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O sanguessuga adota a moral da classe média

Matéria publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo no dia 14 de novembro de 2009, na página D4

O sanguessuga adota a moral da classe média

O jovem Edward, que só fica nas preliminares, é uma vergonha para ancestrais libidinosos como Drácula

Antonio Gonçalves Filho

O vampiro Edward da série criada por Stephenie Meyer está condenado à eternidade, como, aliás, todos os seres dessa espécie, mas ainda carrega nas costas outra condenação, a de pertencer à classe média e arrastar pela noite eterna todos os preconceitos de sua categoria social. Assim, não admira que a atividade sexual desse sanguessuga se resuma às preliminares mais longas de todos os tempos, como bem reconheceu a própria diretora de “Crepúsculo”, Catherine Hardwicke. Não causa espanto, igualmente, que o torturado Edward e sua namorada candidata à vampira, Bella, sejam ídolos da moçada habituada mais a “ficar” do que a estabelecer vínculos. Relações duradouras quase sempre não ultrapassam o plano da idealização. Melhor ter um vampiro apaixonado por toda a eternidade do que um sanguessuga sem poderes extraordinários fisgado numa rave.

As meninas são loucas por Edward. Enlouquecem mesmo os pais para comprar os livros da série (as quatro edições da série já venderam 2,2 milhões de livros só no Brasil e 77 milhões no mundo todo). Mandam cartas e mensagens eletrônicas para conselheiros amorosos, perguntam o que fazer para chamar a atenção do vampiro e, histéricas, soltam gritos quando casal Robert Pattison e Kristen Stewart, na versão cinematográfica de “Crepúsculo”, pula de árvore em árvore simulando um jogo sexual nas alturas – existe algo mais fálico que um eucalipto? No entanto, sexo que é bom, não rola.

Os vampiros de outras épocas – e isso inclui o conde Drácula de Bram Stoker – eram criaturas extremamente libidinosas, que seduziam suas vítimas com uma boa mordida no pescoço para em seguida atacar outras partes na região sul do corpo. Vampiros, no tempo de Stoker, isto é, no século 19, podiam representar tanto a virilidade do homem europeu do Leste, temida pela moral vitoriana, como o signo da promiscuidade, definida tanto pela arquitetura do castelo de Drácula, em forma de genitália feminina, como por sua tirania, capaz de tornar escravos sociais todos os que estavam abaixo da posição hierárquica de conde. Desse jogo sadomasoquista não escapavam sequer as bestas da floresta, chupadas violentamente na falta de sangue melhor. Esse foi o tempo de Bram Stoker.

De Ann Rice em diante, os vampiros, criaturas com poderes sobrenaturais, perderam parte de seu encanto natural, sucumbiram ao ideal classe média do conforto. Edward, por exemplo, não dorme em caixão, não tem problemas com alho, não odeia água benta, suas presas não são retráteis e ele já freqüentou tantos anos o colegial que seus pais perderam a conta de quanto gastaram na maldita escola onde conheceu Bella, a frágil.

Desnecessário dizer que Edward jamais cruzou com Nosferatu de Werner Herzog, o eterno angustiado condenado à eternidade. Se a noite de Nosferatu foi povoada de desejos ocultos, fazendo-o perder o controle, a de Edward é um romântico cenário com promessas de amor eterno. O predador foi domesticado pela classe média. E hoje vive na coleira.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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