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Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 2

  • Quais são suas preferências na literatura? Como se constituiu esse gosto?

Vou tentar definir o meu gosto e encontrar sua origem, no passado. Meu gosto literário vai para autores para quem a literatura é uma comunicação com os segredos. Então, não gosto de Rubem Fonseca, mas gosto de Garcia Márquez. Quem é do ramo sabe de que estou falando. Posso reconhecer que se trata de um grande escritor, mas sua literatura não me comove, porque o mistério está ausente.

  • Mas para você, que mistério é esse?

O mistério da existência humana, do desafio, do oco que nada preenche. É essa organização do real, a partir do mistério, do escondido. Esse é o meu gosto. Assim, meu autores são: Borges, Cortázar, Garcia Márquez, Saramago. No passado, Raul Pompéia, Machado de Assis. Na poesia, Cruz e Souza, Manuel Bandeira. Minha preferência é coerente. Além disso, as histórias de minha avó, não eram histórias desse mundo.

  • Eram lendas…

Lendas, mitos… O problema é a organização disso tudo. O real, todo nós vivemos implacavelmente. A relação com esse real é organizada de um determinado ponto de fuga, dá coerência, sentido que arruma o real. Bom, já o mistério é um ponto de fuga. Ele está fora, ele é o que não se dá. Na verdade, é como se fosse uma combinação para haver um lugar, mas se você se aproximar dele, não há nada.

  • Sem isso, o real é caótico. É o caos.

Isso mesmo, o real é caótico. Mas você pode organizá-lo, também, de outros pontos de vista, como o realista…

  • Há várias formas de se interagir com esse real. Seu gosto, por exemplo, vai por esse lado fantástico, mítico… É o que você vai captar na literatura popular, ao escrever… Agora, outro assunto: Você falou da família, mas faltou falar da escola. Como foi a sua alfabetização? O que a escola representou para a sua leitura?

Minha escola era aqui no Rio, no subúrbio de Tomás Coelho. O metrô chegou agora lá, mas só para os jornais. Tomás Coelho… Sérgio Cabral, que é do subúrbio de Cavalcanti, costuma dizer que tem duas pessoas, ele e eu, dessas estações.

Eu me alfabetizei na escola dominical aos cinco anos, antes de ir para a escola primária, com 7 anos. Minha irmã me ensinava em casa e, na igreja, a gente era obrigado a ler, a recitar. O curioso é que a igreja foi fundada por missionários americanos. Entre eles, a Miss…, que a gente chamava de Dona…, foi uma das minhas alfabetizadoras. Ela tinha sotaque e falava muito mal.

  • Não fazia confusão, Joel?

Fazia… Agora, outra coisa: eu gostaria de comentar que acho ótimo vocês estarem perguntando essas coisas, parece que têm importância.

  • Mas têm…

Para vocês chegarem a alguma conclusão? Tem alguma utilidade para vocês? Não sei qual…

  • Nós estamos fazendo uma pesquisa que, em princípio, visa a perceber, do ponto de vista de você, autores, como é que se dá a relação com a leitura, até para contribuir com a escola. Queremos também saber sobre a crise de leitura, de que se fala tanto hoje. Ela existe? Antes, as pessoas liam mais?

Eu só estou estranhando um pouquinho, mas eu acho ótimo. Gosto muito.

  • Porque você está estranhando?

Não sei por quê.

  • Acho interessante, temos feito essas perguntas recorrentemente. Você é a única pessoa que está estranhando.

É, eu estranhei um pouco. Primeiro, porque é raro eu conversar sobre o tempo de garoto, o tempo de escola. Converso um pouco com a minha filha, é natural. Eu conto para ela algumas coisas, quando a gente encontra os parentes: “Esse aí, foi tal coisa… eu li esse livro quando era menino”. Mas isso é história de vida do escritor…

  • É nessa linha que a gente está trabalhando. A coisa privada, no sentido da história social da leitura. No fundo, é o que a gente está fazendo.

Não, estou estranhando, mas achando ótimo.

  • É para perceber como o leitor se forma. Sabe por quê? Ando com uma postura… nem sei se é radical, mas minha impressão é de que a escola tem muito pouco a ver com a formação do leitor. Esta se faz, muito mais, por determinadas identificações, em geral familiares. Posteriormente, elas podem ocorrer em relação a professores, que também têm o papel de criar uma relação e de abrir essa questão da leitura. Você tem alguma associação com esses periódicos?

Seria o seguinte, quando e como eu decidi ser escritor. Certamente foi aos 12 anos, no primeiro ano do Ginásio Cavalcanti. Tive uma professora de francês (ela era brasileira, filha de franceses) que foi minha primeira paixão, de coração. Eu a achava o máximo. E ela, ao perceber isso, começou a “jogar” comigo (É muito comum a professora “jogar” com o menino e o professor “jogar” com a menina). Ela tinha total controle. Sabia até onde podia ir e brincava com isso. E aí, acho que para chamar a atenção dela…

  • Pois é, houve uma relação de transferência.

Então, havia as antologias de autores franceses, que eu tenho até hoje (primeira, segunda, terceira e quarta séries). Nas minhas redações, eu caprichava. E aí, se você escreve legal, se se destaca dos outros, começa a receber elogios e a se valorizar. O fato de escrever bem começa a ser o seu capital. E aí, eu pensei: “Deve ser bom ser escritor”. Eu era pequeno, não era bonito e tinha duas compensações: sabia escrever bem (com o adendo de saber francês) e sabia jogar bola. Eu me firmei nessas duas coisas. Foi um processo de identidade, como se diz.

