

Foi com essa frase (trecho de uma das muitas cartas enviadas pelo Zodíaco para a redação de um grande jornal nos Estados Unidos, na década de 60) que decidi começar o post de um livro lançado no mercado brasileiro em 2007 apenas porque a produção do filme estava dando passos largos. Me refiro a “Zodíaco“ de Robert Graysmith.
Mais uma vez o mercado deste país decide publicar livros que já existem há tempos em outros países apenas porque uma adaptação foi feita para o cinema. Mas fazer o que não é mesmo? O cinema é mais barato, atinge maior público, é mais rápido e fácil de absorver, tem recursos que muitos consideram mais atrativos que a literatura. Mas como sou otimista e tenho grandes esperanças para muitas coisas, sonho com o dia em que o cinema não seja o único embasamento para que os brasileiros saibam da existência de títulos que são bons e muito populares em países que prezam e respeitam a cultura.
“Zodíaco” é um livro que mexe com os nervos de quem lê. Apesar de vivermos em uma época em que há a banalização da vida (ou seria da morte?), em que ao ligarmos a televisão e sintonizarmos em qualquer telejornal de qualquer canal da TV aberta ou fechada vamos ouvir e ver notícias sobre morte, assassinato, corrupção e outros tantos tipos de violência, em que há filmes e seriados que lidam diretamente com o assunto morte, esse livro despertou minha curiosidade.
A literatura, o cinema, o teatro, a música deveriam nos livrar dessa realidade cruel e pungente. No entanto, uma vez ou outra gosto de ler algo real, cruel, avassalador, que mexa com os meus nervos e provoque sentimentos extremos, seja ele raiva, revolta, nojo e afins. E por conta deste lado curioso e sádico, fui seduzida por “Zodíaco”.
O livro é baseado em fatos reais e o autor viveu de perto a estória. Robert Graysmith era um cartunista em um grande jornal de São Francisco, na Califórnia no final da década de 60. Bem jovem, Graysmith acompanha o alvoroço na redação do San Francisco Chronicle com o recebimento de uma carta codificada juntamente com um pedaço de pano ensangüentado que parece ser parte de uma roupa.
Esse pitoresco fato vai despertar a curiosidade e o lado detetivesco do jovem e com o tempo faz com que isso se torne uma verdadeira obsessão para ele.

Empenhados em decodificar a carta recebida, os jornalistas e agentes do FBI e da CIA se unem. Diversas tentativas foram feitas para entender a mensagem, porém após muito custo e tentativas mal-sucedidas, o código foi decifrado. Começa então uma investigação sobre a autoria da carta, afinal um homem declarava ter assassinado outro e deu pistas sobre o próprio crime que cometera.
E, assim, uma sucessão de crimes hediondos e gratuitos começou a acontecer na Califórnia, aterrorizando a população, intrigando a polícia e inquietando jornalistas. Cartas começaram a chegar à redação do San Francisco Chronicle narrando outros crimes, futuros crimes e dando pistas sobre quem era o Zodíaco, codinome dado pelo assassino para si próprio.
O Zodíaco começou a ficar ainda mais ousado e passou a exigir que o San Francisco Chronicle publicasse trechos de suas cartas nos jornais. O que foi uma grande polêmica entre editor e policiais, pois se não publicassem, novos crimes aconteceriam, e se publicassem se tornariam reféns das exigências do maníaco.
Policiais e agentes por mais que investigassem e tentassem descobrir o verdadeiro assassino, não chegaram a lugar algum. E por mais de vinte anos as investigações prosseguiram, sem sucesso.
O jornalista Paul Avery, amigo de Graysmith dá uma de detetive e tenta também identificar a identidade do serial killer, também sem chegar a lugar algum. E nessa busca louca e desenfreada estava também o próprio jovem cartunista que acabou por negligenciar a própria família em busca da sua obsessão.

O Zodíaco, a ousadia de suas ações, a perfeição com que cometia os crimes sem deixar vestígios claros e a não solução dos casos, impressionaram tanto Graysmith que ele decidiu escrever o livro “Zodíaco” contando detalhes sobre a estória de um dos serial killers mais procurados dos Estados Unidos, até hoje.
O livro traz as cópias das cartas, trechos dos jornais que publicaram as exigências do assassino, comentários dos investigadores, detalhes dos crimes e das vítimas, os suspeitos investigados e também suas próprias impressões e investigações. É um livro muito bem escrito, rico em detalhes e que impressiona. Não sei, mas acredito que se esses crimes fossem cometidos nos dias de hoje, seria mais fácil chegar até ao assassino. Afinal os aparelhos técnicos de investigação evoluíram muito, as técnicas de investigações também, bem como os recursos biológicos para identificação de DNA.
Gostei do filme baseado no livro. Com um elenco interessante (gosto muito de Mark Ruffalo – “Ensaio Sobre a Cegueira” e Jake Gyllenhaal – “O Segredo de Brokeback Mountain”) e boas atuações, o filme não deixa muito a desejar em relação ao livro. No entanto, no filme deram tanta importância a personagem do jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr. – “Homem de Ferro”) e no livro ele não tem tanto destaque assim. Mas no filme, essa atenção exagerada é até entendível, afinal Avery é jornalista, amigo de Graysmith e tem papel importante nas investigações.
Infelizmente o segundo livro escrito por Graysmith sobre o tema, “Zodiac Unmasked: The Identity of Americas Most Elusive Serial Killer Revealed” não chegou por aqui e acredito que não chegue mais. Então que fiquemos apenas com o primeiro dos livros e vale ressaltar que para quem gosta de uma boa investigação policial na literatura ou, como eu, sente curiosidade esporadicamente de ler algo mais pesado, “Zodíaco” é uma boa pedida!

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