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out
09

Um país melhor é um país de leitores – Ziraldo parte 3

Talvez não fossem histórias para contadores. Mas e as crianças, elas não ficam interessadas?

Em Brasília, eu vi uma moça contando essas histórias para os meninos. Nossa Senhora! Ela ficava de joelhos, botava menino ajoelhado um na frente do outro, era muito impressionante. Eu estava no pátio, com as crianças jogando bola, estava uma zona. Havia uma televisão enorme. Aí, a moça disse: “Queria mostrar uma experiência que eu fiz.” Uns quinze meninos sentaram no chão, e ela, de pé, contava histórias. Quando eu olhei, não tinha mais ninguém vendo televisão nem jogando futebol; estava todo mundo em dela, todos os meninos vieram escutar. Eu disse: “Isto é uma coisa muito séria”. O Cristóvam Buarque, governador de Brasília é um sujeito supersensível, conseguiu a maior barbada: fez um grande trabalho com contadores de histórias, pois a cidade está cheia desses contadores que vêm do Nordeste, onde a tradição é grande. Essa moça que estava contando histórias era mineira. Minas também tem um trabalho muito bom com contadores de história.

Você acha que o contador de histórias remete diretamente ao livro?

Acho que sim. A BBC tem um programa de meia hora com uma mulher, sentada num banco, contando histórias. A câmara não avança nem recua, não tem cenário, nada, e funciona, as pessoas buscam o livro se gostam da história.

Mas e a criança e a escola?

Na sala de aula de Dona Catarina e Dona Kátia, toda a turma lia e nós não éramos melhores que as outras turmas, éramos tão pobre quanto os outros. Até hoje, essa é uma turma inesquecível da minha cidade.

A turma lia basicamente livro ou jornal?

A gente leu a “Coleção das Moças”, a Madame de Ségur. Foi assim: a professora dava dever pra gente fazer e ficava lendo “Pollyanna”. Um dia, nós percebemos que ela estava enrolando e pedimos: “lê pra nós a história?”.

Qualquer coisa que ela lesse, novela, etc., ela abria o livro, lia e marcava dever para o dia seguinte; a gente ficava doido. Um dia, por intuição, ela disse: “Hoje quem vai ler o capítulo é a Ione”. A Ione leu e a professora perguntou: “Quem vai ler o capítulo amanhã?” Só respondeu a metade dos alunos (risos). Aí ela seguiu a ordem da chamada e, quando um não sabia ler era uma vergonha. No segundo semestre, todo mundo lia os capítulos, ninguém dizia “eu não sei ler”.

Então foi assim que você leu…

A gente leu “Pollyanna”, “Os desastres de Sofia”, em capítulos. Eu queria escrever uma tese, mesmo no “Menino Maluquinho” eu tinha uma tese na cabeça: se a criança for feliz, vai ser um adulto legal; em outras palavras: não conheço um canalha que tenha sido uma criança feliz… Então, no “Menino Maluquinho” e na “Professora Maluquinha”, tentei ao máximo forçar essa interpretação. Não vou escrever um tratado sobre essa tese, mas acho que a escola e o governo podem ajudar muito, com uma polícia séria de bibliotecas. Em Cuba todo mundo lê, é assustador, insuportável, inatravessável (conhece essa palavra?) porque lá, os livros são os mais chatos que já li na vida. Mas todo mundo lê, é inacreditável. Você pode falar mal de Fidel, da ditadura, daquele negócio todo, mas é o primeiro ditador humorista, não é? É o primeiro que não faz bacanal no palácio, que é mesmo um asceta e que, até prova em contrário, não levou o dinheiro para a Suíça… Tenho a impressão de que ele não é como o Stalin ou o Pinochet… Pra você ter uma idéia, Vilma (minha mulher) e eu fomos almoçar com a filha de Raúl Castro, muito minha amiga. Fomos no carro da Primeira Dama de Cuba e o carro não tinha marcha a ré… (risos). Então, na hora de estacionar, a filha de Raúl ia com o carro para frente, eu saltava e empurrava o carro para trás, até ele entrar na vaga… entendeu o Fidel? Você chega em qualquer aldeia de Cuba, com toda a pobreza, com aquela coisa maluca do Fidel, e as casas mais importantes são a Casa da Cultura e a Biblioteca. E todo menino lê. É uma política de bibliotecas correta, séria. Falo de bibliotecas-padrão, em cidades do interior. Biblioteca municipal não é igual à de escola. A municipal seria como a de Alexandria, com sala de leitura, livro de pesquisa, etc.

Aqui não tem isso, não tem uma política de biblioteca séria do Governo. São Paulo e Paraná estão tentando… Já Minas não tem propriamente uma política de bibliotecas, e sim, de escolas.

Você não acha que era preciso mudar esse ambiente austero das bibliotecas?

Sim, uma biblioteca tem que ser dinâmica, viva, e não um museu. Ela não é a depositária do saber. Deveria ser cheia de atrações, com filmes… Há uma polêmica em torno da leitura, da concentração de recursos na escola, de não gastar dinheiro com besteiras, com monitoras… Mas, por aí, está cheio de bibliotecário formado em biblioteconomia que é recepcionista, trabalha em feiras, em serviços temporários, sendo até cabideiro de elevador. Se amanhã procurarem uma bibliotecária para trabalhar um ano na Amazônia, ganhando R$ 1.200,00 por mês, vão aparecer cinco mil moças formadas. Faz-se uma tiragem, uma vai trabalhar lá (mas o poder age assim: “ela não vai dar 10% pra mim, não vou me esforçar em um negócio em que não posso levar nenhum”). Em educação não dá para ganhar dinheiro, a não ser que você compre ou construa um colégio. Tenho uma solução para a escola primária no interior – que só chinês e revolução popular podem fazer – que é terceirizar o ensino. A idéia é a seguinte: a coisa mais comum no interior é a professora dar aula em casa. Então, a quantos ela ensina? A quinze meninos? Tá bom, eu dou a ela quinze meninos, entendeu? Dou dinheiro para o lanche e todo sábado ela vem aqui para eu avaliar seus alunos. Eu distribuo os meninos de graça porque quem sustenta professora no Brasil é mesmo marido ou família (com um salário mínimo por mês ela não tem onde cair morta, vai tudo para a renda familiar, para ela poder dar aula)… mas essa idéia não vai acontecer nunca, porque não há uma revolução popular.

Qual seria então a solução?

Tem que haver um esforço do governo, um esforço sério, com base na simplicidade. Ensinar a gostar de ler e não se preocupar com o resto. Se você tem uma população de dez anos lendo e escrevendo, tem um ensino médio facilitado e uma Universidade ótima.

Você falou em gostar de ler. Como é que se ensina a gostar de ler? Numa sala de aula com 30 alunos, você tem 10, 15 que gostam de ler. Uma família não consegue fazer com que todos os filhos gostem…

É que na escola você tem o menino à sua disposição quatro horas por dia; nenhuma mãe conta com esse tempo, deve ser isso…

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Melissa Rocha

Jornalista apaixonada por cachorros e literatura, principalmente o gênero infanto-juvenil. Torcedora (e sofredora) do Palmeiras e Bahia. Fã de Drew Barrymore, Dakota Fanning, Anthony Kiedis e Red Hot Chili Peppers, All Star e Havaianas.

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