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Michael Crichton e o manuscrito descoberto em seus arquivos

Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo no Caderno no, na página D5, no dia 03 de dezembro de 2009.

Michael Crichton e o manuscrito descoberto em seus arquivos

No livro póstumo “Pirate Latitudes”, escritor tempera a ação com heróis vis e fanrarronadas em alto mar.

Janet Maslin

The New York Times

A contracapa de “Pirate Latitudes” afirma ambiguamente que este livro foi “descoberto como um manuscrito completo em seus arquivos” depois que seu autor, Michael Crichton, morreu no ano passado. Crichton ficou bastante conhecido por fazer um uso dramático de sua formação médica (como o criador da série de televisão “Plantão Médico”) e de seu profundo interesse pela ciência. Ele usou com sucesso o pré-histórico (“Parque dos Dinossauros”), o contemporâneo (“Assédio Sexual”) e o futuro (“Next, O Futuro Bem Próximo”) como alimento ficcional com igual vontade. Chegou a ter um dinossauro batizado em sua homenagem (Crichtonsaurus bohlini). Mas as façanhas bizarras, pueris, “embasbacantes” que compõem “Pirate Latitudes” (Harper, 312 págs.) não são marcos de seu melhor trabalho.

Quando ele completou esse manuscrito? Por que ele foi encontrado em seus arquivos e não em sua mesa de Publisher? As palavras na contracapa do livro não esclarecem essas coisas, mas “Pirate Latitudes” sugere sua própria resposta. A despeito do lugar que ocupa na linha de tempo pessoal de Crichton (e “Linha do Tempo” foi outro de seus best-sellers arrasadores), “Pirate Latitudes” tem ambições modestas, floreios de gênero convencionais e tom rígido, desconfortável de obra inicial.

As pesquisas e atitudes editoriais extremamente obstinadas de Crichton podiam emprestar grande energia polarizadora a suas narrativas. Mas está é uma história de pirata pura e simples, e seu alcance não vai além do Caribe dominado pelos espanhóis de 1665. com um protagonista masculino ousado que parece misto de Indiana Jones e Errol Flynn, “Pirate Latitudes” oferece mais bravatas que suspense e mais atmosfera que história.

HISTÓRIA DE PIRATA PURA E SIMPLES, SEU ALCANCE NÃO PASSA DO CARIBE DE 1665

Para seu crédito, ele incluí uma linha destinada à imortalidade na ficção de pirataria. “E minha amante vai jantar os teus testículos”, diz zombeteiramente o vilão do livro a seu herói cativo. Esse cativo é o capitão Charles Hunter, um intrépido corsário e pirata. (“Pirate Latitudes” explica a diferença entre o corsário e pirata). Ele nasceu na Massachusetts Bay Colony, mas foi para a Jamaica. Ele é um homem audacioso, um marinheiro experiente e um galanteador. Uma dama, para Hunter: “Você é um puritano?” Hunter, galante: “Só de nascença”.

O romance começa de uma maneira estranha, mas cativante, com a toalete elaborada de sir James Almont, o governador inglês da colônia da Jamaica. (“Pirate Latitudes” explica o uso de chumbo branco e vinagre cereja esverdeado para dar a sir James uma palidez elegante e tintura ocre de algas vermelhas para embelezá-lo ainda mais). Em seguida, ele comparece ao enforcamento de um pirata em Port Royal, e o livro demonstra que a pirataria é um negócio perigoso. O corso, por outro lado, é secretamente autorizado por governos e ajuda a manter as colônias insulares britânicas à tona.

Um navio inglês chega a Port Royal. Há temores de que seus passageiros possam ser portadores da peste. (“Pirate Latitudes” explica que a peste estava assolando a Inglaterra). Há temores também com as criminosas que foram embarcadas para a Jamaica nesse navio. (“Pirate Latitudes” explica como a Inglaterra se livra de suas prisioneiras).

