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Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 1

Pedro Benjamim Garcia e Tania Dauster organizaram o livro “Teia de autores” (lançado em 2000 pela Autêntica Editora) após reunirem uma série de entrevistas com grandes autores nacionais de livros de temática infanto-juvenil, entre 1996 e 1997.

A entrevista que será postada hoje foi feita com Joel Rufino dos Santos. Escritor, jornalista, professor e pesquisador das raízes históricas brasileiras, Joel Rufino dos Santos nasceu no Rio de Janeiro. Ingressou na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, cujo curso interrompeu em 1964, por ter sido vítima de repressão iniciada pela ditadura militar recém-implantada. Exilou-se no Chile, onde permaneceu por mais de um ano, tendo cursado História da América no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile (1964-1966).

Em 1967, de volta ao Brasil, dedicou-se ao ensino e a atividades ligadas à órgãos culturais. Foi diretor do Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, secretário geral do Conselho do memorial Zumbi do Parque Histórico Nacional, membro da Comissão Internacional dos Historiadores da Diáspora Negra e Presidente da ACAAN (Associação Cultural de Apoio as Artes Negras).

Na área da pesquisa histórica, publicou vários títulos, entre eles, “História nova do Brasil” (1963); “História do Brasil” (1980); “O que é o racismo?” (1980); “História Política do futebol brasileiro” (1981).

Como escritor para crianças e jovens, Joel Rufino dedicou-se sempre a reinventar a História. Ou melhor, a reescrever episódios da história brasileira a partir do ângulo de visão do “outro”: o dos anônimos, esquecidos ou explorados que serviram de base para que o Brasil nascesse e se construísse como nação. Joel fala pelos que foram silenciados pela história oficial: os índios e os negros.

Começou a publicar suas primeiras histórias em 1975, na revista Recreio (SP), reinventando contos ou lendas de nosso folclore. Traduzidas para o espanhol, foram publicadas nas revistas Colorin (Espanha) e Recreo (Argentina). Em italiano, na Carosello. Posteriormente, foram publicadas em livros. Entre suas obras mais conhecidas podemos citar “O caçador de lobisomem” ou “O estranho caso do cussarium da Vila do Passavento” (1976); “Marinho, o marinheiro e outras histórias” (1976); “Marinho, o marinheiro” (1982); “Aventuras no País do pinta-aparece e outras histórias” (1983); “O curupira e o espantalho” (1978); “Uma estranha aventura em Talalai” (1978); “O noivo da cutia” (1980); “Uma festa no céu” (1980); “Quatro dias de rebelião” (1980).

“Meu gosto literário vai para autores para quem a literatura é uma comunicação com os segredos”

  • Joel, estamos investigando a formação do leitor, suas possibilidades e limites. Por isso queremos entender a história do escritor. No momento estamos trabalhando com alguns escritores, para perceber o que é o leitor e o que faz, do leitor, um autor. Como ele se constitui como leitor e autor? Queremos trabalhar numa linha de relato de vida para perceber esse processo em vários autores ligados, no momento, à chamada literatura infanto-juvenil. Gostaríamos muito de ouvi-lo porque, além de autor, você tem todo um trabalho com essa literatura.

Tem algum tempo que eu não publico nada.

  • Mas você tem uma produção grande

Tenho.

  • Eu dizia a Tania que ultimamente você não tem publicado nada, mas seus livros continuam vendendo. Você é do grupo da Recreio, é um nome, uma referência na área.

Inaugurei a Recreio…

  • Você é importante, é um nome que a gente tinha que ouvir. Fizemos várias entrevistas com Paulo Rangel, Rogério Andrade Barbosa…

… Rogério está onde? Outro dia ele fez uma conferência na UERJ…

  • … entrevistamos Roger Mello, Marina Colasanti, Ana Maria Machado, Roseana Murray. Luciana Sandroni está começando agora, com alguns livros. Entrevistamos vários autores, aqui no Rio. Nossa idéia é “pegar”, se possível, São Paulo e outros estados. Mas acho que você, Ana Maria, Ruth Rocha estão, desde o início, nesse grande movimento. Você não tem mais tido tempo para escrever?

