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Um sonho milionário

Um sonho milionário

Stephenie Meyer é autora de “Crespúsculo”, série de livros que se tornou febre entre adolescentes, mas também agrada mulheres de meia-idade

18/07/2008 – 19:42 – Atualizado em 19/07/2008 – 02:58

Numa noite de verão de junho de 2003, enquanto dormia com o marido e os três filhos em sua casa no subúrbio de Phoenix, nos Estados Unidos, Stephenie Meyer, então com 29 anos, sonhou com o encontro romântico entre uma adolescente e um vampiro num anoitecer chuvoso. Na manhã seguinte, segundo seu relato, deixou de ser uma típica dona de casa para se tornar escritora. Em três meses, escreveu as 416 páginas de Crepúsculo (editora Intrínseca, R$ 39,90, tradução de Ryta Vinagre), primeiro dos quatro volumes da saga Crespúsculo (Twilight), maior fenômeno literário desde Harry Potter.

“Aquele sonho foi tão real que tive de colocar no papel”, diz Stephenie, de 34 anos. Foi o que fez. Numa montanha de páginas, escreveu a história de Bella Swan. E como Stephenie diz nunca ter visto filmes de vampiro, a inspiração para o nome nada tem a ver com Bela Lugosi, renomado ator marcado por sua clássica interpretação de Drácula nos cinemas. Aos 17 anos, Bella se muda para a minúscula, chuvosa e monótona cidade interiorana de Forks. No último lugar em que um adolescente gostaria de viver, ela tenta se adaptar à rotina provinciana, mas é excluída e ridicularizada por todos, inclusive pelos nada amáveis colegas de sua nova escola. Nesse ambiente hostil, conhece os irmãos Cullen, um grupo de belos e misteriosos jovens que guarda um segredo: não envelhecem desde 1918, ano em que se tornaram… vampiros.

No universo de Stephenie, os vampiros são diferentes. Não são incinerados quando expostos ao sol. A pele exibe uma palidez exuberante e resplandecente. E são politicamente corretos: renunciaram ao sangue humano para se alimentar do de animais. O comportamento dura até Bella se apaixonar por um dos Cullens, Edward, um atraente efebo de 17 anos que também cai de amores pela moça. O aroma do sangue de Bella causa em Edward uma fome irrefreável. Para não devorá-la, o vampiro metrossexual vive uma batalha constante contra a tentação.

Nos livros da saga, a fórmula de Stephenie é converter histórias de horror em romances adocicados. Seus vampiros não têm dentões pontiagudos, não mordem e não há sangue no canto da boca. A ação é desacelerada para dar lugar ao drama humano que conduz a narrativa. Tudo apimentado pela tensão erótica velada entre os dois personagens. Nunca fica claro se Edward quer dormir com Bella, sugar seu sangue ou as duas coisas.

O comportamento dos personagens diz muito sobre a vida da própria autora. Stephenie Meyer nasceu e cresceu em Phoenix, uma das mais populosas cidades dos Estados Unidos, encravada no meio de um dos desertos do Arizona. Filha de pais mórmons, religião cristã rigorosa em seus costumes, Stephenie casou-se cedo, aos 21 anos. Conheceu seu marido, Christian, apelidado por ela de Pancho, quando cursava Letras na faculdade local. Freqüenta assiduamente o templo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e cria seus três filhos dentro da rígida doutrina prescrita pelos pastores. Diz que não bebe nada alcoólico, não fuma e passa longe de filmes impróprios para menores. Vez ou outra se dá ao prazer mundano de tomar uma Diet Pepsi, mesmo com a restrição mórmon à cafeína. Afinal, “o ser humano tem liberdade de escolha, um presente divino”.

O que mais se destaca em sua ficção não é a caretice de banir bebidas e cigarros do mundo adolescente, mas o tema central de toda sua obra: a disposição em buscar um destino diferente. “Essa é a metáfora de todos os meus livros”, afirma (leia a entrevista na pág. seguinte). “Não importa o que aconteça em sua vida: você sempre pode escolher outro caminho.” Tal filosofia, meio zen-cristã, misturada ao estilo de romances água-com-açúcar de Jane Austen e à obscenidade velada e romântica típica de Bram Stoker, arrebatou de adolescentes a mulheres de meia-idade. Assim que Crepúsculo foi publicado, fãs criaram blogs para discutir os personagens e especular sobre novos livros. Agora, basta Stephenie aparecer em eventos para uma horda de adoradores histéricos acompanhá-la e gritar seu nome em coro. Mães de família dizem ter se mirado em seu exemplo para sair do tédio cotidiano e criar “arte” – em geral, vender na internet camisetas e jóias inspiradas em suas obras. Uma adolescente chegou a escrever a Stephenie dizendo que o livro evitou seu suicídio.

Nem a tão esperada adaptação da saga para o cinema foi poupada. Com estréia prevista para dezembro, Twilight é um dos mais aguardados filmes adolescentes desde, adivinhe, Harry Potter. A escolha dos atores foi acompanhada com lupa na blogosfera pelos “twiharders”, como se chamam os adoradores dos vampiros de Stephenie. O obscuro galã teen Robert Pattinson e a insossa Kristen Stewart foram ofendidos por sites dedicados à autora, furor suspenso por algum tempo graças à divulgação de cenas do longa.