Uma delas é uma linda jovem loira chamada Anne Sharpe. Sir James sente-se obrigado a inspecioná-la completamente para ver se ela não traz a marca secreta de uma bruxa. (“Pirate Latitudes” não é obrigado a explicar o processo de inspeção. Mas este é um livro que se esforça para ser rude, e o faz).

STEVEN SPILBERG JÁ MOSTROU INTERESSE EM UMA VERSÃO PARA O CINEMA

Hunter saúda o leitor urinando por uma janela para mostrar que ele não é nenhum almofadinha britânico. Não demora para Hunter saber a novidade excitante: um grande navio foi avistado no acanhado porto espanhol de Matanceros, e ele não se comportava como um vaso de guerra.  Para Hunter, isso significava três coisas: que devia ser um navio do tesouro; que o porto era inatacável pela frente, mas que seus canhões voltados para o mar podiam ser atacados por trás (a estratégia “Lawrence da Arábia” conhecida como “Acaba, por terra”) e que somente uma tripulação especial, escolhida a dedo, uma pequena versão de “Os Doze Condenados”, poderia fazer o serviço.

O livro passa então uma noite em recrutamento de pessoal. (Não é difícil perceber porque Steven Spielberg pretende fazer uma versão cinematográfica de “Pirate Latitudes”). Hunter junta um grupo de especialistas diversos com apelidos esquisitos, e por fim entra um elemento realmente no estilo Crichton na história. A tripulação inclui um especialista em demolição conhecido como “Black Eye (olho negro), o judeu”, que idealizará um truque engenhoso envolvendo entranhas de roedores. Há um homem conhecido como Whispers (sussurros) porque sua garganta foi cortada. Há uma mulher navegadora cuja visão é tão boa que ela consegue conduzir o navio mesmo sob a cegante luz do sol. O outro truque, menos estratégico dessa navegadora, é despir sua túnica para distrair o homem que pretende apunhalar.

Começa um jogo em grande escala de Capturar o Forte. Sua dinâmica é vigorosa, mas pode haver alguma dúvida sobre o desfecho? Será uma surpresa se o perverso Cazalla, contra quem cada membro da tripulação de Hunter deseja ardentemente vingança por algum ultraje pregresso, capturará e escarnecerá dos “mocinhos”? Embora não tenha um bigode para retorcer, Cazalla tem um arsenal completo de tiradas comicamente maldosas como “Preciso beber à saúde enquanto isso ainda é possível”.

Mais adiante, “Pirate Latitudes” oferece um amontoado canhestro de grandes ingredientes (furacões, canibais, monstro marinho gigante) que não têm muito a ver uns com os outros. Há um final que salta de um penhasco. Essas podem  ser indicações de que o manuscrito de Michael Crichton, de “Pirate Latitudes”, foi concluído, mas não realmente acabado, assim como o livro perde a pista de uma personagem bem introduzida como Anne Sharpe. Ademais, há a repetição: o livro deixa as personagens dizerem, e dizerem, e dizerem as mesmas palavras muitas vezes, sem conta. Mesmo os epítetos de época (“Sangue de Deus!”) acabam sendo usados em excesso e cansam depois de um tempo.

Os leitores fiéis de Michael Crichton sabiam como seus livros podiam ser tensos e excitantes e quantas minúcias fascinantes ele podia oferecer. Eles não tomarão “Pirate Latitudes” como um de seus melhores. Sua publicação póstuma é agridoce, e nenhuma quantidade de conversa tipo “Fiquem espertos com a bujarrona” poderá ocultá-lo. A reputação e o legado de Crichton se fundaram em obras bem mais empolgantes do que esta.

Tradução de Celso Mauro Paciornik.

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2 Responses to “Michael Crichton e o manuscrito descoberto em seus arquivos”


  1. 1 João Melo
    março 14, 2010 às 7:55 am

    O cara morreu muito cedo. Seus livros são foda.


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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