Acho que não tenho mais motivação. Tinha, quando minha filha era pequena…

  • Sua produção direcionada aos jovens foi ligada ao fato de sua filha ser pequena. Você queria passar o quê para ela nessas histórias?

Nada; queria contar uma história. Queria que ela se divertisse, curtisse a história. De fato, era isso, não queria passar nada além disso. Inconscientemente, é claro que eu queria passar o amor pela literatura, que é o meu amor. Mas, deliberadamente, eu queria contar a história.

  • Mas, Joel, nós queríamos saber como foi sua história de vida. Na infância, como era a sua relação com as histórias? Como era o contexto familiar, colocava-se ou não a questão da leitura, da oralidade, das atitudes?

Meu pai lia, e isso influenciou a mim e a meus irmãos. O fato de nosso pai ser um operário que lia é insólito, porque, em geral, o operário não é de leitura. Um operário suburbano que lê, que leva livro para casa, que presenteia filho com livro, é raro…

  • Mas o que você acha que se deve esse fato…?

Ao acaso.

  • Estou achando ótimo você dizer isto, porque numa palestra da UFRJ, tocou-se no acaso como uma coisa de mistério. Não dá para a sociologia explicar.

Entre os meninos do contexto cultural do meu pai, uns se tornaram leitores, outros compositores e alguns, cantores. Por exemplo, ta vendo aquela carma que está ali? Foi feita por um entalhador do contexto cultural de meu pai, em Olinda, onde ele nasceu.

  • Você também nasceu em Olinda?

Não. Mas os companheiros dele deram várias coisas e ele deu para ler. Com isso, pôde ascender socialmente: foi operário, funcionário público, pastor evangélico, terminando a vida como funcionário graduado do governo. Foi uma história de ascensão social baseada na curiosidade intelectual.

  • A questão da religião evangélica teve muita influência?

Muita.

  • É, temos entrevistado algumas pessoas e esse fator religião é relevante…

Voltando à pergunta inicial: além de meu pai ser leitor, fui menino da igreja Evangélica no subúrbio, nos anos 40, 50, quando isso significava pertencer a uma comunidade de leitores, recitadores, cantores, ou seja, o contexto da escola dominical. É igual à escola dominical dos Estados Unidos. Todo mundo tem que ser alfabetizado para ler e contar histórias da Bíblia, recitar, dramatizar. Isso, para mim, foi muito importante. Um outro fator de influência foi minha avó, analfabeta, mas que era como a Vó Totonha, de José Lins do Rego. Vocês conhecem a personagem que ia de fazenda em fazenda, contando histórias pro meninos? Ela era da casta dos contadores de histórias. Isso vem da África, da África Ocidental. Minha avó era uma Griot, contava histórias, muitas histórias. Depois ela ficou doente, numa cadeira de rodas, por vários anos. A única coisa que fazia era contar histórias pra gente. Isso nos estimulava.

  • Que histórias eram essas?

Eram histórias da cultura popular pernambucana e muitas outras da Vó Totonha mesmo. Soldado Verde, Princesa Magalona, as Histórias de Lampião. Algumas dessas que eu publiquei, recontei, eram histórias da minha avó.

  • Nesse ambiente de contador de histórias, de sua avó, da influência religiosa e da Bíblia, que livros você lia?

Eu lia muito gibi. Sonhava com meu primeiro ordenado e me imaginava saindo do trabalho, numa banca de jornal, comprando gibi…

  • E você lembra de algum livro?

