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09

Das histórias familiares – Luciana Sandroni Parte 1

Pedro Benjamim Garcia e Tania Dauster organizaram o livro “Teia de autores” (lançado em 2000 pela Autêntica Editora) após reunirem uma série de entrevistas com grandes autores nacionais de livros de temática infanto-juvenil, entre 1996 e 1997.

A entrevista que será postada hoje foi feita com Luciana Sandroni que publicou seu primeiro livro, “Ludi vai à praia”, em 1989, e o segundo, “Memórias da Ilha”, em 1991. os dois receberam o prêmio “Altamente recomendável” para crianças da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Em 1993 publicou “Gata Menina” e, em 1994, “Ludi na TV”, também premiado pela FNLIJ. Em 1996 recebeu o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil para a montagem de sua versão teatral. A adaptação, feita pela própria autora e pelo Núcleo de Teatro para Infância, recebeu o Prêmio Mambembe de melhor texto infantil de 1996 e a indicação ao Prêmio Coca-Cola de Teatro Jovem. Em 1995 lançou “Falta um Pé”, e em 1997, os livros “Manuela e Floriana”; “A história do príncipe sábio e da princesa deslumbrante” e “Tunhã na terra encantada”.

“Minhas memórias de Lobato – contadas pela Emília, Marquesa de Rabicó e pelo Visconde de Sabugosa”, publicado em 1997, pela Companhia das Letrinhas, conquistou os prêmios Jabuti e de Melhor Livro Infantil, O melhor para criança, da FNLIJ e foi indicado para a lista de honra do IBBY – International Board on Books for Youg People.

“Ludi na revolta da vacina – uma odisséia no Rio Antigo” recebeu o Prêmio Carioquinha da Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro e o Prêmio O Melhor Para Criança de 1999, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Seu último livro publicado (2000) é “O Sítio no descobrimento – a turma do pica-pau amarelo na expedição de Pedro Álvares Cabral”.

“A literatura não está aqui para ajudar ou para representar a realidade, mas para criar, transformar”.

  • Qual a importância da história, na sua infância?

Histórias foram muito presentes na minha infância. Minha mãe e minha avó contavam muitas. Tenho lembrança de, bem pequena, adorar ouvir, por exemplo, “A formiguinha e a neve”. Nas férias de verão meus irmãos e eu íamos para a ilha de Itacuruçá, que não tinha eletricidade. À noite nós jogávamos buraco ou Monopólio e antes de dormir minha mãe nos contava um “capitulinho” do “Sítio do pica-pau amarelo”. Isso foi marcante. A ilha era muito parecida com o Sítio, porque a gente ficava isolada da cidade, só curtindo a natureza e a família. Minha avó Jujuca e minha mãe eram como Dona Benta. A dona Rosa, a cozinheira, era uma quituteira de mão cheia, como Tia Nastácia, e a Gessy, uma moça que cuidava da gente, contava histórias de assombração, que nós morríamos de medo, mas adorávamos. Meu pai, que vinha no fim de semana, trazia pra gente a revista Recreio, que foi marcante para toda uma geração. As primeiras histórias de Ruth Rocha, da Ana Maria Machado e do Joel Rufino foram publicados nela.

Uma outra lembrança boa que tem a ver com livro é que aqui no Rio, nos anos 60, era freqüente a falta de luz e, nessas horas, o Sítio entrava em cena. A falta de luz fazia com que a gente se sentisse na ilha e, portanto, no Sítio do pica-pau amarelo. Nós nos reuníamos na sala e minha mãe lia uma aventura.

Minha avó contava as histórias do João Felpudo – um menino sujo, que não queria tomar banho – uma história popular da Alemanha, como “Juca e Chico”. Ela leu na sua infância uma tradução de Olavo Bilac; mais tarde ela adaptou totalmente, colocando pessoas da nossa família na história. Na primeira versão o João era um dos nossos tios e depois, quando a gente nasceu, era um dos meus irmãos. A família toda entrava na história: minha mãe, Laura, era Maura; meu pai, Cícero Sandroni, era Ciano Marconi; Clara, minha irmã, era Aninha e por aí vai… Sempre tinha uma aventura e todo mundo participava da história. E a vovó contava de um jeito muito envolvente, e o João passava a ter existência real.

  • Na literatura infantil, há quem defenda a história com mensagem…

Não sei… o que a gente nota é que quando o autor quer só passar uma mensagem em um texto, seja para crianças ou para adulto, acaba ficando chato, porque vira lição… fica tudo muito previsível. O leitor não tem muito o que fazer, porque o escritor já deu todas as respostas. E a proposta de um texto literário é, ao contrário, atiçar o leitor, é fazer com que ele imagine, interprete, crie. A mensagem acaba virando a velha e boa moral da história, que impõe ao leitor uma única interpretação. É claro que autor está a todo momento passando idéias, mas isso vem através da história, da narrativa.

  • Em sua opinião, como se desenvolve a relação entre escolas e editoras?

Esse mercado de literatura infantil e juvenil é muito ligado à escola. O livro infelizmente só aparece na mídia quando tem Bienal. Ainda é muito comum o divulgador da editora “vender” o livro para o professor como se fosse um livro auxiliar do currículo. Mas acho que as coisas têm melhorado. As livrarias estão dando maior espaço para os livros didáticos, realmente editoriais, especialmente as de livros didáticos, realmente trabalham diretamente com à escola – o que é essencial – mas isso marca muito o livro como dever de casa, obrigação. Acho que falta às editoras um pouco de iniciativa para formar leitores a partir da família, dos pais e não só da escola.

  • Para você, há uma crise de leitura?

Tenho mais contato com escolas particulares que, na sua maioria têm uma outra realidade. São crianças que têm livros em casa, que vão às livrarias, e que em muitos casos têm os pais leitores. Noto que essas crianças gostam de ler e são estimuladas na escola e em casa. Tudo muito diferente da grande maioria das crianças, que não têm acesso ao livro, por ele ser caro e não existir um projeto de leitura e de incentivo a ida às bibliotecas. Nesse sentido a crise é grave porque o livro no Brasil, como a cultura e a educação, ainda são para uma elite.

  • Como você vê uma política de formação do leitor?

Tivemos ótimas iniciativas, como “O escritor vai à cidade”, da Biblioteca Nacional; o projeto “Sala de Leitura”, da FAE; a “Ciranda do Livro”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Hoje temos o ProLer, da Biblioteca Nacional; o Ateliê do Artista, da FNLIJ; e a Paixão de Ler, da prefeitura do Rio; e as compras de acervos para as bibliotecas escolares, do MEC; e outras atividades boas acontecendo. Mas não acredito que esses esforços se façam muito presentes, são em número ainda inexpressivo. Deveria haver mais projetos de estímulo à leitura.

O que ajudaria muito na formação do leitor seria uma política pública de divulgação e recuperação das Bibliotecas. Bibliotecas com contadores de história, recital de poesia, encontro com autores, jornal… As Bibliotecas ficaram muito ligadas ao estudo e à pesquisa. Não existe, por exemplo, propaganda do governo apresentando as bibliotecas como mais uma opção de lazer.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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