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Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 3

  • Além do Jabuti, você já teve algum outro prêmio?

Tive menção honrosa na Feira de Bolonha, em mais um outro…

  • … fora a qualificação “Altamente recomendado”, pela Fundação… E quanto a ir às escolas, falar de seus livros? Até a Ana Maria Machado…

Eu não faço isso não, porque você tem que ter jeito para conversar com criança. Tem que ter jeito…

  • No tempo do Ciep, você ia muito falar com os professores…

Com professor eu gosto de conversar, mas com criança não tenho jeito. Geralmente digo coisas que nunca devem ser ditas.

  • E você também foi traduzido?

Para o inglês, na literatura infantil; para o alemão, um romance, e para o espanhol, aquela coleção “Lendas da América Latina”. É uma história até muito ilustrativa. Era uma co-edição com a UNESCO. Aqui, foi a Ática. Na Argentina, uma outra, que editou uma história minha, desse livro. Aí, a tradutora fez uma leitura ideológica do meu texto. Por exemplo: onde eu punha deuses, ela colocava outra coisa, santos, pessoas virtuosas, etc. E tinha várias outras interferências ideológicas, muito desagradáveis. O que eu poderia fazer, a não ser processar? Fiquei muito indignado.

  • Joel, qual a sua concepção sobre o que é ler?

Essa pergunta também é ótima. Ler é uma forma peculiar de interpretação. Daí você dizer:           eu li essa exposição… li esse filme… como é que você leu as palavras dela…? Para mim, a leitura se aproxima muito disso. O ato de juntar palavras para formar um sentido (e que seria a leitura no sentido específico), acho que não é tudo. Para mim, é impossível ficar sem ler livros, textos. Mas não creio que seja uma marca de superioridade intelectual, não é um valor hegemônico.

  • Falando nisso, para você, estamos vivendo uma crise?

Eu vejo uma crise de inteligência. Acho que o mundo vai ficando mais burro, em termos de leitura, de inteligência de mundo. Se você lê menos, obviamente você vai ficar mais burro. Mas há uma coisa interessante: o leitor burro, o doutor burro, que é uma praga da universidade…

  • Você dá aula de que, Joel?

Nas letras, dou Literatura Brasileira; na Comunicação, dou Teoria da Comunicação… E você, leciona na PUC?

  • Sim. Fiz meu Doutorado em Antropologia no Museu Nacional e fui chamada pelo Departamento de Educação da PUC para criar, ali, uma área de Antropologia da Educação. Essa pesquisa que estamos desenvolvendo, Joel, é interinstitucional, conta com a PUC e UFRJ, cujo representante é Pedro Garcia, da Educação, marido de Tania.

Em 1987, dei um curso de pós-mestrado de Letras, na PUC. Mas voltando à praga da universidade: são pessoas que lêem muito, mas parece que ler torna as pessoas mais burras… haja vista a universidade. Quer ver uma coisa? A moda do estruturalismo: a sua importação foi um emburrecimento da crítica literária.

  • Mas Joel, acho que se juntou a questão do estruturalismo com a da repressão política, foi uma forma de percebê-lo num quadro de repressão, uma apropriação… e serviu.

O estruturalismo é uma teoria inteligente.

  • Acho que tem figuras assim… Mas da forma como foi apropriado aqui, naquele contexto político, histórico… e estou falando porque sou filha disso…

Aquela importação de teorias serviu para vedar…

  • …qualquer tipo de discussão em cenários sociológicos… cenários…

Baniu escritores como José Lins do Rêgo e o próprio Nelson Rodrigues. Tudo isso só para ilustrar o fato de que ler não abre, necessariamente, a inteligência.

  • Já eu dou muito valor à leitura não só como processo de abrir a cabeça, a imaginação, mas por sua importância, em nível político, de cidadania. Não deixa de ser mais se pudermos não trabalhar com um valor hegemônico…

Tenho um amigo na Bahia, um sacerdote de terreiro, o Mestre Didi, que diz: “Negro não é de letra, negro é de treta”. O que isso significa? É que talvez haja, na cultura popular, arcaica, uma impossibilidade essencial de leitura, de ler livros, do literário, no sentido ocidental de ler. Há uma resistência popular a ler livros, que pode ser atribuída, em primeira instância, ao analfabetismo, ao preço do livro, ao papel negativo que a escola exerce, ao papel desistimulante da leitura… Tudo isso é verdade.

  • Partindo da imagem, dos meios de comunicação…

Claro, é o fato da indústria cultural ter chegado antes da alfabetização generalizada. Agora talvez haja, nas culturas populares, um elemento intrínseco refratário à letra. Isso não quer dizer que sejam culturas não-literárias. Por exemplo, os folguedos populares são todos literários. O bumba-meu-boi, que é o mais universal, o maracatu a escola de samba, tudo isso é literatura. É literatura no sentido… Tudo isso, pode-se dizer, é literatura oral. É uma história contada, que só vale se for contada, que só tem vida quando se conta. Mas o ler é o que exige: ler letras, textos, livros; isso exige um equipamento que talvez não haja nas culturas populares arcaicas… onde nada existe além da presença das pessoas.

  • Mas essa cultura arcaica, hoje em dia, pode até ser encontrada, mas só residualmente. E quase sem nada da cultura arcaica oral.

Eu acho que tem, totalmente.

  • Tem uma permanência, não é?

Pelo contrário. O Brasil é um oceano arcaico, com umas ilhas de modernidade.

  • Uma pergunta que a gente se faz é: até que ponto se pode falar, por exemplo, do Brasil como uma sociedade letrada. É ou não é?

Não é mesmo.

  • É uma sociedade da oralidade?

Acho que sim, desde que oralidade não seja tomada como estágio primitivo da cultura letrada.

  • Não é uma relação evolutiva. Nem uma relação dicotômica: oral ou letrada.

Acho que cabe mais na categoria da díade. Coexistem no Brasil as culturas arcaicas e modernas. Contextos culturais arcaicos que são hegemônicos com contextos culturais modernos que são excepcionais. Você poderia dizer que o Brasil tem um grau peculiar dessa mistura, dessa combinação arcaica e moderna. Agora, o que torna essa nossa composição diferente da Argentina ou da norte-americana.

  • Você está desenvolvendo uma teoria da cultura brasileira.

Não, não tenho essa pretensão.

  • O que torna o Brasil…?

É a dose de arcaísmo, de arcaicidade brasileira.

  • É a miscigenação talvez maior?

É a miscigenação. Mas ela é um fenômeno racial. E qual é o correspondente de um fenômeno racial em termos de cultura?

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2 Responses to “Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 3”


  1. 1 Elisabeth
    setembro 14, 2010 às 3:35 pm

    Moro em Abre Campo,MG. Sou professora e estamos realizando o projeto Salão Literário na E. E. Abre Campo. Suas obras vão ser apresentadas de forma criativa pelos alunos. Gostaríamos que nos mandasse alguma correspondência antes do dia 24 de setembro, quando terá culminância do projeto.Agradecemos a atenção.

  2. 2 Regina Vieira
    março 19, 2011 às 7:31 am

    Maravilhoso!!!


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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