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Academia de letras da periferia

Academia de letras da periferia
No boteco do Zé Batidão, em São Paulo, toda quarta-feira motoristas, operários, domésticas, office-boys se reúnem para fazer e ouvir poesia
Eliane Brum
24/04/2006 – 00:00 – Atualizado em 04/07/2009 – 01:25

Quarta-feira 12, Itaim Paulista, zona leste, periferia de São Paulo. Alessandro Buzo e a mulher, Marilda, esperam o trem. Perto deles, três adolescentes contam um maço ensebado de dinheiro. Trezentos reais, notas de R$ 50 e de R$ 10. Vão pegar o mesmo trem para o centro. Lá, seus caminhos se bifurcam. Os meninos rumam para a favela de Heliópolis, zona sul. Vão comprar cocaína para revender. Buzo e Marilda seguem para o Jardim Guarujá, Piraporinha. O ponto final da viagem de três horas é um sarau de poesia. ‘O mesmo trem, dois destinos’, diz Buzo. Porque lê, escreve e faz poesia, Buzo vai demorar mais para alcançar o destino. Mas ganhou a chance de envelhecer. Porque não estudam e se alimentam do tráfico, os garotos chegarão antes à boca-de-fumo. Mas possivelmente vão desembarcar da vida meia dúzia de estações adiante.

Como Buzo e Marilda, toda quarta-feira, três centenas de ‘cidadãos periféricos do mundo’ rumam de diferentes regiões da populosa geografia paulistana para um boteco de esquina. Espécie de ‘quilombo cultural da senzala moderna’. Muitos voltaram a estudar, outros começaram a ler, todos mudaram. O que acontece lá inspirou dezenas de saraus pelas periferias do Brasil.

‘Boa noite, sejam todos bem-vindos ao sarau da Cooperifa, movimento cultural de literatura da periferia.’ É como o poeta Sérgio Vaz abre a noite, às 20h30. Aos 41 anos, quatro livros independentes, 5 mil exemplares vendidos em portas de teatros, cinemas e bares, ele inventou a Cooperativa Cultural da Periferia depois de ler sobre a Semana de Arte Moderna de 1922. Começou numa fábrica interditada pelo Estado em 2000, peregrinou por mais dois botecos, até ser acolhido pelo Zé Batidão. ‘Como todo mundo sabe, na periferia não tem museu, não tem teatro, não tem cinema, não tem nada. Na periferia tem boteco. Então transformamos o bar do Zé Batidão num centro cultural.’

Zé Batidão ‘é nosso mecenas, atrás do balcão nem parece o sonhador que é, tamanha simplicidade com que serve ao sonho alheio’. Aos 57 anos, o Zé foi criado como escravo numa fazenda de Minas Gerais em que o patrão só lhe dava restos de comida e proibia até de estudar. Aprendeu a ler depois de migrar para São Paulo como trabalhador da construção civil. Foi garçom do restaurante Fasano, modelista e costureiro. Acabou como dono de boteco. Quando Sérgio lhe fez a proposta de sediar o sarau da periferia, achou a idéia esquisita, acreditava mais em samba e pagode. Mesmo assim arriscou. Deu tão certo que se empolgou e começou a escrever a história de sua vida. ‘Umas 20 folhas’, diz.

Nesta quarta-feira, a Cooperifa lança seu CD primeiro no boteco do Zé, uma parceria com o Instituto Itaú Cultural. ‘Conseguimos arrancar dinheiro do banco sem usar um (revólver) 38. Em vez de arma, projeto’, afirma Sérgio. ‘O espaço da literatura sempre foi o pão dos privilegiados, dos que têm dinheiro para comprar livro. Agora temos de criar um outro mercado. O nosso. Não compramos CDs piratas porque não somos cidadãos de segunda classe. Se o original estiver caro, boicota. Vamos comprar nossos CDs, nossos livros, vendidos de mão em mão. E então o mercado vai ter de dizer amém para a periferia.’

