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O grande esforço para acabar com o livro

livro-enterrado

 

Matéria publicada no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, do dia 11 de outubro de 2009, na página J3.

O grande esforço para acabar com o livro

O e-book nem pegou e já inventaram o Vook, que agrega videoclipes e dramatizações à narrativa. Que chatice…

Sérgio Augusto

No dia em que o novo best seller de Dan Brown chegou às livrarias no Hemisfério Norte, a versão eletrônica vendeu bem mais que a edição impressa. Os corifeus do e-book e a própria Amazon, empório exclusivo do Kindle, o iPod dos livros digitais, só não festejaram a auspiciosa largada por mais tempo e com mais estardalhaço porque, no meio da corrida, a versão impressa de “O Símbolo Perdido” fez uma ultrapassagem espetacular e fechou a semana com vários corpos de vantagem. Dos primeiros 2 milhões de exemplares vendidos, apenas 100 mil eram e-books. A indústria editorial ainda depende mais de tinta, celulose e cola do que supõe a vã tecnofilia.

Mas ela vai mal das pernas como, aliás, quase todos os negócios que dependem de papel, gráfico e letras que não sejam de câmbio -, e só os exageradamente otimistas acreditam que a salvação esteja nos e-books. Como eles não responderam por mais de 1,6% dos livros vendidos no primeiro semestre deste ano, melhor esperar sentado. E rezar para que as futuras gerações, seduzidas pelo novo gimmick eletrônico, tenham menos preguiça de ler, maior capacidade de concentração e mais vontade de crescer espiritualmente. Mesmo eletrônico, um livro destina-se, basicamente, à leitura.

Em 19 de novembro faz dois anos que a Amazon lançou o kindle. A última versão (mais delgada, tela de 15 cm, teclas angulares) custa US$ 259 (R$ 460), um pouco mais em conta do que a versão original (que em junho não saía por menos de US$ 359), ainda assim um hardware caro, um capricho conspícuo. Um iPod não é baratinho, mas armazena e reproduz música, acumula os proveitos de um aparelho de som, de um toca CDs e de um walkman, ao passo que um e-reader, bem, o homem nunca precisou de um aparelho para ler livros, certo?

Ainda que a leitura digital viabilize algo de fundamental importância – a possibilidade de se navegar qualquer texto, à procura de trechos, palavras, até letras e vírgulas, a remissão total e absoluta – e concretize o sonho de se ter, literalmente, à mão e em qualquer lugar uma biblioteca inteira, seu custo desanima. Um estudo da Forrester Research estimou que o-reader só será um sucesso avassalador quando custar menos de US$ 100.

O kindle não é o único artefato de leitura digital de livros e demais impressos disponível na praça. Com ele concorrem, entre outros, o Sony Reader (mais barato: US$ 199) e o holandês iRex (mais caro: US$ 399), mas 45% do mercado já lhe pertencem. Esta semana a Amazon ampliou seus domínio, oferecendo os serviços do seu e-reader para mais de cem países, entre os quais o Brasil.

Mais cedo do que se esperava, portanto, os brasileiros podem não usufruir o que antes era privilégio dos americanos: baixar livros da Amazon em 60 segundos (ao preço médio de US$ 9,99, cerca de R$ 18) e publicações estrangeiras, direto na versão internacional do kindle, só diferente da americana do que diz respeito à tecnologia de transmissão de dados, aos cuidados da AT & T e seus parceiros internacionais. As primeiras encomendas começarão a ser expedidas de Seattle daqui a oito dias.

Seu catálogo de livros ultrapassa os 300 mil títulos, mais 85 jornais e revistas por assinatura. Todos, por enquanto, em inglês, à exceção do jornal carioca O Globo, o pimeiro da América Latina a aderir ao kindle. As editoras Bloomsbury, Hackette, HarperCollins, Lonely Planet e Simon & Schuster integram o pool montado pela Amazon, que ainda espera a adesão da Random House. Das editoras brasileiras, a primeira a aderir será a Ediouro, que até o fim do ano terá 500 dos seus 10 mil títulos em kindle, completando o serviço no prazo de um ano.

A eventual consolidação do modo digital de consumir livros como quem acessa um smart phone pode até resultar na redenção do hábito de leitura, especialmente entre os jovens, mais não livrará a indústria editorial da praga da pirataria, da napsterização do livro. Corsário à espreita é o que não falta. Há um site suíço, Rapidshare, especializado em baixar literatura de graça na internet; já pegaram nele 102 cópias da versão e-book de “O Símbolo Perdido”. Os bucaneiros atacam onde dão sopa. Já devem estar de olho no vook.

Vook é a última palavra em e-book, o livro digital com imagens, o book eletrônico televisivo. Um empresário do Vale do Silício, Bradley Inman, teve a idéia, a Simon & Schuster perfilhou-a e o híbrido multimídia foi posto recentemente à venda a US$ 6,99 o “exemplar”. Tem texto, videoclipes, narrativas ilustradas por dramatizações semelhantes às de uma telessérie e pode ser baixado por qualquer navegador em desktops, laptops, netbooks, smart phones, mas não em e-readers. Ou seja, no kindle um vook não entra. Faz sentido, pois Inman o criou com o intuito de cobrir as deficiências do e-reader, todos enfadonhamente desprovidos de imagens, capas bonitas, fontes atraentes e de mais encantos gráficos do livro impresso.

A oferta ainda é podre; a bem dizer, paupérrima. Até agora, só quatro vooks foram lançados: um de dieta e ginástica para mulheres; um romance água com açúcar de Jude Deveraux; e um thriller curto de Richard Doetsch, intitulado “Embassy”. A julgar pelos trailers, só os dois primeiros têm alguma utilidade e não ofendem a velha arte de se contar uma história com engenho, imaginação, palavras bem escolhidas e imagens expressivas. Como os bons livros de todo o sempre. Que, além do mais, guardam um cheiro, misto de tinta, cola e míldio, que nenhum e-book é capaz de emular.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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