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Sexo e sangue? Não, é apenas amor

Matéria publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo no dia 14 de novembro de 2009, na página D4

Juventude – Comportamento

Sexo e sangue? Não, é apenas amor

Em essência, o sucesso retumbante da série “Crepúsculo” é mais um caso de romantismo nos moldes de Romeu e Julieta

Luiz Carlos Merten

Quem já leu “Lua Nova”, o segundo livro da saga “Crepúsculo”, sabe que nas últimas páginas do livro Edward e Bella, que formam o casal protagonista, discutem por que ela está lendo “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Bronte. O livro é um dos clássicos da literatura inglesa, mas Edward contesta que o casal de amantes, Heathcliff e Catherine, seja colocado no mesmo plano de Romeu e Julieta e Elizabeth e Darcy (de “Orgulho e Preconceito”), como representações do romantismo. Edward contesta Bella, dizendo que a história de “O Morro dos Ventos Uivantes” é de ódio, não é amor.

O leitor jovem pode nem prestar muita atenção no que Edward e Bella dizem, mas quem está falando ali, naquele momento, não é só o rapaz, mas a própria escritora Stephenie Meyer. Formada em literatura inglesa, ela põe ali um toque pessoal, e quem sabe uma pitada de polêmica, ou então está só querendo provar, para si mesma e para os outros, que sabe das coisas. Stephenie é hoje uma das 100 personalidades mais influentes do mundo, e isso só por causa da saga “Crepúsculo”. Já virou lenda urbana a história sobre como ela teve um pesadelo, acordou, foi correndo para seu computador e começou a esboçar a história da garota de classe média que se sente atraída por seu colega, e ele é um vampiro.

Vampiros de classe média, um tento assépticos? Antônio Gonçalves Filho disseca nesta página (abaixo) o que isso representa de mudança em relação à grande tradição do gênero. Mas a verdade é que toda essa devoção do público exige investigação. O primeiro livro, e até o filme, podem ter sido espontaneamente descobertos pelo público. Agora já tem marketing pesado em cima. Roberta Augusto, da empresa Summit, estima que “Lua Nova” poderá mais do que duplicar o público de “Crepúsculo” nos cinemas brasileiros, atingindo 7,5 milhões de espectadores. O investimento está sendo pesado para garantir que isso ocorra e a TV tem sido aliada, não só a rede Telecine.

Garotas sonham mesmo é com beijo de Robert, com todo risco que significa

A Globo fez um concurso, “O Desafio do Vampiro”, cujo desfecho teve pico de audiência dentro do Fantástico, dia 1º. O sucesso se reflete na venda antecipada, que atingiu 95 mil ingressos na rede Cinemark, bem mais do que o fenômeno “Harry Potter”. Lautner é mero coadjuvante em “Crepúsculo”, hoje à noite, na TV paga. Em “Lua Nova”, Pattison é herói que quase não se vê. Lautner – o lobisomem – cresce em cena. O próprio ator passou por uma transformação.

Ele conta que quase foi demitido da produção, mas conseguiu convencer o diretor Chris Weitz que poderia ganhar massa física, e rapidamente. Os garotos, na fase pré-lobisomens, passam pelo filme com barrigas tanquinhos e bíceps desenvolvidos, quase sempre sem camisa. Em tempos de Mix Brasil, a produção não se arrisca a desperdiçar o potencial de atração para um público, digamos, alternativo. Lautner, apesar do físico sagrado, é meio garotão. Kristen é mais reflexiva. Um pouco para o companheiro de elenco, um pouco para o repórter, ela comenta a agitação na frente do hotel, a correria dos fãs.

“Temos a sorte de estar aqui, e tudo isso é maravilhoso, mas a série é maior que nós e outros atores poderiam estar provocando a mesma reação. O público não está aqui porque eu sou Bella e Taylor (Lautner) é Jacob. Talvez Robert (Pattison) seja o mais carismático de nós todos, mas até ele acha maluco que tenha ido dormir um dia anônimo e acordado uma celebridade por causa de um vampiro que interpreta num filme de Hollywood”. O Repórter tenta puxar o assunto para a iconografia tradicional do gênero. Vampiros são sensuais, voam, o ato de sugar o sangue a vida eterna mexem com fantasias profundas. Nada disso é relevante aqui. O que Stephenie (Meyer) reinventou, o que nós estamos reinventando aqui é “Romeu e Julieta”. Vá lá foram e pergunte para aquelas garotas. Todas gostariam que Robert (Pattison) aparecesse e as beijasse, com todo o risco que isso implica. Só isso”. O romance, portanto, predomina sobre a perseverança. O sucesso da série é um sinal dos tempos.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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