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Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 4

  • … em termos de difusão do livro. A banca de jornal está se tornando uma livraria, então você vê a veiculação de publicações de todo tipo. Não só a alta literatura, não aquilo que para você representa a literatura. Mas é uma literatura. Então, você vê a difusão imensa de livros, em vários setores. Qualquer jornal do Rio noticia noites de autógrafos, você vê gente publicando muito, o movimento em torno do livro é muito forte.

Essa é uma expansão no âmbito da modernidade. Há muito que se expandir dentro dessa ilha de modernidade. Claro, conforme as editoras se organizam, como a publicidade se desenvolve, cresce o número de leitores. A questão é saber até que ponto essa expansão vai se dar. Se essa expansão for infinita, o problema é fácil de resolver. É só o governo tomar vergonha na cara, custear e distribuir mais livros, barateá-los, investir mais na indústria de papel, pode até ser isso… mas essa expansão também pode ter um limite, estabelecido por nossa maneira peculiar de estar no mundo. Porque o livro, de fato, é um produto da modernidade. Esse livro, essa literatura que a gente tanto ama, que eu amo tanto, exige, antes de tudo, que eu não esteja na sua presença. O livro dispensa a presença. Agora, e as culturas que exigem presença, como é que é? É o tal negócio: ao dizer que o negro gostava mais de treta do que de letra, Mestre Didi não estava subestimando o negro. Pelo contrário, ele tem até publicado contos nagôs.

  • A mulher dele é antropóloga

Pois então, costumo de brincadeira dizer que a Bahia tem quatro etnias: negros, brancos, antropólogos e Juana Elbein. Ela é uma antropóloga isolada.

  • Ela tem livros publicados

Muitos. Mas os pontos de vista dela vão nessa direção. Ela acha que o que existe na Bahia é um processo civilizatório. São culturas distintas que, mesmo ao se encontrarem, não se fundem; pelo contrário, juntam-se, sem se anularem, produzindo uma terceira coisa, algo que não existia antes.

  • Na Bahia e no Nordeste isso fica muito mais evidente…

Fica muito mais evidente.

  • Aqui também se vê, mas, para o baiano em geral, principalmente o jovem, o McDonald’s, por exemplo, não tem essa coisa mais globalizante, mais cosmopolita, essa força que tem no Rio… Aqui jovem não come acarajé, não é?

Se o McDonald’s for bem sucedido na Bahia, vai acabar o acarajé. Aí, eu acho que o mercado (objeto e mercadoria) acaba triunfando. Hoje eu acredito que o capitalismo vai triunfar mesmo. A mercadoria vai acabar. O McDonald’s é uma mercadoria melhor que o acarajé, muito bem, vai acabar prevalecendo. Agora, Carlinhos Brown é analfabeto, semi-analfabeto. Os meninos analfabetos, iletrados, a maneira deles conversarem… Ah, não tem para ninguém. Eles não lêem livro, mas vai conversar com eles. A articulação da palavra, a maneira de contar que não dispensa, absolutamente, a pessoalidade, o olho no olho, o face a face, o contato, o sentido… É uma cultura essencialmente sensual, da sedução. Você só produz conhecimento quando você seduz o outro. Tem até um ditado na Bahia que diz: “Você aprende, se você respeita”. Só aprende o que respeita. Você não respeita o que não aprende. Ou ainda, para respeitar, você tem que estar com a pessoa. Essa interpessoalidade, é que eu acho o X. talvez seja esse o limite da expansão da literatura como livro.

  • Agora, veja essa coisa interessante: você está dando uma visão muito paradoxal. Isso porque, embora na interpessoalidade você seja um escritor e um grande leitor, você coloca como contraponto, como limite, essa relação da sedução, da oralidade, da resistência, essa Vicência de tensão, que você vê como um ponto, fundamental de nossa sociedade. Eu queria perguntar mais sobre a temática de seus livros, muito ligada à sua história de infância. Como é que se deu esse recorte? É preciso recontar essas histórias…

Em 78, estava em São Paulo, onde passei doze anos. Estava distante da família, no subúrbio, longe de tudo. Comecei a sentir saudade, nostalgia. Estava chegando a uma idade em que isso era natural, em que se começa a valorizar as coisas da infância. E entrei nessa temática de lembrar histórias da minha avó. Foi uma mudança na minha vida, uma tentativa de me aproximar do menino que fui.

