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Um país melhor é um país de leitores – Ziraldo parte 5

É uma outra relação, não?

            É, mas eu acho que a nova geração, com a facilidade e a naturalidade com que mexe no computador, não terá esse problema… Eu não tenho a menor curiosidade pelas máquinas de hoje porque, ao escrever à máquina, o papel ia sendo escrito, eu abria a máquina e via que era uma coisa mecânica. O mundo ali era mecânico e aqui é digital. Quando digito no computador, não tenho a menor idéia do processo de impressão. É uma coisa que me desespera, porque não tenho mais tempo para saber.

Parece coisa de mágico, ninguém mais pergunta como as coisas funcionam, não é? Ninguém sabe nada. Você anda de avião e não sabe porque… Agora, Ziraldo, você já falou sobre isso milhões de vezes: quando te deu o clic de escrever para crianças, foi com “Flicts”?

            Sentir o livro, seu cheirinho de novo, era uma fascinação… Eu li tudo, Monteiro Lobato, Viriato Corrêa, Ofélia e Narbal Fontes, Mistério Magazine, X9, muito policial, todo mundo, até descobrir o gibi. Aí abandonei o livro, virei um expert em gibi. Mas sempre fazendo histórias em quadrinhos, minhas historinhas. Vim para o Rio ser desenhista de história em quadrinhos. Quando cheguei, vi que não havia uma produção, era uma coisa importada. Fui trabalhar em uma agência de publicidade, sempre escrevendo histórias em quadrinhos. Em 60 surgiu a possibilidade de fazer essas histórias na revista O Cruzeiro. Criei o Pererê, a “Turma do Pererê”, e durante cinco anos a revistinha vendeu muito: 150 mil exemplares, na época uma tiragem absurda. Em 64, a revista parou e eu fui trabalhar em publicidade (porque sempre vivi de publicidade, sou desenhista de agência).

            Em 69 surgiu O Pasquim e ali eu tinha vários personagens: Jeremias o bom, Supermãe… Então, eu levei o Jeremias para o editor Fernando Faro, da Expressão e Cultura, e ele perguntou se eu não tinha um livro infantil. O Fortuna e eu adorávamos um livro infantil europeu, muito bonito, e eu dizia: “Ah, um dia vou fazer um livro infantil”. Os cartunistas que nós gostávamos já tinham feito experiências com desenhos para crianças: André François, Utreé, Tomi Unguerer, todos esses caras, nossos modelos de desenhistas. Então, quando Fernando me encomendou o livro, embora não tivesse nada pronto, disse: “Te trago amanhã”. Tive que inventar o livro em três dias. Como é que eu ia desenhar um livro nesse tempo? Aí eu criei o “Flicts”, não tinha que desenhar…

            O livro foi um sucesso danado. Não fiz o segundo logo depois por causa do padrão que estabeleci com o “Flicts”. Fiquei muito intimidado porque o livro foi saudado como um marco na história da arte brasileira; as crônicas foram as mais exageradas. Drummond, todo os cronistas que eu conheço escreveram sobre o livro. Isso coincidiu com o Pasquim, a prisão de todo nós que lá trabalhávamos e a luta contra a censura. Nesse jornal concentrei dez anos de minha vida, de 69 a 79, brigando mesmo. Em 80 fiz o “Menino maluquinho”. Aí arrebentou de novo, que sucesso!

O “Flicts” foi uma crítica ao regime autoritário?

            O “Flicts” é uma crítica. É um livro todo velado, daquela cor que não tem na bandeira do Brasil. Nele as cores agem autoritariamente dizendo: “Não tentem alterar a ordem natural das coisas” (o que era um argumento deles, não?) Quer dizer: era uma busca de liberdade, de identidade, sem dúvida um dos êxitos do livro, que levava a uma segunda leitura. Ele fez sucesso entre os adultos exatamente por isso. Já entre as crianças, pelas outras razões. Mas não faço proselitismo (até brigo com Chico Alencar por causa disso e sugiro que pare com essa chatice de Direitos Humanos e Ecologia). Eu não faço livro didático, tenho pavor. Criança não quer essa coisa, ela se sente traída quando o livro tem uma segunda intenção, ela pau da vida: “ih, esse cara tá tentando me ensinar”, você entendeu? Para criança, livro é pra gostar, é pra ensinar a viver a vida mesmo.

Você também ilustrou livros de outros autores, não? Qual a diferença?

            Às vezes, quando tem graça, quando é significativo. Toda vez que alguém me pede pra ilustrar um livro, eu digo: “o segundo será o seu porque estou com dezesseis meus aqui na cabeça e não tenho tempo”.

Você fez algum livro com o seu filho?

            Fiz uma porção. E também com Drummond, Raquel, Fernando Lobo, Darcy Ribeiro, Chico Buarque…

Para você, qual a diferença entre livro infantil e juvenil?

            Acho que não existe livro juvenil, quer dizer, você não engana adolescente. Se ele gosta de ler, escolhe Júlio Verne, Moby Dick, The Catcher in the rye (“O apanhador no campo de centeio”), livro de sacanagem… Não vai ficar lendo essas coisas que a escola adota, como livros policiais. Ela utiliza esses livros porque estimulam, não esquentam a cabeça dos meninos. Marcos Rei e Pedro Bandeira fazem uma literatura leve, bem escrita, na qual há sempre uma gangue qualquer, que eles pensam ser literatura para adolescentes. Mas nessa fase, o menino se sente o dono do mundo, escolhendo o seu caminho, enfrentando a incompreensão geral e se afastando de qualquer estímulo não manipulado por ele. É muito difícil um livro influenciar um adolescente. Eu não conheço nenhum que tenha mudado a vida de um deles. Mesmo assim, escrevi um livro, “Vito Grandam”, cujo personagem é um adolescente. É um romance seríssimo foi até traduzido para o italiano e o francês.

E em relação às editoras, você se concentra mais na Melhoramentos?

            Sim. Agora descobri que escrevo para o “núcleo familiar’. Meus grandes leitores são a mãe e o pai, essa família de que falei, que conversa na hora do almoço, que eu vejo nas feiras, na Bienal de São Paulo. É fantástico, uma das maiores emoções da minha vida é ver as famílias, com os filhos, nas minhas noites de autógrafos. Desde a primeira vez, com o “Menino Maluquinho”, 20 a 30% dessas famílias dizem: “Ziraldo, estamos aqui de novo! Olha como o menino cresceu! Lembra?” E pelo menos umas dez famílias trazem um livro, autografado por mim em 80, e eu só vou dando “Visto”, “Visto”… Aí tiram uma foto, me pedem que autografe uns retratos antigos, eu ainda de cabelo preto, com o menino em cima da bancada para ver melhor (o mesmo cara que hoje tem um metro e oitenta).

            A mudança da Bienal de São Paulo para o Shopping Norte, há dois anos, afastou essas famílias, mas este ano algumas já voltaram, como por exemplo o pessoal do Ibirapuera, uns japoneses, uma família de negros (que veio com os meninos e comprou meu livro “Menino Marrom”…). É impressionante!

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1 Response to “Um país melhor é um país de leitores – Ziraldo parte 5”


  1. 1 gabriel
    junho 30, 2010 às 12:16 pm

    ziraldo eu gosto
    muito de voce e queria que voce me deçe revistas suas ou livros eu adimiro muito voce e seus livros ,eu me chamo gabriel tenho 9 anos gosto muito de ler seus livros ,quando eu crescer quero ser um escritor ingual a voce .


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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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