura e não há espaço na mídia. Ela sofre uma redução brutal nos catálogos: quando você vê as cinco linhas a que fica reduzido o livro, quer matar o autor do catálogo. E ele ainda põe uma faixinha dizendo: “solucionando o problema da primeira morte; como lidar com as diferenças”. Sabe a redução da redução da redução? Assim são os catálogos, com nível de diferenciação baixo para que os professores não saibam como escolher o melhor. O livro no Brasil é igual a espaguete, entra na gráfica duro, rígido, bonitinho para as primeiras edições e depois fica como a edição de “A mão na massa”, já cortada, sem as datas de minha vida.

Ainda bem que, faz alguns anos, está havendo possibilidade de apreciação da literatura infantil em universidades, como pós-graduação, doutoramento, etc. nessa área. Outra coisa: os prêmios da Fundação Biblioteca Nacional são importantes, porque já são reconhecidos inclusive pelos professores. No resto do mundo, os livros premiados passam a ter um selo dourado e nas livrarias há estantes onde está escrito: “Livros infantis premiados”. Se você quer dar um livro de presente é só ir lá. Aqui, consideram o selo muito caro. Então, na página de dentro, talvez esteja escrito, em letras pequenas, o prêmio ganho pelo livro. Quer dizer, jogam o prêmio pela janela. Não se emprega o raciocínio: o selo custa R$0,05, porém aumenta as vendas em muitas vezes.

  • Você também ilustra livros de outros autores?

Não faço ilustrações para mais ninguém. Isso me toma muito tempo. Tenho vários projetos de escrita. Faço minhas ilustrações porque sei que terei sempre uma visão gráfica privilegiada de meus livros. E tenho a impressão de que os desenhistas de minha preferência não estão disponíveis. Gostaria que fossem especiais para mim. Eu queria Grassman, Ensikat – que ganhou o prêmio Andersen de ilustração – e outros superferas internacionais, que levam cinco anos para entregar as ilustrações. De qualquer maneira, não sendo coisas muitíssimo especiais, eu mesma as faço. Eu acho que tenho adequação absoluta para isso.

  • E isso vem de sua ligação com as artes plásticas?

Sou extremamente ligada, e cada dia mais, em artes plásticas dada a minha origem. Meu avô, que não cheguei a conhecer, era crítico de arte com vários livros publicados. Um tio, irmão de meu pai, era cenógrafo e figurinista. Comecei a estudar artes plásticas (pintura) aos quinze anos. Depois diz Belas-Artes. Aprendia gravura em metal, quando resolvi ganhar a vida no jornal. Aí, não foi possível continuar. Voltei a pintar quando fiz as ilustrações de “Idéia toda azul”. Não sei vender, só pintar. Enquanto tive um marchand pintei, fiz exposições, vendia os quadros e era tudo o que queria da vida. Era o meu prazer. O mercado ficou inviável, o marchand mudou-se para a Bahia para fazer uma pousada, as galerias fecharam. Não sou uma pintora de vanguarda e nem de instalação. Sou aquilo que se chama, com certo desprezo, pintora de cavalete. Trabalho até com tinta a óleo, imagina! Todo mundo usa acrílico porque é mais fácil de lavar o pincel. Não havendo quem se ocupe com a venda, não posso pintar nem ter trabalho empilhados em casa. Parece conversa mercantilista. Van Gogh não vendia e pintou a vida inteira, mas era um gênio. E ele não escrevia. Eu escrevo. Então ou jogo tudo em uma área ou partilho em duas. Desta forma, minha vivência é muito intensa. Como posso viajar com certa frequência, minha felicidade são os museus, mas falar sobre isso, aqui, parece pedantismo.




Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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