Tamanho frenesi só foi visto antes com Harry Potter. Stephenie parece trilhar o caminho aberto pela criadora do bruxinho mais famoso do planeta, J.K. Rowling. Em maio, foi eleita uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela prestigiosa lista anual da revista Time. Os três livros da série já lançados venderam mais de 10 milhões de cópias. Figuraram na referencial lista de best-sellers do jornal The New York Times por 143 semanas. O quarto e derradeiro volume da saga, Breaking Dawn, é o mais vendido no site Amazon.com há dois meses e será lançado apenas em agosto, com tiragem inicial de 3,2 milhões de exemplares. “Nunca imaginei tanto sucesso”, diz Stephenie. “Só pensei que talvez pudesse pagar algumas dívidas com o dinheiro.”

É verdade que o número de dígitos da conta bancária de Stephenie nem de longe se compara ao das cifras de Rowling, cuja fortuna passou, há tempos, da casa do US$ 1 bilhão arrecadados ao longo de 11 anos e 400 milhões de livros vendidos. Ainda assim, Stephenie não está nada mal para quem, na arte de escrever, nunca havia ido além de trabalhos na faculdade e e-mails.

“Agora não consigo parar de escrever”

A ex-dona de casa que virou escritora da noite para o dia fala de como criou seus livros e do fanatismo dos leitores

ÉPOCA – Como a senhora reagiu à estrondosa repercussão dos livros?
Stephenie Meyer –
Nunca imaginei tamanho sucesso. Acho que tive uma boa editora (risos). Quando mandei alguns capítulos de Crepúsculo a agentes literários, em Nova York, em 2004, pensava, no máximo, em conseguir pagar algumas dívidas. Nunca essa legião de fãs. Até porque não pretendia ser escritora. E, na verdade, acho que sou mais uma contadora de histórias.

ÉPOCA – A religião influenciou seus livros?
Stephenie –
Sem dúvida, eu era comportada graças a minha religião. Cresci num ambiente em que não era exceção ser boa moça. Era isso que se esperava. Minhas amigas eram ingênuas como eu. Meus namorados sempre foram respeitosos. E, claro, isso afeta a maneira como escrevo. Não há muitos caras ruins em meus livros, e até eles têm algo de bom. Porque, para mim, a história é sobre a liberdade de fazer escolhas. Essa é a metáfora.

ÉPOCA – Desde o início, a idéia era fazer uma saga de quatro livros ou foi uma exigência comercial?
Stephenie –
Não. Fechei um contrato para escrever determinada quantidade de livros, mas tinha toda a história mapeada na cabeça desde o começo. Seria impossível contá-la de uma vez. Um livro de 2 mil páginas (risos). Mas, desde que descobri como é excitante escrever uma história, não consigo parar.

ÉPOCA – Como explicar o frenesi do público com a série?
Stephenie –
A personagem de meu livro, Bella, é uma garota como outra qualquer. Não é uma heroína, não quer ser a garota mais famosa nem ter roupas descoladas. É uma adolescente normal, com problemas familiares e sentimentais. Acho que isso chama a atenção, porque na literatura existem poucas garotas normais. E ela é boa e genuína. Para mim, os adolescentes são desse jeito. Pelo menos eu costumava ser.

ÉPOCA – É verdade que a senhora nunca viu filmes de vampiros nem sequer leu Drácula, de Bram Stoker?
Stephenie –
Sim! Eu acho nojento (risos). Vi trechos do filme Entrevista com Vampiro, certa vez, mas não pude ir até o fim. Não assisto a filmes impróprios para menores, o que reduz totalmente a chance de ver filmes de terror. E nunca li Bram Stoker. Pretendo ler um dia, mas acho meio assustador.
A saga vampiresca em detalhes
1 – Crepúsculo
Quando se muda para a minúscula cidade de Forks, Bella Swan conhece os irmãos Cullen, um clã de vampiros que não ataca humanos. A moça se apaixona por Edward Cullen, que vive o dilema entre beijá-la e devorá-la.
2 – Lua Nova
Edward se afasta de Bella para mantê-la a salvo dele e de sua família. As memórias do vampiro-galã atormentam a mocinha. Deprimida, ela se aproxima de Jacob, um lobisomem inimigo dos Cullens disfarçado de colegial. Agora, Bella não sabe para quem torcer.
3 – Eclipse
Uma série de assassinatos misteriosos assola a cidade, “uma vampira” do mal quer vingança, e a dúvida entre ficar com um vampiro e um lobisomem mantém Bella atormentada. Tudo a poucos meses de sua formatura.
4 – Breaking Dawn
O enredo é um segredo bem guardado pela editora. Stephenie garante que será o último livro da série. Quer dizer, antes do próximo. “Será o último narrado com a perspectiva de Bella”, diz a autora, deixando o tampo do caixão aberto às continuações.
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI8345-15220-1,00-UM+SONHO+MILIONARIO.html
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1 Response to “Um sonho milionário”


  1. 1 Countess
    janeiro 9, 2010 às 7:52 pm

    Gostaria apenas de parabenizá-la pelos seus talentos e dons,parabéns por ser uma mulher sud…realmente seus livros são de alto nível….Sucesso


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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