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O doce mel que escorre da cidadania

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Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo, no Caderno 2 no dia 7 de agosto, página D6.

O doce mel que escorre da cidadania

Identidade, racismo e abandono são os temas de “A Vida Secreta das Abelhas”.

Luiz Carlos Merten

Existem coisas que simplesmente têm de ser. Gina Prince-Bythewood que o diga. Contactada para dirigir a adaptação do romance “A Vida Secreta das Abelhas”, de Sue Monk Kidd, ela não apenas não leu o livro nem o roteiro como ficou quase três anos empurrando o projeto. Quando os produtores desistiram dela e anunciaram que estavam fazendo o filme com outro diretor, Gina finalmente se sentiu tentada a ler o livro. Foi uma revelação. “Tudo o que eu queria dizer sobre mim, nem falo do mundo, estava no livro. Bateu-me o pânico de ter perdido a oportunidade de minha vida. Felizmente, consegui retomar o projeto”, ela conta numa entrevista por telefone. “A Vida Secreta das Abelhas” estréia hoje nos cinemas brasileiros. O livro de Sue Monk Kidd também acaba de chegar às livrarias. Poderá ser uma dupla descoberta. Leia o livro e veja o filme (e vice-versa).

É a história dessa menina – branca – que mata a própria mãe e leva uma vida miserável com o pai. As circunstâncias da morte foram as mais inesperadas. A mãe havia se separado do pai. Voltou, mas já estava com a mala pronta para partir de novo. Houve uma briga, a filha ainda menina, disparou acidentalmente na mãe e o pai lhe fez crer que ela estava fugindo dos dois. Como uma menina consegue crescer com este duplo peso, esta dupla tragédia na consciência – o de ser a assassina da mãe que a estava abandonando? O filme mostra a acolhida que ela recebe numa casa habitada por negras. Ela não confessa sua origem a essas irmãs que, no princípio, se dividem entre recebê-la ou não. O filme lembra um pouco “Tomate Verdes Fritos”, que foi um grande sucesso independente por volta de 1990. “Conheço este filme, mas nunca pensei nele nem achei que fosse uma referência. Agora que você está falando, percebo que tem pontos em contato. A história gerencial, a afirmação das mulheres num universo masculino, o próprio racismo. Mas aqui a questão racial é muito mais forte, embora minha aproximação com o texto de Sue tenha sido sempre no sentido de fazer com que essa história não fosse só sobre racismo”.

Gina é adotada. Afro-americana, foi adotada por uma mãe de origem salvadorenha e um pai branco. No seio dessa família, não é difícil compreender porque a questão da identidade tenha sido sempre tão forte para ela. Houve um momento que Gina quis procurar sua mãe biológica. Sua identificação com o livro de Sue Monk Kidd vem muito daí. O repórter reclama de um ponto de vista. O filme adota o ponto de vista feminino. Como homem, ele não pode deixar de se identificar com o pai – esse pai miserável que amou a mulher e foi por ela abandonado, transferindo para a filha a carga da rejeição e a responsabilidade pela morte – pelo assassinato que, no fundo, num determinado momento, ele queria cometer. “Entendo o que você quer me dizer, mas, sinceramente, acha que o pai era um personagem muito mais negativo. Tentei relativizar sua posição o máximo possível. Até pelo que sofri na minha vida, e Sue sofreu, creio que um filme coral, dando voz a todos, é o caminho mais honesto”.

“A Vida Secreta das Abelhas” mostra o racismo nesta cidade sulista. O garoto negro, surpreendido com a jovem branca no cinema, é seqüestrado. “Cresci ouvindo essas histórias de brutalidade. A integração racial foi um processo muito difícil nos EUA, que o próprio cinema se encarregou de documentar”. Como é ver seu filme nos cinemas justamente no momento em que um negro está instalado na presidência dos EUA? “Não digo que seja mais fácil recuperar essas histórias hoje em Cia, embora seja, claro. Mas eu acho que o fato de Barack Obama estar hoje na presidência reforça uma idéia forte de “A Vida Secreta das Abelhas”, a cidadania. O filme pode falar de muita coisa. Linguagem, sentimentos, família, identidade, responsabilidade, mas a questão da cidadania sempre me norteou. Acredito que só ela poderá criar um mundo melhor”.

Foi difícil conseguir a adesão de atores como Queen Latifah, Dakota Fanning, Jennifer Hudson e Alicia Keyes? “Esse filme deve muito a elas. É dela, tanto quanto meu ou de Sue. Vou lhe dizer uma coisa. Ninguém fez “A Vida Secreta das Abelhas” para ganhar dinheiro. Queen como uma verdadeira rainha, abriu mão de projetos mais rentáveis e trabalhou pelo mínimo somente para viabilizar a produção. Foi um filme feito com amor, por gente que acreditava no projeto. Isso aumentou meu empenho. Não podia errar e comprometer tanta dedicação”. Um dos aspectos mais belos do filme refere-se ao muro que a personagem vivida por Sophie Okonedo (May Boatwright) constrói no jardim da casa. Ali ela expressa toda a sua dor pela injustiça do mundo. “O muro está no livro e, claro, não podia faltar no filme. É fácil pensar no Muro das Lamentações, em Jerusalém. É o nosso muro das lamentações. Mas o tom do filme não é de lamento nem de fatalidade. Apesar de tudo, de toda a dor, há um arco dramático, uma evolução. Não creio que o cinema deva passar necessariamente uma mensagem, mas espero que cada um veja em “A Vida Secreta das Abelhas” o registro de um crescimento. Nada mais oportuno, na América e no mundo atuais”.

 

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1 Response to “O doce mel que escorre da cidadania”


  1. novembro 12, 2009 às 3:04 pm

    Obrigada! 🙂
    Espero que goste e siga a história.


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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