Tudo funciona como uma compensação que, para mim, é como a lei da vida. Você não vale por uma coisa, então procura valer por outras. Ali, o que os meninos valiam? Ou eram bonitos, ou fortes, ou perigosos. Ser perigoso valia muito. Eu não era nenhuma dessas coisas.

  • Estou me lembrando de seu projeto, “quanto vale uma criança negra?”

Foi interessante, o nome é bom.

  • Agora, voltando ao ponto: se a questão da leitura não está associada à escola…

A escrita está associada…

  • Você distingue esses dois processos, ler e escrever?

Até certo ponto, não. Eu não ia escrever histórias da Bíblia. Minha leitura, até os 14 anos, era a Bíblia de minha avó. A partir daí, fui formando meu gosto literário e comecei a escolher os autores. Mas, com 12, 13 anos, já queria ser escritor, de ficção. Queria escrever histórias. Entre os autores que não conheci na escola e sim, em casa, com meu pai, um que me excitou muito, foi Jack London. Dele é o meu livro mais antigo. “O lobo da estepe”, não… “O lobo do mar”.

  • O lobo da estepe é do Herman Hesse.

Sim. Também tive minha fase de Hesse, bem mais tarde, já na faculdade. Tinha uma namorada que só namorava depois de falar de Herman Hesse, eu acho que era uma tara.

  • Citava aquelas passagens…

Fazia o maior sucesso.

  • Agora, Joel, mais detalhadamente, como você se tornou autor de livros?

Eu não tinha publicado nada até o 3º ou 4º ano da Faculdade de Filosofia, em 1963, quando conheci Nelson Werneck Sodré, historiador, que dava uma disciplina no ISEB. Ele me convidou, com alguns colegas, para trabalharmos como seus assistentes.

  • Minha mãe foi aluna do ISEB, nessa época, era muito amiga do Roland Corbusier, que foi seu professor, Josefa Magalhães da Silva…

Trabalhei lá, mas pelo nome, não estou localizando. Na época desse trabalho como assistente do Nelson, eu era muito novo, tinha 22 anos. O nosso grupo de jovens, que trabalhava com ele, inventou uma História nova do Brasil. Sob o comando de Werneck Sodré, produzimos sete volumes de uma “História nova do Brasil”. O Ministério da Educação, a CAPE, cujo coordenador era Roberto Pontual, já falecido, publicou. Então, essa história nova foi uma tentativa de mostrar ao professor como ensinar a nova história. A obra ficou famosa da noite para o dia. Até hoje sou, às vezes, apresentado como autor da história nova.

  • Mais tarde, você produziu livros didáticos.

Bem depois. A estréia foi em 63. depois, com a revolução, fui para o Chile, onde fiquei uns dois anos, antes da queda do Allende. Em 68, voltei ao Brasil, quando estreei na literatura, como historiador. Embora, escrevesse regularmente, nunca tinha publicado.

  • Nessa época, você dava aula em universidade pública?

Não, eu voltei para faculdade particulares, como a Cândido Mendes e a do Morumbi, porque tinha sido cassado, ainda não tinha o diploma, estava no quarto ano, quase me formando. Depois, na época do boom dos cursinhos, trabalhei no Objetivo, Universitário, Anglo… Foi quando, pela primeira vez, ganhei salários decentes na vida.

  • Em São Paulo?

Sempre em São Paulo. Passei doze anos lá.

  • Aqui no Rio tinha o Manoel Maurício. Muita gente foi para os cursinhos, né?

Foi uma saída boa. Mas só em 77, fui para o livro infantil. tudo começou quando fui pedir emprego na Volkswagen. Tinha que trabalhar. E na Kombi, que levava os candidatos a emprego para a Volks, encontrei uma ex-aluna, Zezé, uma das fundadoras da revista Recreio. Ela me disse: “Joel, eu estou na Abril, na Recreio. Você não quer escrever história para criança?”. “Não levo jeito”. “Experimenta…”. E eu experimentei, para ganhar um dinheirinho. Deu certo. Lá conheci Ruth Rocha, Sonia Lobato, Ana Maria Machado. Éramos o núcleo da Recreio e cada semana um escrevia uma história. Eu fiz, por exemplo, “Marinho, o marinheiro”, que saiu depois pela Tabata.

  • Você se vê como escritor profissional?

Nessa época, ainda não, mas hoje em dia sou profissional, ganho meu dinheiro… Sou professor da UFRJ, mas ganho com livros, conferências… Essa exposição de que sou curador, encaro como um trabalho literário.

  • É interessante ter surgido essa categoria, o profissional escritor. Todos os escritores que entrevistamos se julgam profissionais… Você teve que enfrentar alguma barra? Não sei se Ana Maria Machado chegou a comentar alguma coisa com você, mas no início ela teve dificuldade com as editoras sobre a questão dos direitos autorais, que nem sempre foram como hoje. Você chegou a ter algum problema…?

A Recreio pagava bem pela história; as editoras sempre pagavam… A Abril, a Ática, dirigida por minha aluna Regina Mariano, a Moderna, que publicou muitas coisas, a FTD, a José Olympio… Nunca tive problemas de direito autoral. Nunca fui trambicado. Fui mal, isso sim. Por exemplo, meu livro, “Uma estranha aventura em Talalai”, pela Editora Pioneira, que ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, um livrão, até hoje, não consigo tirar dessa editora. Todo mundo já tentou, ou paga muito mal, de tempos em tempos, e o livro fica preso ali, é uma pena…

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1 Response to “Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 2”


  1. 1 Regina Vieira
    março 19, 2011 às 7:26 am

    Estou adorando….


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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