  • E agora, Joel, você está escrevendo alguma coisa? Não para criança… Depois daquele seu romance… de temática histórica.

Não, não estou mais não. Você agüentou ler o livro?

  • Li, Joel, mas já faz algum tempo.

Esse livro é uma espécie de ajuste de contas comigo mesmo. Tento me livrar do peso da influência francesa; todos nós somos um pouco colonizados por algum país. As pessoas de minha idade são, em geral, colonizadas pela França. Tenho escrito um bocado. Vou convidar vocês par uma exposição que é um pouco literária, é uma invenção literária. É isso que eu tenho escrito. O que mais produzo é literatura aplicada, fiz o roteiro para essa mini-série Zumbi dos Palmares, além de uma série de programas sobre o papel do negro.

  • E na Fundação Palmares, foi bom o trabalho?

Foi bom, fiquei lá três anos.

  • Você morava em Brasília?

Não, eu ia para lá segunda e voltava terça ou quinta. Foi uma experiência boa pelo seguinte: o Ministério da Cultura é um ministério de consolidação. Ele tem que provar que é importante. E o Weffort, é um cara bom de diálogo. Você sabe disso, veio do PT, da luta. A gente conversou um bocado lá e eu estava me esforçando, junto com ele. O Brasil tem inúmeros contextos culturais, o ministério tem pouca grana e ele tem que ter um critério para investir. E eu me batia para ele investir nos encontros de culturas. Assim, leitura de livros é do contexto de classe média letrada. Então, é preciso que o Ministério da Cultura jogue dinheiro nisso para fazer cultura no contextos dos letrado, consumir literatura, acreditando que tal encontro resulte em alguma coisa, que com ele essa literatura de livros se fecunde.

  • Darcy Ribeiro chegou a fazer muita coisa nesse sentido, não é?

Eu me bati muito por esse projeto ProLer, da Casa da Leitura.

  • Eu também participei desse projeto

Acho que o Ministério devia investir aí, em programas de leitura, e ao mesmo tempo nos contextos culturais que possam nos interessar e fecundar. E fazer com que a gente tenha outras perspectivas. Por isso foi bom, gostei de trabalhar lá.

  • Joel, a gente sempre faz uma pergunta que a Rosa detesta, mas que faz parte da nossa metodologia. Eu não sou antropóloga… Como é que você se vê em termos de classe?

Eu sou classe média privilegiada. Classe média, talvez classe A. ligar a televisão, estar no Ibope. Pelo nível de renda, sou classe A. Agora, pelo gosto, nem tanto. Não levo vida de classe A e não é questão de renda. Tem gente que tem renda de classe B e leva vida de classe A. eu sou o contrário.

  • O gosto de literatura é um gosto de…

Não é de classe A.

  • Não é de classe A?! Como assim?!

É de classe B.

  • Por isso não gosto dessa pergunta… Sim, mas isso é subjetivo.

A classe A compra somente livros de auto-ajuda… sobre a melhor maneira de ganhar dinheiro, livros de arte, Best-seller. Compra e, em geral, não lê.

  • Em termos de cultura (e não econômicos) me sinto da elite. Acho que a literatura que você lê é de elite. É nesse sentido que estou falando. Até em relação ao termo elite tenho um pouco de dificuldade, talvez por sua conotação de grupo pequeno, restrito.

Tem razão. Eu e Teresa, a gente vê escola de samba, anda na praia, compra livro na livraria Argumento, vê filme à beça… Sou também da turma do acarajé, e minha filha também, felizmente.

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2 Responses to “Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 4”


  1. 1 José Renato
    janeiro 2, 2010 às 7:17 pm

    Conheci o Joel em 1974; era professor de história do cursinho Universitário em SP. Ficamos amigos, e nos últimos anos perdi o contato com ele. Solicito, se possível, alguma forma de contato com o Joel. Atualmente moro em São Carlos-SP, mas venho muito ao Rio, onde estou hoje. Grato pela atenção.


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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