Rose Dorea, de 33 anos, começou a espiar a Cooperifa anos atrás. Sentiu-se desafiada. ‘Parei de estudar porque precisava trabalhar. Então ouvia as pessoas declamar poesias, mas não captava o sentido. Fiquei péssima’, diz. Rose se encheu de brios, matriculou-se no supletivo noturno. Caçou os livros, voltou ao sarau um ano e meio depois, formada no ensino médio. Retornou poeta. Agora, quer fazer faculdade de Direito. Tem uma banca de jogo do bicho, mas sonha em ser delegada de polícia. Tornou-se a ‘musa da Cooperifa’.
‘Lançamos livros, mesmo a elite pensando que a gente nem sabia ler. Estou cansado de ser tese de faculdade’ Alessandro Buzo, vendedor autônomo e escritor

Não cabe mais ninguém dentro do boteco. Nem de pé nem sentado. O público se espalha pela rua. Atrás do microfone, uma faixa: ‘O silêncio é uma prece’. Serginho Poeta vende sorvetes perto do Cemitério São Luiz. Dedica seus versos à luta do primo, ex-presidiário:

– Minha mãe trabalhava por quanto tempo durasse o dia e acaso não fosse bastante seu esforço tinha a noite como companhia. Às vezes me levava para o emprego e eu ficava confinado na área de serviço, talvez porque a patroa não gostasse de negros circulando pelos cômodos de seu luxuoso cortiço. Quando acordava de bom humor, danava-se a falar do moleque sem cor que queria que fosse engenheiro. Sei que minha mãe sonhava para mim um futuro semelhante, mas quando olhava pro neguinho com ar maloqueiro sofria com a dor que invade quem descobre uma infinita distância entre o desejo e a realidade.

O boteco vem abaixo. Há quem chore. ‘Repitam comigo’, grita Sérgio Vaz. ‘Povo lindo, povo inteligente! É tudo nosso!’

Sales dirige uma Kombi, faz frete. Aos 29 anos sonha que um dia alguém se torne ‘um grande homem porque se apoiou em uma ou duas frases’ suas:

– O poeta me falou, interpretei desse jeito. Revolução sem o erre tem mais efeito. Caneta e papel vêm do coração. Projetos, pensamentos pra evolução. Biblioteca inaugurada, parquinho pra molecada. Faça um curso, leia livros. Porque o sistema quer você mal informado.

Sérgio Vaz um dia o chamou num canto, aconselhou a derrubar da cabeça o boné estampado com uma metralhadora HK. ‘Isso aí não é legal. Você agora é referência para a molecada.’ Sales refletiu por uns 15 dias. Tirou o boné. Desarmou-se. Agora Sérgio Vaz provoca: ‘Só um lembrete. Quem tiver vergonha de ser da periferia ainda tem tempo de ir embora’. Ninguém sai. Como diz outro poeta periférico, Marco Pezão, ‘nóis é ponte e atravessa qualquer rio’. A multidão repete, em transe. Muitas vezes.

É a hora de Buzo no microfone: ‘Lançamos livros, mesmo a elite pensando que a gente não sabia nem ler, pra nossa história a gente mesmo escrever. Tese de faculdade eu tô cansado de ser’. Para sobreviver, Buzo, de 33 anos, vende ‘gêneros alimentícios’. Para viver, escreve. Tem 8a série, finaliza o quarto livro, dá oficina de literatura como voluntário na Febem. Mora numa casa de dois cômodos e um banheiro no extremo da zona leste, mas conseguiu montar uma biblioteca com mais de 1.500 livros dentro de uma escola de samba. É a Biblioteca Comunitária Suburbano Convicto.

Quando o sarau acaba, não há mais trem para atravessar a periferia de São Paulo na madrugada. Buzo e Marilda precisam achar um canto para dormir até a primeira viagem da manhã. Não se importam. Sabem para onde vão. Ainda que demore.

MECENAS DA PERIFERIA
Entre cervejas e torresmos, Zé Batidão acolheu o sarau. Empolgou-se tanto que escreveu a história de sua vida

ESQUINA DA POESIA
Comandado pelo poeta Sérgio Vaz (no microfone), o sarau da periferia reúne 300 pessoas no bar do Zé Batidão (acima).
Expressam revolta, esperança, vontade de mudar e, quase pedindo desculpas, sempre há um corajoso que se arrisca a falar de amor

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI53874-15220-1,00-ACADEMIA+DE+LETRAS+DA+PERIFERIA.html

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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