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Ser mais leitora que escritora – Parte 2

  • Mas o que você diz das fábulas italianas?

 

O que foi traduzido com fábulas italianas de Ítalo Calvino foi uma deturpação, aliás, um verdadeiro golpe editorial. Favola quer dizer conto de fada e não fábula, como saiu. Ele foi, na Itália, o que os irmãos Grimm foram na Alemanha. Aqui, há um preconceito enorme em relação aos contos de fada. Ninguém iria comprar. É muito difícil ser adultos ler este gênero, que pertence à literatura fantástica e extrapola as idade. Ninguém diria que “As mil e uma noites” é um conto de fadas. É muito difícil que um conto de fadas moderno seja lido como literatura.

Quando escrevi “Idéia toda azul”, já tinha lançado outros livros na praça. Minhas ilustrações não eram infantis. Ganhei muitos prêmios na categoria infanto-juvenil. Acho ótimo. Não é que o conto de fadas não deva ser trabalhado com o público infantil. Nas escolas, esse livro é usado dos 9 anos em diante, um texto mais denso. Não sou contra.

 

  • Você gosta de partilhar livros?

 

Não tenho com quem trocar ou partilhar. Se não tivesse Affonso (o marido e escritor Affonso Romano de Sant’Ana) como companheiro de leitura, estaria muito mal arranjada. Quando eu era jovem, tinha três companheiros de leituras: minha mãe – que morreu quando tinha 16 anos – meu pai e meu irmão. Meu pai comprava livros para mim, inclusive franceses. Era ela quem me abastecia de livros e me apresentou aos autores russos, quando menina, e aos americanos modernos, como John Dos Passos.

Devia ter uns quinze anos quando voltei à Itália para morar com minha mãe. A primeira coisa que ela fez foi levar-me a uma livraria para comprar a “História da Arte”, a “História da Literatura Italiana” e Leopardi. Numa viagem reencontrei uma amiga de infância. Nós duas tínhamos dezoito anos. Fomos a uma livraria e dei para ela Jorge Amado, o único autor brasileiro ali vendido. Ela me deu lírica chinesa, Pavese, porque eu queria saber o que ela estava lendo. Era a maneira de nos reconhecermos. Você vê que é um universo diferente. Com meu irmão, partilhei muita leitura. Bandeira, Drummond e Clarice Lispector, que publicava na revista Senhor. Arduíno e eu juntávamos dinheiro da mesada e rachávamos o preço da revista, que era muito cara, só para ler Clarice. Depois, meus namorados foram os meus companheiros de leitura. E agora, a vida inteira, Affonso. Minhas filhas são leitoras.

 

  • Um outro assunto: qual o significado da África em sua vida?

Não nasci na África impunemente. Sinto que sou fascinada por essa terra, ela faz parte de minha biografia e volta e meia aparece em meus contos. Tenho uma atração pelo deserto… Morei lá quase quatro anos, quando muito pequena. Meu pai contava que ia caçar gazela com minha mãe. Tínhamos um leão criado em jaula como se fosse nosso cachorro. Sabe essas histórias que você ouve? Eram histórias africanas: o macaco que chegou até meu braço…. Tenho uma África em minha vida.

Mas a oralidade não me marcou, porque eu era uma menina italiana, com uns três anos, vivendo em colônia. Nasci em 1937. Em 40 a guerra começou e nós voltamos para a Itália. No Brasil, a oralidade só assumiu um significado quando eu já era adulta. Acho esplendoroso os cantadores do Nordeste, do Norte. Mas não tenho nada a ver com o interior, com a onça. Não que eu ache feio, ruim, não. Mas quando vou buscar o petróleo que está em minha jazida, pode ter leopardo, pode até ter onça, mas não jabuti. O bicho mítico é o leopardo, o grande felino, e não uma onça.

Não tenho nada a ver com a “cultura da broa de milho”… Sei que Affonso é mineiríssimo. Convivo com prazer com essas coisas… Gosto muito de ir e de estar lá, mas não tem nada a ver comigo. Houve um período, no Brasil, em que se questionou o que era identidade, o que era ser brasileiro. Não me senti nessa conversa, porque não sou brasileira. Mas também não sou italiana. Não sei como é ser brasileira nem italiana. Sou uma pessoa misturada. Para mim a questão da identidade nunca se coloca em termos de país.

  • E sua experiência no jornalismo e na literatura?

Serei sempre mais leitora que escritora. Imagino que todo escritor lê mais do que escreve. Mesmo quando não estou lendo livros, todos os dias gasto uma hora e meia, pelo menos, para ler os jornais. Isso também é leitura.

Quantas pessoas são leitoras de jornal? É uma leitura difícil. Se você pára de ler durante dois meses fica perdido, sem saber quem é quem, como é que funcionam as coisas. Na verdade, ler um jornal que lhe é entregue aos pedaços é um grande folhetim, porque todo dia é a continuação do dia anterior. É um romance inesgotável. As notícias são todas encadeadas.

Comecei a escrever como jornalista no Jornal do Brasil. Mas meu primeiro livro, “Eu sozinha”, apresentava uma complexidade bastante trabalhada do tempo literário. Aparentemente, são crônicas. Não me lembro ao certo se as páginas da direita, as ímpares, seguem uma ordem cronológica, nas da esquerda, momentos da cotidianidade, ao longo de todo o livro. Há uma alternância em que traço uma biografia da solidão.

Mas no JB comecei como repórter e logo me colocaram na redação. Muito cedo eu estava escrevendo como cronista – era um espaço para mim. Nessa posição, você tem uma avaliação constante, sendo utilizada na produção de textos. Isso é reassegurador. Assim escrevi o primeiro livro, “Eu sozinha”, ainda dentro do jornal.

Depois fiz “Nada na manga”, que ficou guardado uns quatro, cinco anos na gaveta. Havia um preconceito muito grande em relação a contos de fada. As pessoas achavam que o gênero fazia mal às crianças…

Entre outros livros, escrevi “A mão na massa”, e agora (1996) estou publicando um que recebeu o prêmio latino-americano de leitura e será lançado nos países de língua hispânica. Aqui terá o selo da Ática.

  • Dá para viver de literatura?

Eu sou profissional só da escrita. Vivo do escrever já há uns cinco anos. Não só escrevo livros mas também faço conferências, sou jurada em concurso literário… Agora mesmo ganhei um prêmio literário e foi uma quantia considerável. Com minhas ilustrações, é mais um dinheiro que entra. Enfim…

Mas viver do ofício de literatura é uma coisa para autores pra lá de maduros, à beira da velhice. A gente acumula livros – tenho mais de vinte – faz o nome na praça, começam a chamar para uma coisa e outra, isso tudo vai acumulando, e é com esse dinheiro que você vive.

 

  • Na sua visão há uma crise de leitura?

 

Eu não gostaria de afirmar isso, pois convivo tanto com pessoas da área da escrita e da leitura como com o pessoal da Biblioteca Nacional, do ProLer, a Eliana Yunes… Para se dizer que há uma crise é preciso pôr os números no papel e eu não tenho esses dados. Recentemente um editor me disse que estava achando tudo muito, muito ruim. Ele considerava que havia uma crise, sim. Mas não vou dizer se estou vendendo menos ou mais. De repente, você pode estar vendendo mais porque escreveu um livro melhor; ou menos, porque fez um pior, ou porque seu editor não anunciou na praça que você saiu com um novo livro. Não tem como avaliar através do nosso fazer.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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