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Um país melhor é um país de leitores – Ziraldo parte 1

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Pedro Benjamim Garcia e Tania Dauster organizaram o livro “Teia de autores” (lançado  em 2000 pela Autêntica Editora) após reunirem uma série de entrevistas com grandes autores nacionais de livros de temática infanto-juvenil, entre 1996 e 1997.

A entrevista que será postada hoje foi feita com o desenhista de humor cartunista, jornalista, advogado, autor teatral e escritor para pequenos e grandes, Ziraldo.

“Eu não faço livro didático, tenho pavor. Criança não quer essa coisa, ela se sente traída quando o livro tem uma segunda intenção, ela fica pau da vida”.

Qual é a importância da leitura?

Acho que a um dos caminhos para um país melhor é fazer dele um país de leitores. O pior é que agora, na era da informática, você vai deixar cada vez mais o sujeito entregue à globalização, ao comando de quem tem mais poder mesmo, a essa terceira coisa colocada na velha dicotomia capital/trabalho: a informação. Os caras que tinham o capital acrescentaram a informação, e quem tinha o trabalho se deu mal: ficou dois a um. Ninguém percebeu que o capitalismo, pela informação, arrasou com a hipótese da esquerda. E ainda mais com uma velocidade dessas… se um povo não lê, fica muito longe das grandes nações do mundo e fica mais perto das tragédias.

Você vem, há muito tempo, desenvolvendo a formação do leitor…

É a pergunta que mais me fazem nas escolas: como é que eu faço o meu aluno gostar de ler, como transformo meu aluno num leitor. Acho essa discussão bastante interessante.

Aquele slogan “Ler é mais importante que estudar” teve repercussão?

Muita, muita; esse meu livro, “A professora maluquinha”, balançou mesmo o negócio. Além do filme produzido pela TV Educativa, umas doze peças de teatro estão sendo, nesse momento, encenadas no Brasil e as professores estão muito abaladas, quer dizer, as professoras que têm acesso à informação. A grande maioria das professoras brasileiras nunca leu um livro na vida. Assim não adianta fazer manual de instruções para elas, pois não vão saber ler. Sem monitoramento, não se consegue resolver a questão da educação. Helena Antipoff – discípula de Claparède, que Getúlio mandou buscar na Suíça para fazer uma reforma no ensino em Minas – quando viu a escola do interior, disse: “não tem saída”. Aí ela preparou 150 mocinhas de 19 anos como missionárias e mandou uma para cada cidade do interior para conversar com a professora. Deu uma rebordosa no ensino. Eu peguei essa época, sou fruto da revolução de Helena Antipoff. Minha escola foi absolutamente estimulante: tinha muita dramatização, leitura, muito Monteiro Lobato, que era proibido pela Igreja. Era muito engraçado.

Você considera, como muita gente, que a escola atrapalha a relação do aluno com a leitura?

Sim. Eu ficava de castigo na biblioteca por estar lendo gibi, Monteiro Lobato, qualquer coisa na sala de aula e não prestar atenção à professora. “O que você ta lendo ai?” e ela tirava o livro da gente. Eu até contei isso na Professora maluquinha…

Você acha que é possível fazer uma escola não tão repressora, sem horários determinados?           Não, não é possível, claro. Inclusive Summerhill foi um fracasso. Não há um ex-aluno dessa escola que se tenha destacado; quer dizer, o diretor Neil disse que não ia fazer ninguém se destacar e que ia fazer um monte de gente feliz. Mas também não vi depoimento de nenhum ex-Summerhilliano dizendo que foi feliz. Acho que isso fundiu a minha cuca com meus filhos porque eu era muito summerhilliano quando jovem. Mas criança precisa, fundamentalmente, de limite. É preciso lembrar o seguinte: toda vez que se é justo, não há traumas. É preciso ter um critério geral de justiça; mas quando der uma palmada em seu filho porque ele mereceu, não causará trauma de jeito nenhum. Agora, você não pode é castigar o menino que quebrou o vaso, pois ele já foi punido por ter feito isso e já entrou em pânico. Aí você dá uma porrada nele e ele fica danado da vida com você. Mas ele só aprende isso depois da porrada. É preciso lembrar das suas razões infantis, não é? Mas, sem disciplina, não tem solução.

O que é gostar de ler?

É vocação, igual a pintar, cozinhar… A grande palavra é “curiosidade”; inteligência é curiosidade. A maioria dos seres humanos nasce sem surpresas, sem questionamentos em relação ao mundo; tudo está aí, deve ser assim mesmo. Já outros nascem e querem saber mais.

Na infância tem a fase dos “porquês”, você repara que a criança perguntadora é mais inteligente, inquieta, criativa, a mais tudo. A curiosidade é importante porque, de qualquer maneira, é um mistério essa coisa da vocação.

Descobri isso ao longo da vida: tem menino que “nasce com livro debaixo do braço” e quando vê o “objeto livro” fica fascinado. Não me lembro de ter acontecido isso comigo, mas o Baden Powell me contou que, quando tinha uns seis, sete anos, estava indo para a escola e passou na casa de um vizinho novo. No quarto dele tinha um violão pendurado na parede em cima da cama. Baden olhou para o violão e disse: “O que é isso?” O cara disse: “é uma coisa que toca”; e começou a tocar para o menino que, maravilhado, disse: “eu posso tocar?” O vizinho disse: “pode”. E aí ele não foi mais à aula, fugia de casa, encheu tanto o saco do cara para tocar que ele lhe deu o violão porque ele é igual ao menino do canarinho. É uma coisa misteriosa, que acontece também em relação ao livro.

A lembrança mais antiga que tenho na vida está numa foto com meu irmão, na qual eu tinha uns 5, 6 anos e estava com um livro na mão. Minha mãe, na hora de tirar o retrato, disse: “traz o companheiro dele”, e alguém perguntou: “que companheiro, Zizinha?” Ai, eu disse: “meu livro”. Quer dizer, ele era meu companheiro, devia ser o meu brinquedo preferido. Eu me lembro que ele foi todo colado com grude, só a capa estava bonitinha. Quando eu abri, mamãe tinha colado o livro de cabeça para baixo, aí eu peguei, virei o livro e ela falou: “Ta de cabeça pra baixo”. E eu respondi: “mas dentro, ta de cabeça pra cima”.

Seu irmão da foto é Zélio?

É o Ziralzi, entre mim e o Zélio. Dos quatro irmãos homens, foi o único que não seguiu esse caminho.

Todos com Z, Ziraldo?

            Não. Ziraldo, Ziralzi, Zélio, depois vem Maria, Maria Elisa, Maria Elizabete, depois Geraldo. Eu sou artista, Ziralzi é vendedor, Zélio é artista, Maria – a Santinha – e Lelena são professoras, Bebete é pintora, Geraldinho é designer. Então, são quatro irmãos artistas. Agora, os vinte e dois netos de meu pai são todos artistas, não tem nenhum útil (risos). Tudo é designer, ator, pintor…

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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