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Ser mais leitora que escritora – Parte 3

  • Para você há uma política nacional de leitura?

Quando você fala de mercado de livros, está falando não só de literatura, mas de didáticos, paradidáticos, livros de má qualidade, tem de tudo. Para quem trabalha com leitura, com livro, está atualmente bastante claro que a leitura é o fator civilizado por excelência e que o Brasil não se tem ocupado disso. Pessoalmente, considerado que há uma dupla mensagem a esse respeito. Por um lado, as autoridades dizem que querem muito estimular a leitura, que há muito interessante. Mas quando se vai levantar dinheiro para realizar os grandes projetos de leitura de que o país precisa, ouve-se que não há recursos. A leitura é um assunto interministerial. Você terá uma melhor enfermeira na medida em que ela for leitora, porque ela vai poder decodificar desde a bula do remédio, até a ordem do médico; vai também participar melhor de cursos… Mas se você for lá e disser que quer dinheiro para a leitura, ouvirá que não há leitos nos hospitais. Ou seja, a leitura nunca é uma prioridade. Isso significa que não se acredita que ela seja uma alavanca para vencer nosso problemas de base. Acredita-se, então, que depois que houver leitos nos hospitais, depois que se tiver resolvido o problema do supercrescimento da população, da Aids, então, surge o dinheiro para a leitura. Aí não precisa mais, pois já se resolveu tudo. O país está ótimo, a questão são as políticas públicas… Os países desenvolvidos foram leitores antes, e não depois de se desenvolverem. É simples, não há como se furtar às evidências.

 

  • Em geral, o que você lê?

 

Sou muito desordenada com minhas leituras. Normalmente tenho nas mãos um ensaio ou dois. Gosto dos de comportamento. Leio sempre um ensaio e uma ficção. Leio romances, os livros escritos pelos amigos, mas o que me balança o coração é a leitura breve, o conto. Sempre gostei de contos, poesia e literatura fantástica. Gosto tanto que tenho vários livro que não li. No momento, não estou escrevendo, por isso não leio nada dessas coisas “fermentantes”, para não desperdiçar. Leio Carlos Heitor Cony, biografias, história e outras coisas.

O que mais me atrai na literatura é o segredo da concisão, a rapidez e o mundo das idéias. Porque o conto vive de ter idéias. No momento, participo do júri do prêmio Cruz e Souza, na categoria conto. Estou muito triste, pois a maioria que se inscreveu até gastou dinheiro para tirar cópias, mas não sabe o que é conto.

Visivelmente, três ou quatro que se inscreveram nesse concurso não são leitores. Mandam novela, coisas que sequer pertencem ao gênero. Não sabem o que é o gênero. Muitos são contadores de “causos”. Acham que tudo que uma pessoa conta é conto. É uma população de não-leitores. Às vezes, fico me perguntando se esses – que não ganharão jamais prêmio algum – não teriam sido escritores se tivessem sido leitores. Dói o coração. E se tivéssemos trabalhado eles antes?

Nisso, a escola tem um papel importantíssimo. Resta saber como ela desempenha essa função. Só um professor-leitor apaixonado pode transmitir a paixão pela leitura. Não há a possibilidade de fazer de outra maneira. Em vários seminários em que estive – como o da escola Dante Allighieri, em São Paulo – ouvi dos próprios professores que eles não são leitores. Todas as experiências bem sucedidas de leitura com crianças, de que tomei conhecimento nesses seminários, foram com professores apaixonados. Quando digo que não lêem, falo até do jornal.

Além disso, eles não têm livros circulando nas mãos. A primeira coisa que alegam é não ter dinheiro para comprar livros. Mas não fazem clubes de leitura, entre três, quatros professores, não vão a bibliotecas. E também não têm tempo para ler. Mas toda vez que ouço dizerem que não têm tempo, eu me lembro do meu médico, Pedro Henrique Paiva, que trabalha como escravo, um mouro, mas é um dos maiores leitores que eu conheço. Você diz que um livro saiu e ele sabe, está lendo, leu, comprou, vai ler ou encomendar. Você vai à livraria e esbarra com ele. Então, não é questão de não ter tempo. Você faz o tempo. No Brasil, você viaja de avião e, se houver alguém lendo, deve ser um gringo, que está lendo um pocket-book. As pessoas viajam olhando para a frente. Três horas olhando para a frente. Quando a gente entra num táxi e o motorista está lendo enquanto espera no ponto, dá vontade de beijá-lo! O ascensorista que lê apertando os botões… “Ah! Meu querido!” Que lindo esses elevador!

  • Alfabetização, para você, é sinônimo de leitura?

Leitura é uma coisa e alfabetização é outra. No Brasil confundem-se as duas. Acham que resolvendo o problema da alfabetização estão solucionando o da leitura. Mas não estão formando leitores e sim pessoas mal e mal alfabetizadas, que às vezes não têm capacidade de ler, mas não realizam a leitura como prática cultural. Ela não está em seu cotidiano. Entra-se nas casas da classe média brasileira e não há livros. A estante é o móvel principal da sala de qualquer brasileiro, do favelado ao príncipe. Mas muito poucas têm livros. Servem para a televisão, um versinho de louça com uma rosa de plástico, ou um bibelô mais caro, dependendo do nível econômico. E os livros? Não são um valor.