Eu me lembro de alguns livros religiosos, quando era pequeno. Um livro que me impressionou muito foi “Em teus passos é que caminha Jesus”. Livro mesmo, até os 14 anos, não tenho lembrança. Meu pai me deu de aniversário uma pequena história, mas não sei o autor. Mas me lembro de todos os gibis que li: “Capitão Marvel”, “Tocha Humana”, “Capitão América”, “Brucutu” (que eu achava o máximo), “Tarzan”, “Flash Gordon”, histórias que estavam em moda.

  • Joel, agora um outro ponto: quando você se ligou ao movimento negro, a religião evangélica é muito discriminatória no que diz respeito a outra religiões, a católica também…

Eu acho que o cristianismo em geral… os evangélicos talvez mais, em grau superlativo.

  • Porque talvez seja uma coisa mais rígida. Católico, acho que no Brasil, a maioria se diz católica, mas não é praticante. Sua literatura voltou-se para a questão do negro, da cultura popular.

Sou ligado ao terreiro. Isso talvez não seja muito fácil de compreender para quem não é religioso. Se eu fosse religioso, seria de candomblé.

  • Aquela bonita música do Caetano, “Quem é ateu e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotas”, expressa bem essa busca de uma outra religião.

Eu penso muito nessa questão. Há anos converso sobre isso. Meu ponto de vista é o seguinte: há religiosidade e religião. A religiosidade popular, no Brasil, é de origem africana. E há as religiões. É como se você tivesse um líquido que é a religiosidade, vertendo em vasos diferentes, que são as religiões. Então, essa religiosidade do candomblé você encontra entre os evangélicos negros e também no catolicismo popular, na umbanda. Até no islamismo, que existe no Brasil, um pouco na Bahia, onde muitos jovens se dizem muçulmanos, no Rio, e em São Paulo, onde há uma igreja islâmica negra. O islamismo também é uma religião de negros, sincretizada com o candomblé e a macumba. Essa religião islâmica negra foi muito forte no século XIX, na Bahia, no Rio e em Recife. Um pouco em cada capital do nordeste. Daí, foi enfraquecendo, até por conta de muita repressão.

  • Para usar uma frase de Tania, acho que, no Brasil, isso não tem visibilidade. Como tem nos Estados Unidos, talvez. Aqui, só para quem está ligado… Eu queria voltar um pouco à questão da infância. Como é que você vê o significado dessas histórias contadas, na sua vida?

Olha, não é fácil responder a essa pergunta. Você tem que pensar na resposta, conjugar fatos muito distantes. Pensando alto, essas histórias decidiram uma de minha ocupações futuras, a literatura, minha paixão. Apesar de ter feito cursos de filosofia, política, história, me ocupo, basicamente, de literatura. Essa paixão nasceu quando eu era menino, com aquelas histórias. Mais ou menos como Dom Quixote, que de tanto ouvir contos de cavalaria, acabou enlouquecido, embriagado pelas histórias. Qualquer coisa que vejo, leva a uma história… e leva a uma relação… meu gosto literário também foi determinado por isso, claro.

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2 Responses to “Crise de Inteligência – Joel Rufino dos Santos – Parte 1”


  1. 1 flavio lima
    fevereiro 3, 2011 às 11:09 am

    Estava procurando por “Ginasio Cavalcanti” onde estudei penso de 64 a 67, e encontrei aqui essa reportagem sobre Joel Rufino, (que nao conhecia, mora fora do Brasil desde 1972) me emocionei de saber de alguem que estudopu nessa mesma escola que eu, voce sabe o que aconteceu com o Ginaio Cavalcanti depois de 67, ou Joel saberia? Abracos, Flavio.

  2. 2 Regina Vieira
    março 19, 2011 às 7:11 am

    Eu fui aluna do Joel, personagem inesquecível, em minha vida, suas es’torais ficaram registradas em minha memória, e as do BRasil também , ele é uma pessoa brilhante precisarias de milhares de “Joel”, para tirar nossos filhos da internet e lhes dar o que estão precisando e muito hoje, estórias sobre a nossa Cultura como ele exemplifica muito bem aqui, parabéns pela entrevista….


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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