Não sou fã de biografias, pois sou exigente com este gênero literário. Tem gente que escreve qualquer coisa, mal faz pesquisas de verdade sobre a vida do famoso e no fundo fico com a dúvida se o autor quer apenas ganhar grana em cima da vida de outra pessoa. No entanto, “Mais Pesado Que o Céu” foi uma surpresa. Acho Kurt Cobain um cara fascinante, lindo, inteligentíssimo, mas extremamente complicado e isso ficou ainda mais evidente no excelente trabalho de Charles Cross. O autor fez de fato uma demorada e extensa pesquisa sobre a vida de Cobain, seus familiares e amigos. Uma série de entrevistas com pessoas que passaram pela vida de Cobain, seja de forma intensa ou superficial. E recria os passos do roqueiro de uma forma tão detalhista que não me surpreenderei se o livro se tornar um filme.
É um excelente livro, principalmente para aqueles que admiravam e eram fãs do garoto/homem com mais cara de quero colo do mundo do rock. Mas é inevitável: é uma leitura que te arrasa. É muito triste saber de coisas que desconhecíamos sobre a vida do Kurt. Um garoto proveniente de uma família totalmente desestruturada, cresceu perturbado e cheio de complexos que iriam acompanhá-lo até o fatídico dia do seu suicídio.
As fotos de Kurt no livro são lindas e apaixonantes. Uma criança perfeita, de uma beleza invejável; momentos distintos da vida dele também ilustram as páginas de “Mais Pesado Que o Céu”.
Quem nega que Kurt era extremamente lindo? Dono de um cabelo maravilhoso, olhos de um tom azul piscina, um sorriso apaixonante e de muita sensibilidade. Mas toda essa beleza só era (é) vista nos olhos dos outros, pois Kurt se achava feio, magrelo demais e tinha sérios problemas com o físico.
E quem mais poderia ajudar ele em todos os aspectos da sua vida, inclusive com a questão do uso abusivo de drogas pesadas, era Courtney Love. Nunca simpatizei muito com ela, pelo que lia e via em entrevistas e fatos sobre os dois, para mim ela era a grande culpada de pirações e loucuras de Kurt. Mas Cross de uma maneira firme é declaradamente simpático a Love. Retira dela partes da culpa do comportamento de Kurt e ainda a retrata como vítima dos exageros de Kurt.
Tudo bem que ele não era santo, mas o cara só faltava gritar desesperadamente pedindo a ela socorro e esse socorro nunca veio, nem quando ele simplesmente sumiu do mapa e ela pouco fez. Ligou para o babá (sim o babá, um jovem rapaz amigo de Kurt) de Frances (a linda filha do casal) e mandou que ele procurasse pelo marido dela. Fiquei com muita raiva de Courtney Love neste fato. Mas, mais uma vez, Cross tenta justificar as decisões de Courtney.
O único momento do livro que não gostei e achei nada a ver é o final. Cross se manteve coerente ao longo de todo o livro, mas ao reconstituir o último dia de vida de Kurt fantasiou demais. Inclusive escreveu e descreveu sentimentos que só poderiam estar na cabeça de Kurt e nem ele, nem eu, nem você e ninguém mais saberá, afinal isso Kurt levou com ele.
Eu entendo que ele tenha tentando descrever o que provavelmente Kurt sentiu e pensou, mas isso não vamos saber nunca. Ele poetiza, tenta criar um clima introspectivo, é bonito, emociona os leitores, mas não é real.
Kurt foi um cara muito encantador e também extremamente complicado, por isso “Mais Pesado Que o Céu” é tão perturbador e inquietante. É um livro que se lido de uma vez, deprime. E para aqueles que acham que ele durou até demais, que morreu e não faz falta, só lamento. Prova disso é que os CDs do Nirvana vendem até hoje, músicas são tocadas nas rádios até hoje, vemos garotos e garotas apaixonados pelo rock estampando o lindo rosto de Kurt em camisetas até hoje. E também até hoje queremos saber sobre a vida dele, prova é o sucesso de “Mais Pesado Que o Céu”. Kurt me deixa saudade, letras sinceras que refletem as suas experiências pessoais e o poder de sempre ouvir suas músicas com aquela voz doce e agressiva ao mesmo tempo.
Encerro com uma pequena homenagem






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