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Um país melhor é um país de leitores – Ziraldo parte 2

Então você acha que tem essa coisa do imponderável e também do familiar…

Talvez sim. Daniela, minha filha mais velha, nasceu com o dom da linguagem. Já Fabrícia e Antônio não se interessavam pelo “objeto livro”. Não tinham essa coisa de comer lendo, né? Minha neta mais velha, é impressionante… ela não quer saber de brinquedo, ela quer é livro, ela mexe com livro… a menina da Daniela, também. Isso é que quero contar: se a casa está cheia de livros, se a família convive com livros, isso não vai fazer da pessoa um leitor porque minha casa sempre foi assim e Antônio e Fabrícia não atravessam o livro com a mesma facilidade da Daniela. Se você não leu facilmente quando era criança, vai ser um leitor lento, sofrido, e não um leitor prazeroso. Por isso, a primeira coisa na infância é possibilitar a máxima convivência possível com o livro.

Tanto na família quanto na escola?

Não, da escola a gente fala depois. Pelo que observei, dar muito livro de presente, ler histórias para as crianças, é por aí. “Que livro eu vou dar pra criança?”Qualquer livro que você levar, pode ler que ela vai ficar quietinha, vai ouvir até “Os irmãos Karamazov”. Não existe história infantil se você lê para a criança. A sua voz, lendo livro para ela, é que vai interessá-la na história. A grande literatura européia para criança era chamada de bedtime story, a história da hora de dormir. Não havia – e não há – criança no mundo que consiga atravessar um clássico da literatura infantil européia. É o adulto que lê para a criança porque os livros são chatérrimos. A pequena seria, por exemplo, tem uma segunda parte insuportável, com uma filosofia barata, negócio de mar, espuma do mar… agora, com a mãe lendo para a criança, ela fica três dias ouvindo porque o negócio é a voz da mãe, o que é bom.

Um dia, minha filha caçula, Fabrícia, estava lendo uma história para sua filha Nina, com oito ou nove meses. Aí eu falei “Minha filha, pirou? Ta lendo uma história para um bebê?”. Ela falou: “Não, papai, prefiro contar uma história do que cantar música, que ela vai ouvir o tempo todo. História, ninguém vai ler para ela, só eu. Não que ela entenda agora, mas eu fico contando histórias e ela fica caladinha e dorme”. Aí eu falei: “Ah, bom! Mas você pode inventar uma história, não precisa ler”. E ela disse: “Não, não, eu estou com o livro aqui para ela saber que essa coisa agradável sai desse objeto, o que é motivador…”.

Acho que essa coisa de ler para o filho desde cedo, no berço, vai ajudar muito a criança a descobrir o prazer da leitura. Depois, vem a escola, e acontece o aprender a ler, a descoberta do caminho da leitura, que dá prazer a qualquer criança, mesmo às não-curiosas. Se você fizer uma pesquisa, vai ver que às vezes é muito difícil querer ir à escola…

Sair de casa para ir à escola às vezes traumatiza muito a criança, mas quando ela começa a conviver com os amiguinhos, a idéia de escola, em torno de seis, sete anos, é maravilhosa. Agora, uma diferença muito grande entre o lar e a escola perturba um pouco a criança. Hoje a preocupação com a leitura na escola básica é da UNESCO, é do Banco Mundial, é universal. Por outro lado, há um projeto chamado Book’s Route, que dá dinheiro a rodo pro negócio de livro: o cara faz um milhão de livros para a África, e lá tudo some, vira papel higiênico… Um relatório do Banco Mundial chegou à conclusão de que isso é um absurdo mas agora mesmo vendeu-se um milhão de exemplares para a Bolívia, inclusive tinha livro meu, em seis línguas de índio, financiado pelo Banco Mundial. Não tenho a menor informação sobre o que aconteceu com esses livros. É emocionante esse negócio de eu ser escrito em quéchua, guarani, macua, macuxi… até em esperanto. A Igreja Católica não tinha avião, televisão, não precisava gastar esse dinheiro todo; então o negócio era olho no olho, mandava um missionário pra lá, fazia um livro só, valia a pena. Quanto custam cem mil livros para uma aldeia? Se hoje dá para pagar um sujeito para ficar um ano lá, com a família e um exemplar do livro, conversando com os meninos, então…

Você está dizendo uma coisa interessante: apenas enviar os livros não é uma política adequada…

Não, vão jogar fora. Essa coisa só vai ser possível como missão, com monitoramento de um missionário. Eu me lembro de Dona Glorinha, uma das moças preparadas por Helena Antipoff e que foi enviada para minha cidade. Ela causou uma briga entre seu partido, o Republicano, e o pessoal do PSD, que mandava na política local. Acabaram expulsando a pobre mulher, mas ela fez uma revolução no Grupo Escolar. Outra coisa: a escola não deveria distanciar a criança do prazer da descoberta da leitura. Quando a criança ainda não tem formação de leitura, começa a estudar sintagmas, funções do adjetivo, um exagero. Até eu dancei. Não tem que dar especialização à criança, ela tem que dominar o código de leitura com prazer. A escola teria que se concentrar mais nesse assunto, que também é discutido nos Estados Unidos e na França.

É uma Essa discussão está chegando aqui…

Mas esse não está sendo um debate sério. Por exemplo, a Emília Ferreiro, com esse negócio de construtivismo, fundiu a cuca da educação brasileira. Agora, ela mesma diz: “Eu não gosto do Brasil, porque tem até PT construtivista. Eles não entenderam nada do que falei. O construtivismo não é um método de alfabetização”.

É uma apropriação rápida, fizeram isso também com o Paulo Freire. Você tem um método e quer aplicar rapidamente.

Elas estão loucas atrás de uma resposta para a sua angústia. Então você vem com o Paulo Freire, “ah, é isso!” Você vem com a Emília Ferreiro, “ah, é isso!”…

Acho que uma das soluções é preparar a escola; os métodos surgirão. Outro ponto: deve-se concentrar toda a atividade inicial da escola no domínio do código. Eu chamo de plena leitura escrever tudo o que você quer dizer e ler tudo o que você precisa; e isso em quatro anos ou menos. Se você só se dedicar a esse mister, a criança lê e escreve aos dez anos, com desenvoltura; aos doze, ela já é gênio, porque é a idade em que tudo fica. Todos os sonetos que eu sei de cor (o de Camões, “Alma minha gentil que te pertistes”, um outro, de Machado de Assis) aprendi com dez, doze anos, mas depois, pelejei pra decorar sonetos novos e não consegui (não estou dizendo, é claro, para decorar uma porção deles)….

E a questão da oralidade, de contar histórias, na sua família, na sua cidade…

Eu tinha um tio que contava histórias e isso ajudou muito. Um dos projetos que eu acalento é preparar o contador de histórias para acompanhar aquele monitor. Eu descobri o seguinte: um contador de histórias (o negócio é olho no olho) dá de dez a zero numa peça de teatro ou programa de televisão. No México, onde o trabalho de alfabetização é da maior seriedade, eu já vi isso. Nós vendemos muitos livros para o México para alfabetização, mas lá se faz pesquisa de retorno, os contadores de histórias sabem contá-las.

As vezes os contadores telefonam dizendo: “Olha, essa história não está rendendo, eu não estou conseguindo”. Se ele não gosta, ele não conta bem, não é? Eles custaram muito a entender essa história do joelho, do umbigo, o Rolim; eles estavam com dificuldade de contar essas histórias, até pararam de comprar a série… mas agora eles já conhecem.

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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