
Matéria publicada no Caderno Ilustrada do jornal Folha de São Paulo, no dia 7 de novembro de 2009, na página E6.
‘As pessoas precisam de fantasia’, diz Sendak
Premiada obra infanto-juvenil norte-americana chega ao Brasil após 46 anos.
Trama foi adaptada para o cinema por Spike Jonze e estreou no mês passado nos EUA; longa deve chegar ao Brasil em janeiro de 2010.
Lucrecia Zappi
Colaboração para a Folha em Nova York

Os monstros de Maurice Sendak se parecem com os horrores da Segunda Guerra Mundial ou com a história do garoto Lindbergh, de Nova Jersey, seqüestrado do berço e encontrado morto em 1932, fatos que marcaram a infância do escritor no Brooklyn, em Nova York.
“Hoje em dia é o 11 de Setembro e praticamente qualquer história do jornal diário”, diz o autor e ilustrador sobre a inspiração para “Onde Vivem os Monstros, que ganha tradução no Brasil, pela Cosac Naify, 46 anos depois da primeira edição.
“A não ficção sempre vai ser importante, mas não supera uma boa história fictícia. As pessoas querem e precisam de fantasia”, diz Sendak, em entrevista à Folha.
Se, por um lado, o filho de imigrantes judeu poloneses une passado e presente para mostrar que o tema dos monstros não é privilégio seu, mas vem das ansiedades do inconsciente coletivo, por outro lado, se pergunta com inocência: “Mas não são todas mas crianças que têm medo deles?”
O faz de conta de Sendak resiste, em todo o caso, ao moralismo da literatura norte-americana. O autor reconhece que a censura sempre foi um problema no país. “Meu livro ‘In the Night Kitchen’ foi banido por causa do pênis do Mickey: os bibliotecários desenharam uma fralda por cima!” conta Sendak sobre a história, com referências ao holocausto, do menino que quase vai pro forno, rodeado por cozinheiros com bigodinhos hitlerianos.
O livro de 1970 está na lista dos “cem mais controversos de 1990 a 2000” da Associação da Biblioteca Americana. Em outra lista da mesma associação, a trilogia “Fronteiras do Universo”, do inglês Philip Pullman, aparece entre os primeiros dez livros de 2008 que diversas organizações nos EUA tentam banir das estantes das escolas e bibliotecas, seja por linguagem ofensiva, seja por conteúdo sexual ou homossexual. Segundo a Liga Católica, a trilogia passa uma mensagem “anticristã”.
“É uma vergonha que [a censura] continue a existir”, diz Sendak. “Mas, em alguns casos, os livros ganham a atenção que eles normalmente não teriam porque todo o mundo fica dizendo: ‘É terrível, não leia, você vai ficar louco!’ Então, quem não gostaria de lê-los?

Prêmios
Sendak pode ser controverso, mas, aos 81 anos, acumula grandes prêmios da literatura, como o National Book Award e o Hans Christian Andersen, considerado no Nobel da literatura infantil. foi “Onde Vivem os Monstros” que o consagrou de vez, em 1963.
“Escolhi o títulos ‘Where the Wild Horses Are’ (“Onde Vivem os Cavalos Selvagens”, em tradução livre), antes de perceber que não sabia desenhar cavalos. Então, me decidi por ‘coisas’ e as baseei em minhas tias e tios, o que não é muito simpático, mas é a verdade”, diz o autor sobre o título “Onde Vivem os Monstros”, (“Where the Wild Things Are”, em inglês).
“O que mudou desde então foi tudo. E nada. Continuo sem saber como o livro tem atraído as crianças. Sinto-me feliz e grato, mas não entendo”. E no que deu certo ele não mexe. Nesse sentindo, acompanhou a produção da edição brasileira de casa, em Connecticut, opinando até na escolha do papel.

Autor de diversos projetos visuais, como figurinos e cenários para ópera e teatro, Sendak participou da adaptação do livro para o cinema. O filme estreou nos EUA no mês passado e chega ao Brasil em janeiro.
“Sinceramente, não mudaria nada”, diz sobre o longa nada óbvio de Spike Jonze, que segue de perto os personagens com a câmera, explorando suas fobias e desconfianças, e tem trilha de Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs.
“Mas, agora o filme saiu, estou feliz em voltar para os livros. Estou trabalhando em um chamado ‘Bumble-Hardy’! Depois, quero fazer outro para meu irmão”.


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