  • Você faz intercâmbio com seus leitores?

É triste, mas não tenho com eles um intercâmbio constante. Meus companheiros de profissão não me mandam livros e eu também parei de mandar. Acompanho apenas as coisas mais importantes.

  • E as visitas às escolas?

Faço muito poucas. Tenho prazer em falar a professores mas, para crianças, a essa altura da minha vida, acho que é tempo perdido. Fui agora a São Paulo, sem ganhar um tostão, para falar para professores na escola Dante Allighieri. Achei uma maravilha juntar trinta professores para uma conversa. É útil. Fora isso…

  • Fale um pouco sobre o mercado do livro infantil…

Trocando idéias com Ziraldo, amigo da vida inteira, percebo que o mercado de literatura infantil, como o de adultos, é invadido pela má qualidade, só que de maneira mais séria. Tirando-se dez, quinze pessoas, o resto é um terror, um nada. O mercado abrange uma massa de livros que são meros objetos; e para seus autores, a vida é muito boa. É como um tapete vermelho: comprar governamentais, adoção nas escolas, nível de julgamento baixíssimo (porque os professores não são preparados para fazer avaliação). A venda é feita pelo representante das editoras. É muito fácil a vida dessa massa de má qualidade, que não chega sequer a ser literatura do tipo “passarinho-que-quebrou-a-pata-e-é-solto-da-gaiola-pela-menininha-e-uma-lágrima-rola”, aquelas coisas… A literatura vem depois: para ela a vida é muito dura e não há espaço na mídia. Ela sofre uma redução brutal nos catálogos: quando você vê as cinco linhas a que fica reduzido o livro, quer matar o autor do catálogo. E ele ainda põe uma faixinha dizendo: “solucionando o problema da primeira morte; como lidar com as diferenças”. Sabe a redução da redução da redução? Assim são os catálogos, com nível de diferenciação baixo para que os professores não saibam como escolher o melhor. O livro no Brasil é igual a espaguete, entra na gráfica duro, rígido, bonitinho para as primeiras edições e depois fica como a edição de “A mão na massa”, já cortada, sem as datas de minha vida.

Ainda bem que, faz alguns anos, está havendo possibilidade de apreciação da literatura infantil em universidades, como pós-graduação, doutoramento, etc. nessa área. Outra coisa: os prêmios da Fundação Biblioteca Nacional são importantes, porque já são reconhecidos inclusive pelos professores. No resto do mundo, os livros premiados passam a ter um selo dourado e nas livrarias há estantes onde está escrito: “Livros infantis premiados”. Se você quer dar um livro de presente é só ir lá. Aqui, consideram o selo muito caro. Então, na página de dentro, talvez esteja escrito, em letras pequenas, o prêmio ganho pelo livro. Quer dizer, jogam o prêmio pela janela. Não se emprega o raciocínio: o selo custa R$0,05, porém aumenta as vendas em muitas vezes.

  • Você também ilustra livros de outros autores?

Não faço ilustrações para mais ninguém. Isso me toma muito tempo. Tenho vários projetos de escrita. Faço minhas ilustrações porque sei que terei sempre uma visão gráfica privilegiada de meus livros. E tenho a impressão de que os desenhistas de minha preferência não estão disponíveis. Gostaria que fossem especiais para mim. Eu queria Grassman, Ensikat – que ganhou o prêmio Andersen de ilustração – e outros superferas internacionais, que levam cinco anos para entregar as ilustrações. De qualquer maneira, não sendo coisas muitíssimo especiais, eu mesma as faço. Eu acho que tenho adequação absoluta para isso.

  • E isso vem de sua ligação com as artes plásticas?

Sou extremamente ligada, e cada dia mais, em artes plásticas dada a minha origem. Meu avô, que não cheguei a conhecer, era crítico de arte com vários livros publicados. Um tio, irmão de meu pai, era cenógrafo e figurinista. Comecei a estudar artes plásticas (pintura) aos quinze anos. Depois diz Belas-Artes. Aprendia gravura em metal, quando resolvi ganhar a vida no jornal. Aí, não foi possível continuar. Voltei a pintar quando fiz as ilustrações de “Idéia toda azul”. Não sei vender, só pintar. Enquanto tive um marchand pintei, fiz exposições, vendia os quadros e era tudo o que queria da vida. Era o meu prazer. O mercado ficou inviável, o marchand mudou-se para a Bahia para fazer uma pousada, as galerias fecharam. Não sou uma pintora de vanguarda e nem de instalação. Sou aquilo que se chama, com certo desprezo, pintora de cavalete. Trabalho até com tinta a óleo, imagina! Todo mundo usa acrílico porque é mais fácil de lavar o pincel. Não havendo quem se ocupe com a venda, não posso pintar nem ter trabalho empilhados em casa. Parece conversa mercantilista. Van Gogh não vendia e pintou a vida inteira, mas era um gênio. E ele não escrevia. Eu escrevo. Então ou jogo tudo em uma área ou partilho em duas. Desta forma, minha vivência é muito intensa. Como posso viajar com certa frequência, minha felicidade são os museus, mas falar sobre isso, aqui, parece pedantismo.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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